RESENHAS

The world we have lost

Roberto Venosa

Engenheiro, Mestre em Administração Pública pela Universidade de Pittsburgh, Doutor em Sociologia peta EHESS, Paris, Professor Titular do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da EAESP/FGV e Professor Visitante da University of SI. Andrews, Escócia

 

 

PETER IASLETT
Cambridge, University Press, 1971.

Duas questões deveriam ser respondidas antes de se escrever uma resenha de um livro sobre demografía histórica para ser publicada em uma revista de Administração de Empresas: por que um livro datado (sua primeira versão é de 1965) deve ser lido?, e por que um livro sobre demografía histórica deve ser lido por administradores de empresa? Essas questões são ainda mais importantes se considerarmos que a demografía empírica ainda está procurando um referendai coerente que reúna as conflituosas tendências nas pesquisas mais recentes (Seccombe, Wally., 1992 A Millenium of Family Change, London, Verso). Em primeiro lugar, e respondendo a ambas questões conjuntamente, quando estudamos organizações, esquecemos de incluir processos, tais como nascimento, migração e morte, que estão, paradoxalmente, sempre presentes nas organizações, Fertilidade e migração, assim como família e reprodução, são objetos tipiáis dos estudos demográficos. Em segundo lugar, o livro do Professor Peter Laslett é um clássico e, só por isto, mereceria ser lido e relido várias vezes, Para que o leitor não abandone a leitura desta resenha, seria prudente justificar melhor as razões que estimulam a abordagem demográfica no estudo das organizações. Observemos um evento moderno: nas organizações, se examinarmos dados demográficos desagregados verificaremos que a idade média está diminuindo. Em outras palavras, as populações organizacionais estão se tornando mais jovens. Desta observação decorrem várias implicações; pelo menos uma delas merece ser destacada: se a tendência à manutenção de uma população jovem deve ser estimulada, as empresas devem se preparar para porem em prática planos de aposentadoria que mantenham estes fluxos. Há um infindável número de razões para se continuar a especular sobre a convergência e a determinação entre estudos demográficos e estudos organizacionais, porém, essas razões estão além dos limites de uma resenha bibliográfica. Se o leitor estiver parcialmente convencido, creio que seria útil citar os principais focos de atenção de The World We Haw Lost. O livro explora questões, tais como o tamanho e a estrutura das familias na Inglaterra pré-industrial, o número e a posição dos agregados em diferentes familias, as taxas de migração, o grau de alfabetização, o tamanho e a composição das aldeias, cidades e classes sociais, as condições de trabalho e de mobilidade social. Na edição de 1971, foram adicionados capítulos sobre a condição dos bastardos e as relações possíveis entre fome e população, sob a ótica malthuso-cambridgeana. Para começar, podemos salientar que a proposição de a passagem das famílias extensas para as famílias nucleares, com o advento da revolução industrial, não se sustenta â luz dos estudos histórico-demográficos. As famílias nucleares antecederam a revolução industrial e podem mesmo terem contribuído para seu advento, Um outro aspecto importante é o que as diferenças entre as famílias do Leste e do Oeste Europeus se acentuam quando examinamos: diferença etária entre maridos e esposas; período de aleitamento; número de empregados que integram núcleos familiares e, por derivação, tendências à exogomia, Uma dimensão também pouco considerada em estudos organizacionais, já mencionada acima, ê a tendĂȘncia à emergencia de ama cada vez mais importante faixa de terceira idade. O número crescente de mulheres que trabalham fora do lar deverá também redefinir a divisão sexual do trabalho, a divisão sexual das emoções e a divisão sexual do trabalho emocional (Venosa, Roberto. "Divisão Sexual do Trabalho, Divisão Sexual das Emoções, Divisão Sexual do Trabalho Emocional", artigo a ser publicado em breve). Uma derradeira nota para aqueles que, embora tenham achado "interessante", acreditem que já não tenham tempo para investir em outros tipos de leitura: Peter Laslett iniciou sua vida acadêmica em Cambridge como Professor de História e Teoria Política.

Depois de vinte anos ensinando Política e História, fundou o Centro para a História das Populações e das Estruturas Sociais e, embora aposentado formalmente, não deixa de comparecer aos coffee-breaks das sextas-feiras. Sempre às 11 horas, algumas vezes usando sua cambridgeana gravata borboleta. Quando The World We Have Lost foi publicado pela primeira vez, Peter já estava beirando os 50 anos.

The World We Have Lost é um livro escrito por um erudito Professor do Trinity College, em Cambridge, e de leitura muito agradável, talvez mesmo agradável só para confrontar com a tradição hístórico-demográfica na França, na qual se escreve difícil para não ser entendido.

 

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