RESENHAS

Brasil: a construção interrompida

Rosa Maria Vieira

Professora do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da EAESP/FGV

 

 

CELSO FURTADO
Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1992,87 páginas.

Teórico do desenvolvimento e um dos "explicadores" clássicos do Brasil, ao lado de Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Hoilanda e Caio Prado Jr., Celso Furtado construiu ao longo de sua vida uma respeitável obra teórica, levando o mundo subdesenvolvido à condição de objeto privilegiado de estudo. Seus trabalhos em muito inspiraram políticas concretas de governos latino-americanos que, após a Segunda Guerra, procuraram romper o círculo da pobreza e do subdesenvolvimento através da industrialização.

Hoje, porém, o ideólogo otimista do desenvolvimento industrial do Terceiro Muundo ce deu lugar ao intelectual indignado e, ao mesmo tempo, cético. Celso Furtado teme agora pelo futuro incerto do Brasil, cuja construção do sistema econômico nacional foi interrompida e o projeto de desenvolvimento, com base na expansão do mercado interno, liquidado. Frente à hegemonia da onda neo-liberal e à ofensiva contrária a toda e qualquer concepção social que não esteja tão somente subordinada à lógica de mercado, ele propõe a resistência lúcida.

O seu livro Brasil; a construção interrompida, lançado recentemente pela Editora Paz e Terra, faz parte desta resistência.

São cinco ensaios que tratam da nova ordem mundial emergente ao fim da Guerra Fria, passando pela discussão da armadilha histórica do subdesenvolvimento, pela retomada de algumas das teses de Raul Prebisch e por uma nova concepção de desenvolvimento. Um elemento comum une estes ensaios: a busca do entendimento das mudanças na ordem econômica internacional, manifestada a partir da crise dos artos 70, e do lugar que caberia ao Brasil na lógica capitalista emergente.

Para Celso Furtado o que se assiste hoje, no plano econômico global, é a "degradação sem precedentes dos termos de intercâmbio dos países exportadores de produtos primários, (a) exorbitante elevação das taxas de juros, que fez crescer desmedidamente as dívidas dos países do Terceiro Munâo e (as) vastas transferências de recursos financeiros para os Estados Unidos" (página 16).

Nos anos 80, a economia americana, entrando num quadro de debilidade institucional, tornou-se quase ingovernável, conhecendo o endividamento externo e a desordem fiscal, perdendo a liderança tecnológica e a capacidade interna de gerar poupança para financiar a sua própria reprodução.

Concomitantemente ao declínio da tutela norte-americana, desenhou-se uma mimipolaridade no sistema de poder a partir do debilitamento dos sistemas econômicos nacionais e da emergência de mecanismos de decisões descentralizados e transnacionais.

Nessa situação, em que o poder das empresas transnacionais tendem a tomar obsoleta a idéia de nação., perdem eficácia as políticas macroeconômicas e atrofiam-se os mecanismos de intervenção estatal.

Em verdade, o que preocupa Celso Furtado, frente a este quadro global, é o futuro incerto dos países subdesenvolvidos, especialmente do Brasil, onde o processo de formação do Estado Nacional se interrompeu precocemente. Isto, conforme sua linguagem, significa que aqui não se realizou a difusão dos níveis de produtividade e das técnicas produtivas características das nações desenvolvidas, persistindo, também, profundas disparidades regionais de renda.

Sem a referência do sistema econômico nacional o que se tem é o império do mercado em estado puro. E, para além disto, no caso brasileiro, a possibilidade da inviabilização do país como projeto nacional pois, "a partir do momento em que o motor do crescimento deixa de ser a formação do mercado interno para ser a integração com a economia internacional, os efeitos da sinergia gerados pela interdependência das distintas regiões do país desaparecem, enfraquecendo consideravelmente os vínculos de solidariedade entre elas" (página 32).

Segundo as análises de Furtado, os sistemas econômicos dos grandes países subdesenvolvidos dificilmente sobreviverão ao perderem a força coesiva gerada pelo mercado intemo.

E, no caso concreto do Brasil, o predominio indiscriminado dos interesses das empresas transnacionais, na ordenação das atividades econômicas, conduzirá a tensões in ter-regionais em nível explosivo, a rivalidades corporativas, a bolsões de miséria. Em suma, à invibialização do país como projeto nacional.

Daí a sua angústia em saber "se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação" (página 35).

Fazendo frente à lógica perversa das forças dominantes, Celso Furtado coloca como imperativo a articulação de uma estratégia de resistência que, no Brasil, iria da ativação do potencial produtivo interno e da integração dos mercados regionais à formação de uma vontade política coletiva e transformadora.

Resta saber: quais serão os agentes efetivos deste processo de resgate nacional? Até onde pode-se pensar num projeto de desenvolvimento autônomo, nesta quadra do século, que leve em consideração as efetivas necessidades das maiorias e que, mesmo não estando simplesmente sob a égide das forças de mercado, subordina-se à lógica do capital?

Passageiro da Utopia, Quixote, lúcido (como ele mesmo se vê), Celso Furtado não responde a estas questões, mas alerta que "como a História ainda não terminou, ninguém pode estar seguro de quem será o último a rir ou a chorar" (página 9).

 

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