RESENHAS

Economia mundial - integração regional & desenvolvimento sustentável

José Carlos Barbieri

Professor Assistente do Departamento de Administração da Produção, Logística e Operações Industriais da EAESP/FGV

 

 

 

ECONOMIA MUNDIAL - INTEGRAÇÃO REGIONAL & DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

de THEOTONIO DOS SANTOS. Rio de Janeiro: Vozes, 1993, 144 p.

O livro do professor Theotonio dos Santos analisa as mudanças que estão ocorrendo na economia mundial e faz uma ampla reflexão, sobre a posição da América Latina e Caribe neste novo contexto. Sua análise tem como referência temporal a década de 80, quando se consubstancia a emergência de um novo sistema econômico mundial, caracterizado por intensos processos de globalização e de regionalização, sendo esta última expressão intermediária daquela, Para o autor, esses processos e todas as crises que se observam na atualidade prenunciam o surgimento de uma nova civilização planetária, onde não haverá mais espaços para as pretensões de hegemonias de quem quer que seja. O autor adverte para o fato de a humanidade encontrar-se frente a grandes desafios, que exigem profundas reflexões sobre o sistema de gestão da economia mundial, bem como de soluções globais, produtos de negociações globais.

Esta obra se contrapõe às teses neoliberais e ao tom triunfalista que os seus defensores passaram a exibir após o desmantelamento da ex-URSS e da rendição da China e de outros países socialistas aos ditames da economia de mercado. As soluções globais de que fala Theotonio dos Santos devem ser pautadas pelos princípios do planejamento autoconsciente e não pelas idéias de ajustes automáticos via mercado e tampouco pela lei das vantagens comparativas presidindo as relações comerciais entre países e regiões. O texto também faz uma crítica a esse tríunfalismo que tomou impulso com o fim da Guerra Fria e a crise do socialismo real, à medida que expõe a outra face da prosperidade obtida no mundo capitalista, com as centenas de conflitos armados, desemprego crescente, violência, criminalidade e outras mazelas que também estão presentes dentro das próprias regiões desenvolvidas.

Questões como essas são debatidas ao longo dos treze capítulos que compõem o livro em tela e que foram escritos a partir de uma pesquisa que o autor vem realizando com apoio de diversas agências nacionais e internacionais, tais como o CNPq, a Fundação Ford e a Universidade das Nações Unidas. Embora rico em informações, principalmente sobre conferências intergovemamentais e sobre a atuação de organismos internacionais (ONU - Organização das Nações Unidas, PNUMA - Programa das Nações Unidas paia o Meio Ambiente, FMI - Fundo Monetário Internacional, UNCTAD - Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, GATT - Acordo Geral de Conexão e Tarifas, Banco Mundial etc.), o livro não se parece nada com um típico relatório de pesquisa, cheio de citações, tabelas e gráficos. Longe disso, o texto apresenta-se como um manifesto, onde o autor faz uma defesa vigorosa sobre a necessidade de se construir uma nova ordem internacional baseada nos princípios do desenvolvimento sustentável. Princípios estes que têm como ponto central a erradicação da pobreza e de qualquer forma de opressão. Dentro das idéias que orientam a busca desse tipo de desenvolvimento, não cabem segmentos excluídos e., no plano internacional, relações de dominação.

Um aspecto fundamental desse livro refere-se à análise que o autor faz da Revolução Cíentífico-Técnica (RCT), um tema recorrente desse autor e que ele o explora com mais profundidade em outras obras, principalmente em Revolução Científico-Técnica e Capitalismo Contemporâneo, de 1983, também editado peia Vozes. É em tomo das interações entre a RCT e o processo de globalização da economia que o autor constrói a sua argumentação básica para analisar a posição da América Latina e Caribe diante das mudanças que estão ocorrendo no cenário internacional, bem como para propor caminhos alternativos para esta região, caminhos que passarão necessariamente por uma integração regional capaz de romper com o modo dependente e subalterno que tem caracterizado a sua inserção na economia mundial. Através da análise de projetos de integração, fracassados ou em curso, a exemplo da ALALC - Associação Latino-Americana de Livre Comércio e do Pacto Andino, o autor discute os limites e as dificuldades para se alcançar esse tipo de integração regional. Os últimos capítulos são dedicados a este assunto e constituem uma importante contribuição para o debate que atualmente se faz em torno do MERCOSUL e do NAFTA - Acordo de Livre Comércio da América do Norte.

Mesmo sem fazer concessões aos problemas que afetam a América Latina e o Caribe, o texto traz uma mensagem otimista, pois a crise de hegemonia no mundo contemporâneo, um aspecto importante da conjuntura internacional, favorece a negociação e, assim, essa região passa a ter "uma oportunidade única para afirmar a sua unidade sem chocar-se abertamente com a hegemonia americana" (p. 139). Concluindo, trata-se de uma obra importante e que estava faltando, não só porque estabelece um confronto com as teses neoliberais muito em voga no momento, mas principalmente porque continua o debate sobre o desenvolvimento sustentável, que teve na Eco-92, em julho de 1992, no Rio de Janeiro, um fórum de discussões privilegiadas.

 

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