Economia,
déficit e oncologia

RUBENS PENHA
CYSNE
A macroeconomia tem um traço em comum com a
oncologia, a ciência que estuda os tumores: é capaz de
fazer previsões, principalmente quando pessimistas, mas
não sabe dizer ao certo quando elas se materializarão.
Há, entretanto, uma importante diferença: as
previsões dos macroeconomistas, ao contrário daquelas
dos oncologistas (que quando o tumor é maligno podem
limitar-se a anunciar a eventual morte do paciente), em
grande parte dos casos não se materializam. Agentes
econômicos, ao contrário das células cancerosas, sabem
reagir de forma racional às previsões de catástrofe,
alterando a rota dos acontecimentos para evitá-las.
Nos Estados Unidos, por exemplo, em meados dos anos
80, falava-se muito na possibilidade de uma crise
mundial decorrente de uma possível aterrissagem forçada
( crash landing ) do dólar frente às demais
moedas (história que, curiosamente, repete-se na terra
do Tio Sam vinte anos depois).
Temia-se que os elevados déficits no balanço de
pagamentos em conta corrente, provocados pelos
exuberantes gastos fiscais do governo Reagan, levassem a
uma súbita corrida contra o dólar, provocando uma
recessão mundial. As previsões catastrofistas não se
materializaram. A racionalidade econômica reagiu antes,
por meio de uma abrangente lei discutida com o
Congresso, para reduzir paulatinamente as despesas
públicas via cortes lineares em todos os itens. O
produto final entrou para a História como a “Lei Grand
Rudman de Redução do Déficit”.
Exportadores brasileiros fariam bem melhor se, em vez
de discursos infindáveis contra os juros elevados e a
conseqüente valorização cambial, simples termômetros da
febre fiscal, canalizassem todas as suas energias para
um debate aprofundado dos gastos públicos. Algo com o
esforço informacional nacional, como ocorreu, por
exemplo, com a introdução das diferentes etapas do Plano
Real. O objetivo seria fazer surgir algo ao estilo da
“Grand Rudman Law”, mas sem os seus erros de concepção.
Elevações das despesas públicas requerem aumentos de
juros que valorizam o câmbio até o ponto em que a
despesa volte ao patamar anterior, pela queda das
exportações. Câmbio e juros são apenas os mensageiros do
problema. Reza a cartilha militar que não se devem matar
os mensageiros, por mais desagradáveis que sejam as
notícias que trazem.
A economia está vulnerável. Uma queda no fluxo de
capitais para os Estados Unidos (que hoje em dia têm um
déficit externo em conta corrente da ordem de US$ 800
bilhões), e a favor da Ásia, por exemplo, implicaria a
necessidade de o Federal Reserve elevar as taxas de
juros. Num passo subseqüente, o preço do dólar no Brasil
subiria, ao mesmo tempo que a recessão no resto do mundo
reduziria nossas exportações, tanto no preço quanto na
quantidade. Tais pontos implicariam, internamente, queda
da produção e aumento dos preços.
Tanto a tentativa de conter os efeitos do choque
sobre a inflação, via aumento de juros, quanto a redução
interna do nível de atividade pressionariam rapidamente
a velocidade de aumento do coeficiente dívida líquida
sobre receitas públicas. A partir de certo ponto, a
política de metas de inflação poderia se tornar
inviável, tendo-se que apelar para a receita
inflacionária. Os 4,5% ao ano projetados para 2007 e
2008 tenderiam a situar-se abaixo da elevação efetiva
dos preços.
Cabe mostrar que somos agentes econômicos racionais,
que reagem às previsões, e não simples células da seara
oncológica.
RUBENS PENHA CYSNE é economista
(http://www2.fgv.br/professor/rubens).