RESENHAS

Trabalho & sociedade: problemas estruturais e perspectivas para o futuro da "sociedade do trabalho"

Tarcila Luzia da SilvaI; José Carlos BarbieriII

IDoutoranda em Administração pela EAESP/FGV e Professora de Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
IIProfessor do Departamento de Administração de Produção e Operações Industriais da EAESP/FGV e Professor na Área de Administração e Economia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS/CCHS)

 

 

CLAUS OFFE
Traduzido por Gustavo Bayer E. Margrlt Martlnclc. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1991, 180 páginas, vot. 2 (Biblioteca Tempo Universitário n� 89, Série Estudos Alemães).

Desde a década de 40 está presente nas Ciências Sociais a hipótese de que a partir de um certo grau de industrialização, a tendência de desenvolvimento da "Sociedade industrial" se alteraria no sentido de expansão do setor "terciário". Os indicadores usados para verificar e confirmar essa hipótese são, principalmente, o peso do setor de serviços no produto interno e a participação da força de trabalho do setor de serviços na população economicamente ativa. São exemplos: os trabalhos de Clark (1940), Stigler (1956) e Fuchs (1968), que contribuíram de modo significativo para o reconhecimento da importância do setor de serviços nas sociedades modernas. Para esse último autor a economia norte-americana havia se transformado na primeira economia de serviços do mundo, ou seja, havia passado de uma economia industrial para uma outra onde a maioria de sua população economicamente ativa encontrava-se empregada nas atividades de serviços. Trabalhos como esses contribuíram para formar uma corrente de pensamento que entende ser o setor de serviços o setor determinante do dinamismo da economia como um todo, substituindo o papel que desempenhara o setor industrial.

Essa tendência gerou, principalmente entre cientistas sociais norte-americanos, interpretações genéricas e abrangentes cunhando conceitos como: "sociedade administrada", "sociedade pos-industrial", ou ainda "sociedade dos serviços pessoais".

Claus Offe elaborou esse trabalho a partir da observação do uso genérico desses conceitos, verificando a necessidade de se questionar essa conceituação que parte de definições enumerativas para chegar a "não conceitos" do que seja serviços, ou seja, serviço definido como resíduo.

Na primeira parte do livro Crescimento e Racionalização do Setor de Serviços, Offe dedica-se a analisar o comportamento desse setor através de uma classificação desconhecida na ampla literatura sobre o tema e, partindo dessa classificação, analisa esse setor considerando os fatores dinâmicos do seu desenvolvimento e as características sociológicas do trabalho aí praticado.

Apontando as deficiências conceituais dessas formulações sobre a "sociedade pós-industrial", Offe analisa o setor de serviços tendo como ponto de partida uma definição funcional do setor. Essa abordagem permite a análise do setor na sua determinação sociológica.

O pressuposto para essa definição funcional é de que o setor de serviços abrange a totalidade das funções dentro das quais se realiza a reprodução material da sociedade, compreendendo a manutenção de condições físicas da vida social, dos sistemas de normas culturais e legais, a transmissão e o desenvolvimento do acervo de conhecimentos de uma sociedade, seus sistemas de informação e de circulação.

A partir da hipótese de que os serviços em geral possam ser descritos como atividades de manutenção das estruturas sociais formais, discute-se a composição interna do setor, tendo como critério o seu distanciamento estrutural do trabalho produtivo, a saber: serviços comerciais, serviços internos à organização e serviços públicos e estatais. Trata-se, portanto, de uma classificação única na extensa literatura sobre o assunto, pois essa classificação inclui as atividades de serviços desenvolvidas pelos setores industriais tais como: manutenção, administração de materiais, transporte etc. Essa classificação retoma a discussão sobre trabalho produtivo e improdutivo e questiona as reais dificuldades de se medir a produtividade desses serviços, uma vez que sua razão de ser é o acompanhamento do processo de produção de mercadorias. Aponta, nesse aspecto ainda, a relevância do critério de classificação dos serviços quanto à sua rentabilidade e custos, em comparação com as demais atividades produtivas. Enfoca-se todos os aspectos resultantes dessa atividade "reguladora", assim como as possibilidades de racionalização nesse setor.

Na seqüência, o autor aponta os fatores que interferem no desenvolvimento dos serviços, pontuando as dificuldades na determinação do crescimento e da contração desse setor. Esses fatores são: a demanda dos clientes, a demanda da força de trabalho e a demanda da produção. As conseqüências sociais do crescimento/redução dos serviços na sociedade capitalista e as explicações sociológicas para o crescimento do trabalho nos serviços também estão presentes,

Na segunda parte do livro Estado de Bem-estar e Desemprego, Offe relata as críticas da direita e da esquerda em relação ao Estado de bem-estar social e sugere que esse Estado, diretamente dependente do crescimento e rentabilidade da economia, tornou-se um poder amortecedor irreversível para o capitalismo europeu, Com essa afirmação o autor polemiza com as idéias neo-liberais que sustentam ser o Estado de Bem-estar Social um obstáculo à retomada do crescimento capitalista. Nessa análise, o autor reconhece uma contradição impossível de ser resolvida, pois o capitalismo não pode coexistir com o Estado de Bem-estar Social e nem pode continuar existindo sem ele. Essa contradição básica é que faz com que surjam, em determinados períodos, políticas como as de Tatcher (na Inglaterra) e Reagan (nos EUA) que procuram desmontar o Estado de Bem-estar Social criado em períodos anteriores. As observações de Offe são muito pertinentes para aqueles que se propõem a entender as políticas de "desestatização" e desregulamentação em voga no atual momento.

Essa segunda parte do livro complementa a primeira e constitui um importante referencial para a análise das questões relacionadas com a expansão ou retração do setor de serviços, principalmente com respeito ao setor de serviços públicos e estatais.

Pela abrangência da análise e pelo diferencial que apresenta em relação às outras publicações no gênero, esse trabalho de Claus Offe torna-se obrigatório para todos que pretendem aprofundar estudos sobre os problemas estruturais da "Sociedade de Trabalho", bem como discutir o papel do Estado nessa nova fase de reestruturação do capitalismo.

 

BIBLIOGRAFIA SUPLEMENTAR

CLARCK, C. The conditions of economic progress. Londres, Macmillam, 1940.

FUCHS, V. R. The service economy. New York, Columbias University Press, 1968.

STIGLER, G. Trends in employment in the service industries. Londres, Priceton University Press, 1956.

 

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