01/12/2005 -
18h22mPalocci sobre o PIB: 'A
crise política abalou fortemente as expectativas'

Sabrina Valle - Globo
Online
RIO - O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, afirmou que a crise
política impactou negativamente as expectativas dos consumidores e
dos empresários. O ministro disse que a economia recebeu "uma
notícia ruim" com a divulgação da queda de 1,2% do PIB no terceiro
trimestre. Ele também reconheceu que a política monetária pode ter
reflexos negativos sobre o crescimento do país, mas voltou a
defender o trabalho do Banco Central e o rigor em relação aos juros
para o controle da inflação.
- Admitimos esse debate (sobre a alta dos juros) como um debate
legítimo, mas penso que não há erro de dose. Na verdade, combater a
inflação tem custos. Ajustar o país do ponto de vista fiscal tem
custos, isso exige esforço - afirmou, em almoço com empresários na
Firjan, realizado em sua homenagem.
Palocci ressalvou que as expectativas começaram a melhorar mesmo
ainda durante turbulência politica porque, segundo ele, "as pessoas
perceberam que a força da economia política é mais forte da crise
política".
- De fato, houve um impacto da crise sobre as decisões de
investimento e consumo. Houve uma forte queda dos consumo de bens
duráveis e houve uma retração dos investimentos. Consumidores e
agentes investidores tomaram a mesma atitude de cautela. Mas, mais
recentemente, ele (o quadro) vem se recuperando. Portanto, houve,
sim, uma ação forte da crise política sobre o processo econômico, é
um processo que já se reverte - afirmou.
Apesar da queda de 1,2% do PIB entre julho e setembro, justamente
o período de agravamento da crise política, Palocci previu uma
retomada do crescimento no quarto trimestre do ano. "Teremos um novo
trimestre já indicando retomada do crescimento", afirmou,
acrescentando que tem "absoluta clareza" de que o Brasil está num
ciclo de crescimento longo.
O ministro também disse ser legítima a discussão sobre a dose do
"remédio" juro, mas considera incontestável a necessidade de
controlar a inflação. Sugundo ele, o país precisa decidir se o
combate a ela continua ou não, "como querem alguns".
"Uma coisa é discutir a flexibilidade do grau de ação. Outra
coisa é discutir outras políticas" que, segundo Palocci, não
funcionaram no passado.
Palocci se referiu à ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, como
companheira e negou que sua defesa da política monetária como a
melhor forma de combater a inflação seja uma crítica às posições da
ministra.
O ministro também se esquivou de comentar a cassação do deputado
José Dirceu. Perguntado se a cassação reforçaria as críticas
políticas em relação à condução da economia, Palocci referiu-se a
Dirceu também como "companheiro", mas desviou-se do assunto.
- Não colocaria isso (a cassação) na questão específica do
deputado José Dirceu, meu companheiro José Dirceu, me refiro assim a
ele. O problema da crise política é que todos têm a expectativa que
as instituições funcionem - afirmou.
O almoço na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio de
Janeiro (Firjan) foi promovido pelo presidente da instituição,
Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, e prestigiado por centenas de
empresários e políticos ligados ao Rio.
- Estamos aqui para prestar homenagem ao ministro Palocci, cujo
papel tem sido fundamental nos resultado que estamos obtendo na
economia - afirmou.
O presidente da Firjan defendeu a austeridade fiscal, o sistema
de metas de inflação, o regime de câmbio livre e o combate à
inflação implementados pelo ministério da Fazenda. Sobre os altos
juros, que prejudicam as indústrias reúnidas na federação, Eduardo
Eugenio disse que esse é "um detalhe dentro de uma moldura" e
reafirmou o apoio às linhas que guiam a política econômica.
- Não será o resultado (do PIB) no terceiro trimestre que vai nos
abater (...) A inflação é o pior dos impostos. Atinge cruel e
imoralmente os mais pobres (...) Podem até ser passíveis de
discussão alguns aspectos como, por exemplo, o ritmo da queda da
taxa de juros, como essa casa vem há tempos se manifestando - disse.