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OPINIÃO
Rio, 09 de julho de 2006 Versão impressa
Economia, déficit e oncologia

RUBENS PENHA CYSNE

A macroeconomia tem um traço em comum com a oncologia, a ciência que estuda os tumores: é capaz de fazer previsões, principalmente quando pessimistas, mas não sabe dizer ao certo quando elas se materializarão.

Há, entretanto, uma importante diferença: as previsões dos macroeconomistas, ao contrário daquelas dos oncologistas (que quando o tumor é maligno podem limitar-se a anunciar a eventual morte do paciente), em grande parte dos casos não se materializam. Agentes econômicos, ao contrário das células cancerosas, sabem reagir de forma racional às previsões de catástrofe, alterando a rota dos acontecimentos para evitá-las.

Nos Estados Unidos, por exemplo, em meados dos anos 80, falava-se muito na possibilidade de uma crise mundial decorrente de uma possível aterrissagem forçada ( crash landing ) do dólar frente às demais moedas (história que, curiosamente, repete-se na terra do Tio Sam vinte anos depois).

Temia-se que os elevados déficits no balanço de pagamentos em conta corrente, provocados pelos exuberantes gastos fiscais do governo Reagan, levassem a uma súbita corrida contra o dólar, provocando uma recessão mundial. As previsões catastrofistas não se materializaram. A racionalidade econômica reagiu antes, por meio de uma abrangente lei discutida com o Congresso, para reduzir paulatinamente as despesas públicas via cortes lineares em todos os itens. O produto final entrou para a História como a “Lei Grand Rudman de Redução do Déficit”.

Exportadores brasileiros fariam bem melhor se, em vez de discursos infindáveis contra os juros elevados e a conseqüente valorização cambial, simples termômetros da febre fiscal, canalizassem todas as suas energias para um debate aprofundado dos gastos públicos. Algo com o esforço informacional nacional, como ocorreu, por exemplo, com a introdução das diferentes etapas do Plano Real. O objetivo seria fazer surgir algo ao estilo da “Grand Rudman Law”, mas sem os seus erros de concepção.

Elevações das despesas públicas requerem aumentos de juros que valorizam o câmbio até o ponto em que a despesa volte ao patamar anterior, pela queda das exportações. Câmbio e juros são apenas os mensageiros do problema. Reza a cartilha militar que não se devem matar os mensageiros, por mais desagradáveis que sejam as notícias que trazem.

A economia está vulnerável. Uma queda no fluxo de capitais para os Estados Unidos (que hoje em dia têm um déficit externo em conta corrente da ordem de US$ 800 bilhões), e a favor da Ásia, por exemplo, implicaria a necessidade de o Federal Reserve elevar as taxas de juros. Num passo subseqüente, o preço do dólar no Brasil subiria, ao mesmo tempo que a recessão no resto do mundo reduziria nossas exportações, tanto no preço quanto na quantidade. Tais pontos implicariam, internamente, queda da produção e aumento dos preços.

Tanto a tentativa de conter os efeitos do choque sobre a inflação, via aumento de juros, quanto a redução interna do nível de atividade pressionariam rapidamente a velocidade de aumento do coeficiente dívida líquida sobre receitas públicas. A partir de certo ponto, a política de metas de inflação poderia se tornar inviável, tendo-se que apelar para a receita inflacionária. Os 4,5% ao ano projetados para 2007 e 2008 tenderiam a situar-se abaixo da elevação efetiva dos preços.

Cabe mostrar que somos agentes econômicos racionais, que reagem às previsões, e não simples células da seara oncológica.

RUBENS PENHA CYSNE é economista (http://www2.fgv.br/professor/rubens).


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