CONTRAPONTO

Toda mudez será castigada: o papel da mulher na sociedade

Maria Irene Stocco Betiol; Maria José Tonelli

 


Clique para ampliar

 

"Não se nasce mulher, torna-se mulher".
Simone de Beauvoir

A presença da mulher no mercado de trabalho é uma tendência irreversível, ocupando as mais variadas funções e cargos, não havendo atribuição que seja mais destinada especificamente aos homens como ocorria em tempos não tão distantes.

No passado, a mulher se circunscrevia às lidas domésticas, à educação dos filhos, ao papel de sexo frágil na relação amorosa, de administradora do dinheiro recebido para as despesas da casa, de tudo o que decorria a submissão ao homem, que imperava no campo decisivo. Hoje, a mulher dá prioridade à sua formação profissional, não mais se contentando com os cursos "espera marido"; entendendo como indispensável à sua dignidade e liberdade prover o próprio sustento e estar preparada para arcar com as responsabilidades da prole, se o casamento "não der certo".

A mulher que está no meio dessas duas gerações, na faixa dos 30, 40, 45 anos, muitas vezes, foi levada à busca do mercado de trabalho após o insucesso do casamento e das dificuldades que enfrentou com a separação, seja porque a pensão alimentícia fosse insuficiente, seja em razão de criar de si própria uma nova imagem, mais atual (quem não se lembra de Malu Mulher?...).

Mas essas alterações nos padrões de comportamento são óbvias, tendo sido ditadas sobretudo pela difusão de idéias e fatos através do avanço das telecomunicações, pela liberação feminina decorrente das conquistas no plano científico que redundaram na liberdade de escolha sexual pela relegação da religiosidade a um contexto secundário.

Em qualquer dos casos o fato é que a mulher teve de se adaptar aos novos tempos e gerou para si mais um encargo: o do trabalho fora de casa, cumulativo com as funções que ainda são tidas como femininas: organização da casa, educação dos filhos etc.

Quanto aos homens, seria ingenuidade pensar que ficaram imunes à verdadeira revolução do mercado de trabalho.

Antes, a concorrência se dava no mesmo plano: entre homens que têm códigos genéticos específicos, estrutura psicológica semelhante. Atávicamente, cumpria-lhes o papel de caçador, provedor; disputar uma vaga com outro homem era, por assim dizer, uma luta de igual para igual.

É natural que tenham se sentido ameaçados pela concorrência de um ser estranho e que poderia, segundo padrões machistas, obter um emprego e se manter nele, ou conseguir a promoção desejada, por causa de um belo "par de pernas".

Essa instabilidade diante do novo acabou por se refletir no âmbito doméstico: o reinado acabou e ao homem cabe dialogar, aceitar os pontos de vista da mulher como ser pensante, dividir experiências, assim como são rateadas as responsabilidades, embora ainda não na mesma proporção.

Na verdade, a participação efetiva da mulher no outrora "mundo masculino" trouxe para ambos modificações estruturais. Gerou-se com essa situação uma espécie de dicotomía: homens/mulheres. As feministas contribuíram para essa espécie de rotulação fácil e que durante um tempo, como necessidade de ruptura, foi importante, mas que hoje mostra-se pouco útil.

A se pretender uma posição de dignidade para a mulher dentro da sociedade, sem submissão arcaica nem dominação espúria, é preciso entender as diferenças biológicas: o homem é homem, a mulher é mulher, mas tanto um quanto outro têm as mesmas possibilidades interiores de realização inclusive profissional. Não adiantam associações de classe, rotuladas por mulheres; não cabem departamentos femininos se não houver mudança na mentalidade feminina: a mulher tem que deixar de lado o complexo de inferioridade para que sua inteligência e sensibilidade aflorem.

Somente com o andar juntos, cada qual com seu próprio traje, sem travestismos, é que se poderá atingir o equilíbrio e o respeito almejados.

Muitas mulheres no afã de conquistarem seus espaços no mundo predominantemente masculino do trabalho tenderam a se masculinizar. Mas, com certeza, não será a mulher usar pasta 007, pisar duro, disputar espaço em campo de futebol que fará dela um ente individual e respeitado.

Com batom sim; perfume, por que não? - sem deixar de lado as características femininas. A mulher não precisa se despir das aparências mas sim se fazer respeitar pelo essencial, que é sua produção. O batom e o perfume não devem ser instrumentos de sedução, mas deixam patentes as diferenças de exteriorização da feminilidade e masculinidade. Mas, entre tais diferenças eo exercício profissional há uma larga e intransponível distância.

A mulher deve ser tão somente "profissional", sem qualquer outro apanágio. É possível se fazer um paralelo entre a língua alemã e a questão da mulher profissional. No alemão existe o gênero neutro, desconhecido pelo português, onde só há masculino e feminino. A mulher verdadeiramente profissional não deve ser "die"(a) nem "der"(o); tem que ser o "das" germânico, isto é, o neutro: profissional.

Trabalho é trabalho, meta a ser atingida. Deve ser exercido com amor, paixão, sensibilidade, não resistindo a certos atributos que costumam ser dispensados às mulheres, mas que são a essência emocional do ser humano.

A igualdade de direitos é um processo lento e gradual, que tem que passar do campo acadêmico para a efetividade do exercício de seus atributos. As diferenças estão estratificadas; são biológicas até e independem da vontade individual, por mais que as feministas não o admitam. Não se pode negar, do ponto de vista científico, as alterações de conduta que a grande maioria das mulheres sofre no período pré-menstrual sob a hoje famosa TPM e durante a menopausa. O avanço das pesquisas científicas tem sido um poderoso aliado feminino na atenuação dos efeitos da TPM e na superação das alterações físico-psíquicas da menopausa, de forma que tais fatores são cada vez menos determinantes de um específico modelo de agir feminino.

Por outro lado, a maternidade é um dado que pode interferir na atividade profissional da mulher, bem como a sua função de dona de casa, ou seu papel de esposa.

Como decorrência, pode haver, por mais que não se queira admitir, alguma limitação feminina notadamente no que se refere à carga horária de trabalho.

Talvez em função dessa limitação, a executiva mulher tenha uma atuação concreta mais objetiva, ou seja, "ir direto ao ponto" em discussão, sem maiores delongas ou conversas paralelas. Preocupam-se muito mais em estabelecer uma divisão bem nítida: aqui, trabalho é trabalho; lá, casa é casa, família, filhos. E o trabalho, em razão da responsabilidade assumida perante terceiros - os clientes, tem que ter primazia sobre os eventuais problemas domésticos.

Hoje, a situação da mulher na sociedade está praticamente definida: um ser participativo e atuante, que deve ser respeitado por suas qualificações. A igualdade de direitos é garantia constitucional. Acesso ao trabalho, às liberdades individuais.

A moderna codificação civil também dá às mulheres idênticos direitos aos que eram assegurados aos homens. Não há mais "o cabeça do casal", nem ao pai cabe com exclusividade decidir a vida dos filhos. A mãe também competem iguais direitos e obrigações em relação à prole, não obstante mantida a nomenclatura derivada do latim: "pátrio poder".

Não se fala "mátrio poder", assim como ao pai e à mãe não se refere como 'mães" e sim "pais". Se há dois substantivos, um feminino e outro masculino, este é o regente. Ou seja, há todo um processo cultural e de tradição a informar o comportamento humano.

É chegada a hora de homens e mulheres sentarem e redefinirem seus papéis, complementando-se e revendo a estrutura social em que estão imersos. À igualdade de direitos corresponde a igualdade de obrigações. Se, guardadas as diferenças entre o feminino e o masculino, a mulher no mercado de trabalho colocar-se como profissional, sem seduções, lágrimas ou agressões, mas com firme definição de metas e inabalável vontade de atingi-las, através do desempenho sério, dedicado e competente, aí estará a desejada harmonia dos contrários.

 

 

Ana Maria Fadigas: é Diretora e Editora da Revista Sexy.
Elizabeth A. Ferreira de Souza: é advogada.
Maria Ignês Rocha de Souza Bierrenbach: é Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.

 

 

Artigo escrito a partir das questões formuladas por Maria Irene Stocco Betiol e Maria José Tonelli Professoras da EAESP/FGV.
"Camille Paglia acrescentou à discussão sobre o feminismo um ponto de vista bastante importante: de que a dominação masculina ocorre mais por motivos biológicos (hormonais) do que culturais. Podemos entender que atualmente a dominação se encaixaria mais no biotipo feminino; os valores como espiritualidade e intuição e outros estão mais relacionados à essência feminina. A sociedade se transmudou e hoje estamos mais aptas a participar do processo de decisão tanto social quanto cultural". Ana Maria Fadigas
"A cidadania plena não tem caráter individual, mas coletivo e, enquanto toda a sociedade não tiver atingido os requisitos básicos de cidadania, não há como comemorar situações individuais ou isoladas". Maria Ignês Rocha de Souza Bierrenbach
"Há cerca de 3 anos atrás, surpreendi-me. Uma determinada associação de profissionais-mulheres promovia um encontro justamente para discutir a posição da empresária. Conferencista: um homem!... Ou seja, não adiantam as associações de classe, rotuladas por mulheres, não cabem os departamentos femininos se não houver uma mudança na mentalidade feminina". Elizabeth A. Ferreira de Souza

 

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.