TECNOLOGIAS DE GESTÃO

O mágico de Oz: um discurso em favor do bimetalismo?

Paulo Sandroni

Professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica da EAESP/FGV

 

 

Frank Baum, o autor de O Mágico de Oz (The Wonderful Wizard of Oz), não deixou nenhuma indicação explícita a respeito. Mas existem razões muito fortes para crer que a estória de Dorothy e de seus companheiros - O Espantalho, o Homem de Lata, o Leão Covarde e o cachorrinho Totó - constituiu na verdade uma sátira à luta feroz travada nos Estados Unidos no último decênio do século passado entre os defensores do padrão ouro e os adeptos do bimetalismo (padrão ouro e prata). Dorothy é a personagem central da estória. Morava no interior do Kansas com seus tios, pequenos agricultores, numa casa pobre, de um único aposento, mas dotada de alçapão anticiclones. A ação tem início quando um destes ciclones arremessa a casa, Dorothy e Totó até o Reino de Oz. Bem-intencionada e plena de virtudes, Dorothy representa o povo americano. O ciclone é o movimento populista, que, em poucos anos, cresce de pequenas reuniões de fazendeiros endividados e semi-arruinados até se tomar um vasto movimento que desafiou os poderosos de Washington e Nova Iorque. O Reino de Oz representa os interesses dos banqueiros, donos de estradas de ferro (que monopolizavam os transportes e, portanto, controlavam o preço dos fretes) e financistas em geral, defensores do padrão ouro. Lá o dinheiro prevalecia sobre tudo. A Bruxa Malvada do Leste é a sua mais legítima expressão: a casa de Dorothy cai justamente sobre ela. Do impacto sobram apenas os sapatos de prata,1 ou melhor, sua porção boa: a base do bimetalismo. Para retornar ao Kansas, Dorothy sai em busca do Mágico de Oz, que impera na Cidade das Esmeraldas (que representa o verde das notas de dólar). Na estrada dos tijolos amarelos - ou seja, o padrão ouro -, Dorothy vai enfrentando vários obstáculos até alcançar a entrada da Cidade das Esmeraldas. No caminho, encontra um espantalho (agricultores arruinados), preso à terra por uma estaca e à mercê dos corvos que devoram todo o milho. Dorothy liberta o Espantalho e este torna-se seu primeiro companheiro.2 Em seguida, encontra o Homem de Lata. Paralisado pela ferrugem, ele espelha a situação dos operários industriais desempregados pela crise econômica. Dorothy lubrifica suas juntas, e o Homem de Lata recupera seus movimentos e o dom da palavra. O grupo ganha mais um companheiro. O último a integrar-se à caravana é o Leão Covarde. Trata-se de William Jennings Bryan (18601925), um grande orador populista que, aos 36 anos, conseguiu a indicação como candidato à Presidência da República nas eleições de 1896 pelos partidos Democrata, Populista e da Prata Nacional. Sua principal bandeira de luta era a introdução do bimetalismo (ouro e prata) como lastro metálico para as emissões de papel-moeda. Perde as eleições por pouco. Em 1900, volta a candidatar-se, mas abranda tanto suas posições que acaba sendo considerado uma mistura de covarde e traidor por seus seguidores. Depois de muitas peripécias, o grupo chega à Cidade das Esmeraldas (Washington D.C.). Ali tudo é verde, isto é, da mesma cor do papel-moeda até hoje conservada pelo dólar e que tem origem nos Greenbacks.3 Finalmente Dorothy encontra o Mágico de Oz. Sempre operando sob um manto de mistério e sombra, este representa provavelmente o presidente do partido republicano, Mark Hanna, cuja fama de eminência parda do Governo era reconhecida na época. O mágico impõe uma condição para mandar Dorothy de volta ao Kansas: que ela destrua a Bruxa Malvada do Oeste. Esta representaria as forças adversas da Natureza (especialmente a falta de chuvas, fatal para as colheitas). Dorothy a destrói casualmente: um balde de água atirado para apagar o fogo que começa a devorar o Homem de Palha atinge a Bruxa e é o suficiente para derretê-la e afastá-la do caminho. A arma utilizada representa a redenção dos agricultores num duplo sentido: indispensável para uma boa colheita, a água é também sinônimo de "liquidez" na economia: se a prata pudesse ser cunhada, os meios de pagamento se ampliariam, os preços reagiriam, tirando o país da deflação, e as taxas de juros tenderiam a diminuir. Era o que os agricultores desejavam ardentemente. Dorothy retorna à Cidade das Esmeraldas para cobrar a promessa do Mágico de Oz. Ao encontrá-lo, percebe que não se trata de um homem todo-poderoso, mas sim de um ser comum. O padrão ouro é desmistificado. Nada tem de mágico: é débil e pouco confiável. Aconselhada por uma Fada, Dorothy aprende a "voar", batendo três vezes seus sapatos de prata um contra o outro, evidenciando-se mais uma vez as vantagens do bimetalismo. E retorna ao Kansas.

 

A LUTA PELO BIMETALISMO

A razão principal da luta pelo bimetalismo parece ter sido a idéia de que os estoques limitados de ouro condenavam a economia à deflação. Se o ouro fosse o único material dinheiro, ou o único metal a servir de lastro para as emissões de papel-moeda, a ampliação dos meios de pagamento dependeria da quantidade de ouro existente no país. Como a quantidade deste metal estava diminuindo, tendo caído de 640 milhões de dólares, em 1890, para 502 milhões, em 1896, os negócios engripavam e os preços tendiam a cair também. Além disso, entre 1893 e 1896, não apenas houve deflação, mas também um período recessivo nos Estados Unidos. Para os agricultores, os grandes beneficiários desta situação de penúria eram os banqueiros, pois, mesmo que as taxas de juros estivessem em patamares moderados, eram os que mais ganhavam numa época de deflação. Não é difícil imaginar como as pressões para a cunhagem da prata devem ter se intensificado nesse período. Os bimetalistas estavam na ofensiva, e o enfraquecimento das posições dos adeptos do padrão ouro contribuía para que a situação se agravasse mais ainda: o receio da desvalorização do ouro que a possível vitória de Bryan anunciava acelerava a fuga do metal para a Europa. A melhoria nas condições econômicas para a cunhagem da prata impulsionou ainda mais a luta dos bimetalistas. A oferta do metal se expandiu não apenas porque a produtividade do refino aumentou, mas também porque foram descobertas novas minas de grande fertilidade. A demanda, ao contrário, sofreu forte redução: vários países europeus passaram do bimetalismo ao padrão ouro, reduzindo a utilização da prata para fins monetários: a Alemanha realizou a conversão entre 1871 e 1873 depois de derrotar a França e impor uma pesada indenização de guerra pagável em títulos conversíveis em ouro; a França, que havia mantido o bimetalismo desde 1803, apesar das importantes descobertas de prata (e depois de ouro) desmonetizou a prata entre 1873 e 1874 em ação conjunta com os demais países da União Latina (Itália, Bélgica e Suíça) e, nos anos finais da década, os países da União Escandinava - Dinamarca, Noruega e Suécia - e a Áustria fizeram o mesmo, de tal forma que, no início dos anos 80 do século passado, apenas a índia e a China mantinham um padrão prata efetivo. O movimento conjunto da expansão da oferta e a drástica redução da demanda para fins monetários fizeram com que os preços de mercado do metal baixassem acentuadamente: em 1870, a cotação da prata em relação à do ouro era 15,4; em 1873, havia subido para 16,4; em 1879, para 18,4; e, em 1896, no auge da campanha presidencial, quando Bryan lutava por uma cunhagem na base de 16 (de prata) por 1 (de ouro), a cotação da prata havia alcançado 30 por 1! A desvalorização da prata abria, no entanto, o caminho para sua monetização. Pois, se o valor de face das moedas fosse superior ao preço de mercado do metal, as primeiras permaneceriam circulando e o metal seria mantido na forma monetária, o que havia se tornado inviável depois de 1836.

 

O CRIME DE 1873

Para os produtores de prata (concentrados nos Estados do Oeste e do Sul) tornava-se interessante agora destinar o metal a cunhagem... desde que as regras vigentes até então fossem mantidas. Mas, em 1873, o Congresso aprovou uma lei que estabelecia o aumento do teor de prata de cada dólar (emissão destinada ao comércio com o México e com o Oriente, especialmente a China e o Japão) e limitava o total do metal a ser cunhado.

Na prática, inviabilizava o retorno da monetização da prata, pois retirava as cláusulas fundamentais da livre e ilimitada cunhagem do metal vigente desde 1792. E claro que as reações dos defensores do bimetalismo foram violentas. A lei de 1873 foi alcunhada como o "Crime de 1873" e sua aprovação, considerada uma conspiração dos legisladores e financistas do Leste.

Este é o caldo de cultura de onde nasce o Partido Populista ou do Povo, formado fundamentalmente por agricultores arruinados e trabalhadores desempregados e apoiado pelos produtores de prata dos estados do Oeste e do Sul dos Estados Unidos.

O movimento cresce vertiginosamente depois da crise de 1893, e aliados do Partido Democrata referendam também William Bryan à Presidência da República nas eleições de 1896. Por pequena margem de votos, Bryan é derrotado por McKinley.

Nas eleições de 1900, Bryan se candidata outra vez, mas é novamente derrotado. A margem se amplia, pois, a partir de 1896, as condições econômicas e financeiras haviam mudado sensivelmente. Novas minas de ouro são descobertas no Alaska, no Colorado, e três químicos escoceses haviam inventado um processo economicamente rentável de extração de ouro de minério com baixos teores usando o cianeto, viabilizando a rápida expansão da produção nas recém-descobertas minas de ouro na África do Sul: se, em 1886, este país não produzia ouro, em 1896, isto é, dez anos mais tarde já participava com 23% da produção mundial.

Além disso, as boas safras americanas contrastaram com as míseras colheitas européias. Os preços agrícolas aumentaram, dando início a um forte processo inflacionário (para os padrões da época) que dura até o início da I Guerra Mundial. Os problemas que atormentavam os agricultores, talvez a principal base social do movimento populista de Bryan, são parcialmente resolvidos. Os preços agrícolas se recuperam e a escassez de ouro é superada pelo aumento da produção nacional e mundial. Desta, forma o padrão ouro deixa de constituir obstáculo, por algum tempo, para a ampliação da oferta monetária.

Os tempos haviam mudado e Dorothy já podia retomar (mesmo tendo perdido seus sapatos de prata, ou exatamente por esta razão) ao encontro dos seus tios menos empobrecidos. Um novo ciclone só voltaria a assolar o país em 1907.

 

 

(Material didático do Gvpec)
* Este texto didático foi desenvolvido tendo como ponto de referência o artigo de Hugh Rockofl, "The Wizard of Oz as a monetary allegory", Journal of Political Economy, n.88,1990.
1. No livro, os sapatinhos de Dorothy são de prata. No filme, talvez para maior impacto visual, são vermelhos, de rubi. Este talvez seja o único ponto no qual o filme é inferior ao texto se considerarmos os propósitos didáticos com os quais nós o utilizamos em sala de aula.
2. No filme, há uma cena representativa, na qual um corvo (provavelmente representando os banqueiros) arranca um pedaço do corpo de palha do espantalho e este mais uma vez constata que não espanta ninguém, isto é, é incapaz de reagir à espoliação.
3. Os Greenbacks foram emitidos durante a Guerra Civil (1861-1865) nos Estados Unidos pelo governo da União, pois seu crédito estava tão baixo que os bancos eram relutantes em emprestar dinheiro para que a guerra fosse financiada. O Congresso votou então uma lei para que o governo emitisse moedafidudáriae o Tesouro emitiu cerca de 450 milhões de dólares não lastreados em ouro. Estas emissões tinham curso (orçado, à exceção dos pagamentos dos juros da dívida interna pública e dos incidentes sobre as taxas de importação. As notas destas emissões foram chamadas de Greenbacks porque loram impressas em papel verde.

 

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