Por Cyro Andrade
26/05/2006
"Ainda
não decidi se sou candidato. Como vou falar sobre campanha"? Essa é uma das
frases recentes do presidente Lula para fazer seu já habitual jogo de
desentendido, que, evidentemente, não engana ninguém. É claro que ele é
candidato. É óbvio que está em campanha. Sabe-se disso em todo o mundo. Até na
China. Credite-se a possibilidade transnacional de compreender as esquivas de
Lula à esclarecedora literatura que há anos vem sendo produzida, em vários
países, inclusive no Brasil, sobre os chamados ciclos político-econômicos, em
que costumam navegar postulantes à reeleição. É teoria de validade líquida e
certa, empíricamente comprovada, essa que explica ações de governo, no campo
econômico, por razões de interesse eleitoral. Se incerteza existe, é aquela que
paira sobre o que virá depois das eleições, seja quem for o vencedor em outubro,
como desdobramento do oportunismo político que hoje se pratica. Ou por efeito da
confrontação da instabilidade internacional e a orientação da política econômica
do futuro governo. Ou pelas duas coisas.
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Beto Nejme |
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Os estremeções
das últimas semanas em cotações de todos os ativos, mundo afora, constituem a
melhor evidência de que a incerteza, nascida e nutrida entre as nuvens que
pairam sobre os rumos da economia americana, está ganhando corpo. Procura-se
enxergar em meio aos véus tecidos pela volatilidade dos mercados. No Brasil
também. E aqui, sendo a época eleitoral, o caldo da imprevisibilidade tem
ingredientes tanto econômicos, como políticos.
Não seria nada demais
essa turbulência de agora, "nada que pareça ser o fim do mundo", avalia,
bem-humorado, Sergio Werlang, diretor executivo do Banco Itaú. "Agora que o
Brasil tem tanta reserva e tão pouca vulnerabilidade externa, não vejo maiores
problemas", acrescenta.
De todo modo, não há como ignorar que, como
escreveu no "Financial Times" o analista Martin Wolf, "a atual combinação de
valorização de ativos reais (como imóveis e ações), baixos spreads dos ativos de
risco em relação àqueles livres de risco (como títulos de mercados emergentes e
de empresas em relação a títulos do Tesouro americano), o aumento dos preços
reais de commodities (petróleo, principalmente) e grandes mudanças nos padrões
de poupança, investimento e financiamento em todo o mundo (evidenciadas nos
'desequilíbrios' globais e crescente endividamento nos mercados imobiliários,
notadamente nos EUA), é boa razão para nervosismo."
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Ricardo Rimoli/Valor |
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Marcelo Portugal: O câmbio valorizado significa mais
riqueza, dá uma sensação melhor de bem estar; não é à toa que se gera mais
desvalorização depois das
eleições |
Se a incerteza aumentou no
Brasil, não foi em relação a 2002, quando a sombra das incógnitas que cercavam
as intenções do candidato Lula tingiu de cor escura o risco-país. Nem em relação
a 2003. Nem em relação a 2004. Mas subiu em relação a 2005, por que cresceu a
incerteza em relação à economia internacional. O pensamento de Werlang, exposto
nessa sucessão de comparações temporais e na convicção de que o Brasil está bem
escorado em contas externas favoráveis, é uma expressão de virtual consenso
entre analistas - que se estende a perspectivas otimistas para o crescimento, se
as pretensões não forem demasiadas.
A melhora das contas externas foi
bastante pronunciada, embora tenha exigido um custo alto. O ano de 2003 foi
terrível, com forte redução do poder de compra dos salários e aumento importante
do desemprego, que já não era baixo. Com essa arrumação do balanço de
pagamentos, a possibilidade de não se ficar no "stop and go" é hoje bem mais
firme do que em anos anteriores, quando o déficit de conta corrente ainda era
muito alto. Fernando Sampaio, diretor da LCA Consultores, tem essa visão de um
processo benigno, mas faz duas ressalvas. Primeira: "A chance de crescer rápido
não é grande, porque ainda se carrega um problema de endividamento público
pesado e isso tolhe o crescimento da economia, pelo impacto sobre juros,
investimento público etc." Segunda: "Se demorar demais a sinalização de que o
câmbio vai transitar para um nível mais cômodo para o setor produtivo, pode-se
corroer essa conquista da melhora das contas externas - num prazo que não será
curto, mas pode acontecer."
De sua parte, Luiz Renato de Oliveira Lima,
professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV/Rio, acha que "a
economia brasileira é muito mais previsível hoje do que há dez anos, porque
houve um amadurecimento politico". Antes, "tinha-se um plano econômico a cada
ano. Hoje, a idéia de fazer mágica para salvar a economia é coisa do passado.
Existe mais visibilidade do que há dez anos."
O que não significa que a
visibilidade é total. Nem poderia ser, num regime econômico em que a incerteza
move as engrenagens da iniciativa empresarial e da produção de lucro. Mas, ainda
que prevaleça a impressão, e forte, de que aventureiros não têm chance de se
apossar das rédeas do governo e das políticas públicas, há o fato inegável de
que o Brasil vive um novo ciclo político-econômico e, portanto, cabe prestar
atenção em que como isso se dá e como pode perturbar o andar da carruagem no
futuro próximo.
Marcelo Portugal, professor titular do departamento de
economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tem um estudo
empírico dos ciclos político-econômicos no Brasil no período 1980 a 2000 (em
co-autoria com Athos Prates da Silveira Preussler). Os resultados de sua
pesquisa confirmaram a hipótese de oportunismo político em taxas de inflação e
nos gastos totais do governo federal. O trabalho não trata de câmbio, mas
Portugal sente-se à vontade para estender o mesmo raciocínio a essa área, para
onde se volta hoje grande parte dos esforços de desvendamento do futuro da
economia brasileira. "Existem trabalhos que mostram que um dos elementos usados
dentro da política do chamado ciclo político-econômico é a manipulação da taxa
de câmbio. Não afirmo que isso esteja acontecendo, mas é fato que governos
tendem a manter as taxas de câmbio valorizadas antes da eleição e desvalorizam
depois das eleições. "
Oliveira Lima, da FGV/Rio, não faz pesquisa na
área de ciclos político-econômicos. Contudo, como econometrista, identifica
"algumas evidências empíricas", entre as quais a de que em ano eleitoral se
verifica uma apreciação cambial "muito grande", expressão de um "populismo
cambial, que puxa a inflação para baixo, ao mesmo tempo que se cria uma farra
consumista, e aumenta o bem-estar diretamente relacionado com a apreciação
cambial".
Que eleitor não gosta disso? "Foi assim no governo de Fernando
Henrique Cardoso, de maneira explícita, e este ano é a mesma coisa", observa
Oliveira Lima. "É difícil provar, porque o câmbio é flutuante, se o governo de
fato tem isso em mente, ou é uma coincidência. Mas é uma coincidência que tem
ocorrido governo após governo."
Portugal confirma: "A lógica é a de que
o câmbio valorizado significa que estamos mais ricos, em dólar. Estamos
aumentando o valor da produção doméstica. Isso dá uma sensação melhor de
bem-estar para as pessoas. Não é à toa que Fernando Henrique Cardoso
desvalorizou o câmbio depois da reeleição. Não é à toa que no México a eleição
foi em novembro de 1994 e eles desvalorizaram em 1995. Vários países, ao longo
da história, mostraram tendência para gerar mais desvalorização cambial após
eleições do que antes de eleições."
A certeza de que o governo Lula está
em época de semeadura no terreno cambial cresce um pouco todos os dias - por
efeito de declarações de autoridades a favor de maior liberalização cambial ou
outras manifestações de mal disfarçado desagrado com a valorização do real - o
que não contribui exatamente para desanuviar horizontes de 2007 para a frente em
matéria de administração de política monetária.
Werlang observa que,
este ano, a política monetária apertada "amplificou uma valorização cambial que
ocorreria de qualquer forma, porque somos grandes produtores de commodities" [Os
termos de troca do Brasil melhoraram, com o aumento dos preços de mercadorias
exportadas, particularmente commodities, em relação às importações, com reflexos
positivos sobre o câmbio].
Gastar mais, ou anunciar gastos que ficam para o outro governo, e manipular o
câmbio são práticas comuns de oportunismo político
O que fazer, então, para aparar essa amplificação? "As sugestões
básicas são as de sempre", diz o diretor do Itaú: "Cortar juros um pouco mais
rapidamente, avançar na liberalização cambial (a legislação ainda tem um
tendenciosidade grande de investimento para dentro, quando devia ser neutra);
mais no médio prazo, liberalizar tarifas de importação e reduzir proteções
não-tarifárias. E, além de aumentar o superávit primário através do corte de
gastos, comprar câmbio mesmo, comprar reservas, fazer intervenção mesmo. Tem que
fazer, paciência, porque, no fundo, o câmbio valorizado tem apelo de curto
prazo, mas, a longo prazo, a evidência empírica é de que os países crescem
menos."
A questão cambial é central para se colocar a política econômica
em perspectiva, tanto no cenário doméstico, como no internacional.
Rubens Penha Cysne, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia
da FGV/Rio, entende que não é o caso de se ficar discutindo se a taxa de câmbio
está indo para cá ou para lá. Pela boa razão de que o câmbio, sendo flexível,
decorre do que vai acontecendo na economia e, no fundo, é um preço que reflete
uma decisão da sociedade sobre a dimensão que escolhe dar para o déficit de
conta corrente no balanço de pagamentos. "Iniciamos o processo de flutuação
cambial em 1999 e, portanto, a sociedade ainda está aprendendo a conviver com
câmbio flutuante", lembra
Cysne. "Quase toda a
experiência anterior era predominantemente de desvalorizações da moeda nacional,
que não retrocediam." Considerada essa moldura de circunstâncias, é essencial
ter em mente que "a flutuação confere ao governo uma responsabilidade adicional
de controle fiscal, pois, caso contrário, o custo da valorização cambial imposto
aos exportadores pode ser demasiado elevado, ameaçando um setor responsável por
boa parte de nossas inovações tecnológicas".
O raciocínio que
Cysne sugere começa com a opinião de que o Brasil deveria
ter um superávit em conta corrente (por escolha, como se disse) bastante
superior ao que tem agora, da ordem de 1,8% do PIB. Para comparar: a China tem
5,2%, a Rússia (com petróleo) tem 11%. O Brasil, entende o economista, podia
estar se aproveitando mais dessa onda positiva de preços de commodities, para
ter uma inserção muito maior na exportação de poupança, ou seja, um outro
superávit em conta corrente. Ponha-se na conta também o fato de que aquele 1,8%
de superávit decorre, em parte, da queda dos investimentos do governo. Então, se
o governo estivesse investindo como no passado, entre 2 e 3% do PIB, e se a
economia estivesse crescendo 4 ou 5%, simplesmente não haveria superávit [se o
investimento do governo aumenta, o superávit cai porque as importações aumentam,
direta e indiretamente, e as exportações também caem, porque os recursos
aplicados em itens de exportação passam a ser canalizados para investimento, ou
seja, a "absorção interna" aumenta].
Conclui
Cysne: "São discutíveis as posições de defesa do status
atual do câmbio que se baseiem nesse superávit de 1,8%, que deveria ser bem
maior, sim, como referência principal num cenário de crescimento com rigor
fiscal, elevação dos investimentos em infraestrutura econômica e busca de maior
inserção comercial, com aumento da relação entre a soma de exportações e
importações e o PIB."
Da forma como as coisas se dão hoje, o exportador
tem razão ao reclamar do câmbio. Por que, explica
Cysne, ele vem arcando com as conseqüências da expansão
do setor público sobre o nível das taxas de câmbio (que tende a se valorizar
quando se elevam os juros para financiar o déficit público) e com os custos da
mais elevada variabilidade dessas taxas, associada a um alto grau de incerteza,
de imprevisibilidade, que ainda domina o funcionamento da economia, por razões
políticas, institucionais e fiscais.
O gasto público orientado por
objetivos eleitorais empurra a incerteza para cima. Portugal, da UFRGS, traz seu
estudo sobre ciclos político-econômicos para os dias de hoje, valendo-se de uma
penca de evidências de uso político de ações de governo em matéria econômica: o
aumento do bolsa-família, as mudanças do imposto de renda, o programa de tapar
buracos, o aumento dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios, a
redução de imposto para o setor de informática, o aumento do salário mínimo. "É
um conjunto de coisas que implicam ou expansão de gasto público ou redução de
receita, por acaso num ano eleitoral."
Mas, nem sempre se trata,
literalmente, de expansão de gastos. "Como há restrições para gastar no período
eleitoral, anunciam-se investimentos que terão efeito de caixa apenas depois da
eleição." É o caso dos empréstimos a estados e municípios para obras de
saneamento básico, no valor total de R$ 1,34 bilhão, retirados do Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço, anunciados segunda-feira pelo presidente or Lula
em discurso para prefeitos, no Palácio do Planalto. O presidente atribui a
"atraso na mentalidade política do nosso país" a norma da lei eleitoral que
proíbe o repasse de recursos federais a Estados e municípios depois de 30 de
junho, por impedir que prefeitos façam uso desses recursos, mesmo não havendo
eleições municipais, este ano, junto com as presidenciais.
Somando tudo,
Portugal vê problemas caindo no colo do próximo governo. "Isso acaba gerando um
volume de instabilidade econômica muito grande, porque, em 2007, quem quer que
ganhe vai ter de corrigir isso, vai ter que conviver com isso. " Portugal tem um
olhar crítico sobre as contas do superávit primário do setor público [receitas
menos despesas, sem incluir recursos destinados ao pagamento de juros da dívida
pública interna e externa], que, de 4,84% do PIB em 2005, iria para 4,25% este
ano, como meta. E que agora caiu para 4,1%. "O governo vai usar os PPIs, essa
possibilidade de ficar abaixo da meta e fazer de conta que não ficou." [ele se
refere aos projetos-piloto de investimento, cujos valores não são levados em
conta no cálculo do superávit fiscal].
Portugal acha, porém, que o Lula
[se] reeleito vai ser mais parecido com o Lula 2003, 2004 e 2005 do que com o
Lula 2006. O compromisso com a responsabilidade fiscal estaria colado em seu
termo de posse. E talvez o presidente esteja, mesmo, administrando seu
oportunismo político-econômico de modo a diluir ao longo de oito anos de mandato
os efeitos das bondades que faz agora, e respectivas correções de rumo. De toda
forma, vale perguntar, ainda: Qual é o programa para 2003/2010? "Se a política
econômica após a eleição voltar a ser pautada pela responsabilidade que marcou
os três anos de Lula e os quatro últimos de Fernando Henrique Cardoso, então o
oportunismo político não trará problemas muito grandes", concede Portugal.
Sampaio, da LCA, não se impressiona com essa questão de oportunismo
eleitoral. "A avaliação das pessoas, o que dizem nos jornais, tudo é muito
condicionado pelas inclinações partidárias de cada um. Acho que esse oportunismo
é esperável e, dentro de certos limites, é quase impossível de não ser
observado." Seu exemplo é o do reajuste do salário mínimo, "que foi moderado no
começo do governo, foi se acelerando e agora foi mais generoso". Exatamente como
aconteceu no governo de Fernando Henrique Cardoso. Enfim, "qualquer governo
faria todos os esforços para explorar ao maximo o espaço que tivesse no campo
fiscal para gerar boas notícias. Seja concedendo bondades, seja soltando
dinheiro para ter o que inaugurar. No governo de Fernando Henrique, em 2002,
viu-se uma clara aceleração do investimento. E seria engraçado se não fosse
assim. No fundo, é difícil imaginar coisa diferente."
Sampaio não vê
razões para se imaginar grandes mudanças na política econômica durante o próximo
governo. Lula parece ter mais chances de se eleger, mas provavelmente terá mais
dificuldade do que teria o candidato do PSDB para fechar uma base estável no
Congresso. Em qualquer hipótese, "pode haver algumas mudanças de enfase,
principalmente dado o grau de desconforto político que o câmbio está criando.
Isso seria o principal."
A incerteza política, e de políticas, diminuiu
sim, entende Sampaio, depois que Lula, tendo chegado à Presidência, "abandonou
muitas das críticas que ele e seu grupo faziam à politica economica nas linhas
que vinham sendo adotadas". Com isso, "não sobrou um foco de oposição franca a
essa linha com grande peso político". É verdade que há vozes de oposição, como a
da senadora Heloisa Helena [candidata do PSOL à Presidência da República], "mas
não têm competitividade". Então, é menor o grau de incerteza política também
"porque se estreitaram as hipóteses com que se pode trabalhar a respeito do que
virá em termos de política econômica durante algum tempo". É o contrário do que
se vê em outros países da América Latina, onde grupos políticos de forte perfil
crítico não apenas têm voz, como chegaram ao poder ou dele vão se aproximando,
como na Venezuela, na Bolívia, no Peru. No Uruguai, o governo do socialista
Tabaré Vásquez também mudou de mão, mas preferindo optar pelo caminho das
reformas mais bem comportadas.
Essa acomodação de lideranças, no Brasil,
em torno de propostas econômicas repetitivas acabou abafando a discussão de
possíveis alternativas. Sampaio concorda. "Isso pode mudar, mas é fato que a
criatividade dos economistas brasileiros já foi bem maior. Alguns vão achar
ótimo que a incerteza tenha diminuido, porque entendem que existe uma ciência
econômica una que emana dos EUA, da produção acadêmica de lá, e o resto são
heresias, heterodoxias, pajelanças. Na verdade, tem-se uma perda de espaço, de
eco, na opinião pública e na academia, das formulações latino-americanas que
reconhecem as especificidades da nossa condição."