RESENHAS

A history of japanese economic thought

Gilmar Masiero

Doutorando em Administração na EAESP/FGV

 

 

 

de TESSA MORIS·SUZUKI
Routledge, Routledge History of Economic Thought Series,
214 p.

As ciências econômicas, como toda a área de investigação científica, têm na aplicabilidade universal de suas descobertas sua principal forte de autoridade e legitimação. Os trabalhos de Adam Smith e Karl Marx são possivelmente os exempte mais significativos da universalização de suas idéias e da sua conseqüente utilização por diferentes agentes sociais, em diferentes partes do mundo, na busca sempre contínua do desenvolvimento econômico.

Este desenvolvimento econômico teve a Inglaterra como centro das atenções do mundo durante a I. Revolução Industrial, os Estados Unidos da América durante a II Revolução Industrial e atualmente o Japão como um dos grandes protagonistas da III Revolução Industrial - a revolução da informática e da biotecnologia propiciada pelos avanços da microeletrônica, das telecomunicações, da química fina etc.

Enquanto a Inglaterra dava seus primeiros passos na busca dos ganhes de produtividade propiciados pela mecanização da atividade produtiva, o Japão afastou de seu território quase a totalidade de estrangeiros lá existentes e manteve-se isolado do cenário internacional por um período superior a 150 anos (Era Tokogawa 1603-1856), só retomando suas relações com o mundo exterior após a chegada em sua costa de navios americanos (Os navios pretos - Comodoro Perry) que além de servirem para intimidação do povo japonês serviram também para a tomada de consciência, por parte dos japoneses, da superioridade tecnológica do Ocidente frente ao Oriente.

No Ocidente, esta superioridade tecnológica e econômica foi pensada e teorizada por um grande número de estudiosos do fenômeno econômico, e é de como os pensadores econômicos japoneses incorporaram as idéias desenvolvidas no Ocidente, e como desenvolveram suas próprias idéias, que a Professora de História Econômica da Universidade da Nova Inglaterra na Austrália apresenta aos leitores de língua inglesa. Sua contribuição é antecedida por duas outras publicações: Além da Computódia; Informação, Automação e Democracia no Japão em 1988, e Shown: a História ão Japão de Hiroito em 1984.

Após uma breve introdução, onde a autora contrasta o pensamento econômico japonês com o ocidental, destacando que "onde o estado desempenhou um papel vital no início e na proteção das empresas, não é surpresa o fato que as teorias do laissez-faire tenham um apelo menor que as teorias da escola histórica slemã centradas no estado", e, chamando a atenção para a original noção do significado do termo economia: "administrando a nação e aliviando os sofrimentos do povo", ela relaciona e discute autores, obras e idéias em seis grupos muito bem caracterizados.

Estes grupos procuram apresentar cronologicamente a história do pensamento econômico do Japão através do: 1. "Pensamento econômico do Japão de Tokogawa"; 2. "A introdução do pensamento econômico ocidental: da Restauração Meiji a I Guerra Mundial"; 3. "Debates econômicos no Japão do entre guerras"; 4, "Economia marxista do Pós-Guerra"; 5 ."Teoria econômica e o milagre econômico" e 6, "Pensamento econômico japonês contemporâneo".

No final do livro, numa brevíssima conclusão do último capítulo, a autora considera que a tendência comum de todos os economistas analisados é para a "rejeição da convencional e relativamente estreita interpretação do fenômeno econômico" e para a redescoberta do conceito de economia política para resgatar elementos sociais, políticos e culturais perdidos nas análises contemporâneas. Considera também que não existe evidência da "evolução de uma nava síntese do futuro pensamento econômico japonês na direção da síntese neoclássica/keynesiana que dominou o pós-guerra americano".

Mais importante que estas considerações é a classificação - sem deixar clara sua própria posição - que a autora faz dos economistas japoneses em dois grupos polares: "o primeiro vai do contraste entre a fé no livre mercado e a crença na necessidade de planejamento do Estado" e o segundo, vai do universalismo ao particularismo do desenvolvimento econômico japonês.

No primeiro grupo, a autora classifica pensadores econômicos contemporâneos como Suzuki, Imai, Uzawa e Miyamoto ou mesmo pensadores da Era Meiji ou Tokogawa como Kaiho Seiryo e Sato Nobuhiro. No segundo, que obviamente não excluí o primeiro, são utilizados os debates entre a escola Rono e a escola Koza, o peiisamento de Uzawa o Murakami, e de Sawa e Imai como exemplos mais significativos e representativos das tendências universalistas ou particularistas da interpretação econômica japonesa.

A maioria dos livros e textos destes e de outros pensadores japoneses, quer pelos anos de isolamento, quer pelo desenvolvimento capitalista "retardatário", foram escritos e publicados em Kanjí e as traduções para o inglês ou outros idiomas ainda é insignificante. Nesse sentido, a contribuição de Moris-Suzuki a economistas,, administradores, historiadores e estudiosos do Japão é de grande valor. Através dela, pode-se tomar contato com uma gama muita grande de informações sobre um considerável número de pensadores japoneses.

Após breves comentários sobre o ambiente econômico e a herança confuncionista - onde "na vida é o treinamento mais que o nascimento que conta" ou mesmo sobre seus ensinamentos "de que o objetivo para os indivíduos é o desenvolvimento da personalidade até que o ideal de um homem perfeito, de um verdadeiro cavalheiro, da sabedoria, seja alcançado" e que o "objetivo para a sociedade é sua ordem e harmonia universal sob a regra da perfeita sabedoria" - a autora apresenta as idéias de Kumazawa Banzan (1619-91) calcadas na crença da agricultura como base da economia; de Ichida Baigan (1685-1744) sobre o valor do comércio; de Arai Hakusaki (1657-1725), Ogyu Sorai (1666-1728) e Dazai Shunday (1680-1747) como inovadoras do pensamento econômica confuncionista; de Kaiho Seiryo (1755-1817) do valor da moeda como medida de todas as coisas; de Sato Nobushiro (1769-1850) com suas idéias de uma economia controlada pelo Estado e de Yokoi Shönan (1809-69) sobre a abertura da economia japonesa às trocas internacionais.

Estes autores são característicos de seu tempo e expressam valores e idéias que procuram explicar e de alguma forma orientar a atividade econômica do período pré-industrial japonês que foi fortemente baseado na noção de keikdku saimin que significa "administrar a nação e aliviar o sofrimento do povo".

Com a Restauração Meiji e a vontade governamental de recuperar o atraso tecnológico caracterizada no slogan:"tecnologia ocident&l e espírito japonês", o Japão foi invadido pelas idéias, máquinas e equipamentos ocidentais. Reformas políticas, econômicas e educacionais foram implementadas. Muitas reformas seguiram o exemplo ocidental, principalmente o exemplo alemão,

A influência e as limitações do liberalismo econômico, das idéias protecionistas, da forte presença das idéias da Associação Alemã para o Estudo de Políticas Sociais no desenvolvimento econômico japonês durante a Restauração são discutidas por Tessa que encerra o segundo capítulo com o pensamento político social de Kunai Noburu (1865-1933) e Fukuda Tokuzö (1874-1930).

O crescimento econômico e a repressão política, o marxismo e o pensamento econômico japonês iniciam o terceiro capítulo do livro que segue apresentando as idéias marxistas sobre economia de Kawakami Hajime (1879-1946) e KusMda Tamizo (1885-1934); a análise do capitalismo japonês da escola Koza com Noro Eitaro (1900-34) e Yamada Moritaro (1897-1980); a análise alternativa da Escola Rono com Tsuchiya Takao (1896) e Sakisaka Itsuro (1897-1985); as críticas ao marxismo de Koizumi Shinzo (1888-1966); a influência dos economistas neo-clássicos como Nakayama Ichirõ (1898-1980) e Takata Yasuma (1883-1972); a economia e o militarismo discutidos com Takahashi Kamekichi (1891-1977) e Kíta Ikki (1883-1937) e, no final do capítulo, as pesquisas econômicas no Japão do entreguerras.

A ocupação e a economia japonesa e os debates sobre a natureza do capitalismo japonês de pós-guerra iniciam a apresentação do pensamento marxista japonês do período. Matemática e marxismo com Koshirnura Shinzaburo (1907) e Okíshio Nobuo (1927); trocas desiguais com Nawa Toichi (1906); o pensamento econômico de Uno Kozo (1897-1970); a análise das condições contemporâneas de Ouchi Tsutomu (1918) e Oshima Kiyoshi (1913) e a economía das reformas estruturais de Nagasu Kazuji (1919) fazem parte deste capítulo.

O quinto capítulo inicia-se com a apresentação dos economistas, instituições e a influência americana no processo de crescimento e formação do moderno pensamento econômico. Segue apresentando o alto crescimento e o investimento privado com Shimomura Osamu (1910); da crítica à tee de Shimomura a interpretação do milagre econômico com Shinohara Miyohei (1919); planejamento e desenvolvimento econômico com Okita Saburo (1914); trocas internacionais e crescimento econômico com Kanamori Hisao (1924) e Kojíma Kiyoshi (1920); a teoria neo-ciássíca e a crítica à política econômica japonesa de Komiya Ryutaro (1928); oligopólio e crescimento industrial com Miyasaki Yoshikazu (1919) e para além do PNB com Tsuru Shigeto (1912).

O pensamento econômico japonês contemporâneo é apresentado através do monétarisme japonês de Suzuki Yoshio (1913) e Shimpo Seiji (1945); do debate sobre reforma administrativa versus expansão da demanda interna; da crise da teoria econômica; da economia da diversidade de Morishima, Michio (1923); da crise ambiental e da teoria do capital social de Miyamoto Kenichi (1930); da economia do desiquilíbrio de Uzawa Hirofumi (1928); dos valores sociais e crescimento industrial de Murakami Yasusuke (1931); da sociedade formada por redes de informações de Imai Kenichi (1931); e, finalmente, da tecnologia e o pensamento económico de Sawa Takamitsu (1942).

Antes de terminar esta resenha, que a quantidade e importância dos assuntos e autores relatados por si só justifiedm a leitura do livro por todos os estudiosos do Japão, especialmente os das áreas de Economia e Administração e m de Ciencias Políticas e Sociologia, resta-nos sugerir à editora Routledge, que já publicou a história econômica da Australia, da Suécia e do Canadá; a publicação da história econômica do Brasil. É óbvio que a publicação de tal obra só pode ser realizada após sua produção e, assim sendo, resta-nos o seguinte questionamento: é a história econômica brasileira pouco interessante que não merece ser estudada ou são nossos cientistas sociais pouco interessados que não estão preocupados com nossa história econômica?

 

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