ADMINISTRAÇÃO DA PRODUÇÃO E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO

Empregos e empresas que mudarão com a internet

Antônio Carlos Mattos

Professor do Departamento de Informática e Métodos Quantitativos da EAESP/FGV. Home page: http://dm.usway.com.br/acm/ E-mail: acm@usway.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo trata das grandes mudanças que podem ocorrer nas empresas e em seus empregos, como resultado do crescimento da Internet. São analisadas empresas e profissões que podem desaparecer e outras que podem ser criadas. Essas mudanças provavelmente ocorrerão nos próximos 30 anos. As previsões foram em grande parte baseadas nas notícias do Edupage, http://www.educom.edu, incluídas neste artigo.

Palavras-chave: Internet, emprego e desemprego tecnológicos, mudanças nos empregos, mudanças nas empresas, previsões econômicas.


ABSTRACT

This article deals with the big changes that may take place in the companies and their jobs, as a result of the growing of the Internet. Businesses and professions that could disappear or may be created are discussed. These changes will probably happen in the next 30 years. Forecasts are in great part supported from Edupage news, http://www.educom.edu, included in this article.

Key words: The Internet, technological unemployment and employment, jobs changes, business changes, economic forecasts.


 

 

Introdução

Empresas e empregos afetados

• Fábricas de Brinquedos

• Empresas que exigem a presença dos trabalhadores no local de trabalho

• Cirurgia Médica

• Head Hunters, Firmas de Contratação de Pessoal, Departamentos de Pessoal

• Lobistas

• Bibliotecas, Editoras, Livrarias

• Universidades e Escolas

• Revelação de Fotos, Filmes Cinematográficos, Videolocadoras

• Jornal, Rádio e Televisão

• Agências de Publicidade

• Cartórios e Tabelionatos

• Companhias Telefônicas, Provedores de Serviços de Internet (ISP), Rádios Amadores

• Correios, Telegramas, Fax

• Gravadoras de CD, Lojas de Discos

• Agências Bancárias

• Casa da Moeda

• Farmácias e Drogarias

• Lojas Comerciais, Shopping Centers, Supermercados, Fornecedores, Atacadistas, Varejistas, Vendedores Ambulantes, Representantes Comerciais

• Corretoras da Bolsa de Valores

• Corretoras de Imóveis

• Agências de Turismo e de Viagens

• Leilões

Empregos que estarão surgindo

Conclusão

 

INTRODUÇÃO

 


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As notícias anteriores não constituem um caso isolado no mundo de hoje. De fato, a Internet está provocando uma profunda transformação na maneira como as empresas operam. Aquelas que não entenderem a mensagem do mercado irão se tornar obsoletas, o mesmo ocorrendo com vários postos de trabalho e respectivas profissões.

Este trabalho foi baseado em artigos publicados na imprensa, virtual e real, relacionados com os riscos que várias empresas e diversos profissionais correm de sofrerem modificações ou até mesmo de serem extintos, em função da enorme expansão da Internet, com seus 320 milhões de usuários no ano 2000 (5 milhões no Brasil), crescimento que começou nos EUA há poucos anos e tem se permeado, osmoticamente, para os demais países. Também serão aqui analisados os novos tipos de empresas e de profissionais que surgirão no século 21.

Tais transformações, no entanto, não ocorrerão de um dia para outro. Ao contrário, dependerão da mudança cultural da sociedade, sempre lenta, atingindo primeiro os países do Primeiro Mundo e, anos (ou décadas) depois, fazendo-se sentir nos demais países. Uma das razões dessa lentidão é explicada por Donna Hoffman:

 


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O acesso da maioria da população à Internet também provocará uma revolução cultural na sociedade, pois o mundo virtual tem características muito diferentes do mundo real, como se pode notar na Tabela 1.

 

EMPRESAS E EMPREGOS AFETADOS

Fábricas de brinquedos

As fábricas de brinquedos sofrerão a concorrência dos jogos da Internet e dos videogames. Talvez essas fábricas fiquem restritas ao mercado infantil até os sete anos, quando as crianças ainda não estarão acessando a Internet.

 


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Empresas que exigem a presença dos trabalhadores no local de trabalho

A presença no local de trabalho já não é necessária para algumas profissões como professores (exceto para dar aulas, mas só enquanto não houver as Universidades Virtuais), jornalistas (que podem preparar sua matéria em casa), pesquisas (exceto quando exigir instalações e laboratórios) etc.

O crescimento da Internet poderá fazer com que esse hábito vá mais longe. Estando o funcionário constantemente conectado à sua empresa, poderá desenvolver seu trabalho em sua própria casa, bem como participar de reuniões ou de projetos (o que já ocorre em grandes empresas, onde trabalhos são desenvolvidos em grupos virtuais, estando seus componentes situados em várias cidades do globo). Isto já é possível por meio de e-mails, chats, videoconferências, web-cameras, Internet-phone e outros recursos.

Isso reduzirá os custos das empresas, pois menos imóveis e instalações serão necessários ao seu funcionamento. No limite, a empresa poderá funcionar apenas com uma sala, onde residirá o servidor da sua rede (computador). Para os funcionários, também serão reduzidos os custos de transporte (ganhando umas duas horas de lazer a mais por dia) e das refeições. Claro está que o faturamento dos sistemas de transporte (metrô, postos de gasolina, lojas de pneus etc.) também será reduzido.

 


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Cirurgia médica

Dia virá em que o cirurgião não mais precisará ir até o hospital para realizar uma cirurgia. Aliás, não precisará nem mesmo residir na cidade, pois a operação poderá ser feita pela Internet, com o uso de robôs.

 


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Vários diagnósticos também poderão ser realizados a distância. Porém, talvez não mais necessitem de médicos, o que tornará mais rápida e barata a "consulta".

 


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Head hunters, firmas de contratação de pessoal, departamentos de pessoal

No futuro, a procura e a oferta de empregos se darão em sites especializados.

De um lado, os profissionais enviarão seus currículos, que serão cadastrados e indexados. Por outro, as empresas procurarão funcionários nesses sites, fornecendo o perfil desejado e obtendo do banco de dados de recursos humanos uma lista de pessoas que satisfazem esse perfil. Um processo rápido, barato e, sobretudo, muito mais eficiente, pois não dependerá de anúncios em jornais nem dos cadastros pessoais das empresas.

(Veja http://dm.usway.com.br/_Pess/my_hp/Diversos/Informacoes/index_ciencias_humanas.htm#Empregos)

A validade das informações fornecidas também será mais fácil de conferir (hoje boa parte dessas informações nem sempre é verificada), dada a interligação via Internet de bancos de dados de escolas e universidades (para verificar se o diploma citado não é falso), de empresas (confirmando ter o funcionário lá trabalhado) etc. Aliás, alguém já disse que "Um currículo é um balanço sem passivo".

 


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Lobistas

O uso da Internet como instrumento de pressão política já existe. Movimentos contra a aprovação de leis restritivas à Internet, no Congresso americano, contra a matança generalizada no Timor do Leste e outros já são fatos corriqueiros. E os políticos têm percebido que por trás de cada e-mail recebido - cujo volume pode passar de milhões - sempre existe um eleitor.

 


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Bibliotecas, editoras, livrarias

O setor de publicações será bastante afetado pela Internet. De fato, o futuro nos reserva publicações sem papel, desaparecendo a diferença entre biblioteca, livraria e editora.

Mas, até chegar lá, a importante questão dos direitos autorais precisa ser resolvida, pois na Internet ainda não podem ser controlados. Por essa razão, ainda existem bibliotecas, livrarias e editoras. Para resolver esse problema, talvez seja utilizado um esquema parecido com o que as gravadoras de discos estão elaborando para que faixas de CD possam circular pela Internet. Mas os livros que já caíram no domínio público, como as obras de Shakespeare, já podem ser encontrados na Internet, como no site do Projeto Gutenberg (http://promo.net/pg).

Existe também um projeto de bilhões de dólares para a digitalização da maior biblioteca do mundo, a Library of Congress (EUA), um trabalho que durará certamente mais de dez anos, após o qual a Library of Congress poderá ser fechada, pois seu acervo estará na Internet e ela terá se tornado uma biblioteca virtual, podendo ser acessada pelo mundo todo, rapidamente e ao mesmo tempo.

No entanto, algumas editoras já tomaram a dianteira e estão publicando seu material na Internet, como é o caso do maior jornal do mundo, o New York Times, que pode ser lido (gratuitamente) todos os dias em http://www.nyt.com.

Quando esse procedimento de publicar diretamente na Internet se tornar regra geral, dentro de vários anos, terão então desaparecido as bancas de jornal, as distribuidoras, as rotativas, as livrarias e as bibliotecas. Menos árvores serão derrubadas e menos poluição atingirá os rios e os mares (a indústria de papel é altamente poluente). Quanto às editoras de livros, talvez também desapareçam, pois se o autor puder publicar sua obra diretamente na Internet (com um simples upload) e dela receber seus royalties, não haverá mais por que ter que se sujeitar ao longo e penoso processo de editoração. Essa inovação também barateará sobremaneira o preço do livro, que poderá cair até para uns 10% do preço de hoje (10% é o que o autor recebe, geralmente com meses de atraso, por cada exemplar vendido, embora não tenha o autor controle sobre o número de exemplares vendidos). Outra interessante conseqüência é uma maior abundância de livros à disposição de todos, pois boas obras podem ter se perdido por falta de editor interessado (o editor, que é um empresário, só se interessa pela publicação se achar que a obra pode lhe dar uma boa margem de lucro, além de não ferir seus princípios nem sua ideologia).

Exemplos de livros virtuais em:

http://dm.usway.com.br/acm/Public/Livro_Inflacao/~homebook.htm (Livro do Prof. Mattos)

http://www.geocities.com/WallStreet/4630/curso1.htm#5 (Livro do Prof. Toscano)

http://www.bibvirt.futuro.usp.br/index.html (Biblioteca da USP)

http://promo.net/pg (Projeto Gutenberg)

http://classics.mit.edu (Obras Clássicas)

E de bibliotecas virtuais em:

http://tln.lib.mi.us (Rede de Bibliotecas Americanas)

http://www.elibrary.com (Electric Library - Assinatura de US$ 50,00 por ano)

http://www.loc.gov (Library of Congress)

 


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Universidades e escolas

As universidades e escolas secundárias sofrerão um grande impacto da Internet. Com a criação de cursos virtuais, com emissão de diplomas, a preços bem inferiores que os tradicionais, será difícil conter a migração dos estudantes para o mundo virtual.

Além do preço, o ensino virtual tem a grande vantagem de permitir que o aluno imprima sua própria velocidade ao curso: se for inteligente, rápido e motivado, poderá se diplomar em dois ou três anos, enquanto no mundo real será obrigado a seguir a velocidade da média: quatro ou cinco anos. Outra vantagem é que não precisará estar presente à sala de aula para aprender (ou para dormir...). Sua presença só será necessária por ocasião dos exames a que deverá se submeter para se graduar.

No mundo virtual, também não serão necessários vestibulares, exames de seleção ou mesmo apresentação de "certificados de conclusão do curso médio". Tendo em vista que os exames para obter o diploma também se realizarão via Internet (embora em locais do mundo real e com fiscalização), se o aluno não tiver uma boa base prévia para seguir o curso, será constantemente reprovado nos exames e não conseguirá concluir o curso (semelhante ao que ocorre atualmente com cerca de 70% dos bacharéis que se submetem ao exame da Ordem dos Advogados e são reprovados). Assim, a decisão de se matricular ou não em um curso é do aluno apenas. Se iniciar um curso virtual sem estar preparado, gastará seu dinheiro e não conseguirá concluir o curso (desde que a escola virtual seja séria, naturalmente...).

Claro está que o ensino virtual não se aplica às aulas de laboratórios (pelo menos por enquanto...), como nos cursos de engenharia, medicina, veterinária, química, física etc. No entanto, nos cursos sem necessidade de laboratórios, como administração, letras, direito, filosofia, psicologia, sociologia, pedagogia e outros, a universidade virtual deverá se tornar um sucesso no futuro.

As implicações dos cursos virtuais são, no entanto, complicadas: as escolas não mais precisarão de imóveis para operar, os professores trabalharão em tempo parcial (para responder às perguntas dos alunos, via e-mail ou chat, já que os cursos poderão ser alugados sob a forma de "packages"). Talvez restem apenas umas poucas escolas no mundo real, mas dedicadas apenas à pesquisa e ao desenvolvimento de novos "packages" educacionais. Os "contatos" entre professores e alunos talvez se realizem apenas por videoconferências.

Nota:

As escolas virtuais já estão surgindo.

No Brasil, ver, por exemplo, http://www.colegioeinstein.com.br/unvirt1.htm.

Na Califórnia (EUA), ver http://www.california.edu

 


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Revelação de fotos, filmes cinematográficos, videolocadoras

No mundo virtual, onde não existe papel, a revelação de fotos se torna desnecessária, pois, com as câmaras digitais, as imagens podem ser diretamente transmitidas a um computador e arquivadas em álbuns digitais. A partir daí, podem ser escolhidas, editadas e incluídas em páginas HTML.

O mesmo ocorrerá com os filmes cinematográficos, que serão gravados em dispositivos DVD e armazenados em videolocadoras virtuais para serem vistos via Internet. Mas isto só será possível com uma Internet mais rápida ("maior largura da banda-passante"), a ser conseguida com a New Generation Internet (http://www.ngi.gov), a Teledesic (http://www.teledesic.com) e o Direct-PC (http://ltm.com/hughes.htm), a entrarem em operação em torno de 2005.

Nota:

Um conceito importante na Era da Internet é o de "Largura da Banda-Passante" (LBP). É o análogo eletrônico ao conceito de "diâmetro de um cano de água" em hidráulica. Quanto maior o diâmetro, mais água poderá passar pela tubulação. A LBP é semelhante. Quanto maior a LBP (freqüência das ondas eletromagnéticas usadas na telecomunicação, basicamente), tanto mais dados poderão passar pela rede (fio elétrico, antena parabólica etc.). Assim, a LBP na rede telefônica, com ondas elétricas com freqüência da ordem de uns 40 kHz, é muito menor do que a LBP nos satélites, que trabalham com microondas (>1 GHz).

Jornal, rádio e televisão

Aquele tempo em que as pessoas ficavam passivamente em frente ao Grande Irmão de George Orwell, submetendo-se ao baixo nível da TV comercial e tendo seu cérebro lavado para se tornar um dócil consumidor de produtos muitas vezes caros e dispensáveis, parece estar acabando.

O rádio e, principalmente, a televisão começam a perder terreno para a Internet, onde o "telespectador" passará a ter inúmeras vantagens:

1. Poderá assistir talvez a milhares de canais diferentes no mundo todo, tanto de rádio como de TV.

2. Poderá mudar de um canal para uma página Web e vice-versa ou até mesmo trabalhar com várias telas simultaneamente. Enquanto vê um programa, poderá em outra tela verificar se as informações não estão sendo modificadas, distorcidas e manipuladas.

3. A "guerra pela audiência" - causa do nível imbecilizante da TV comercial -ficará mais difícil, dada a imensa gama de novas alternativas disponíveis, incluindo canais independentes, fora do controle do cartel televisivo.

4. Deixará de ser um indivíduo meramente passivo, pois irá interagir ativamente com o programa, fazendo perguntas, propondo novos temas, criticando apresentações, divulgando suas opiniões para outros internautas-telespectadores, tudo fora do controle do Grande Irmão, e até mesmo aparecer na TV por intermédio de sua web-cam.

5. Tendo fácil acesso a diferentes fontes de informação independentes, livrar-se-á do controle político exercido pelos canais de hoje, pois poderá ter acesso a opiniões divergentes do pensamento imposto pelo Grande Irmão.

A grande tendência que se nota é a integração, no computador, do rádio, TV, equipamento de som, gravadores, Internet, automação residencial (http://www.electronichouse.com/what.shtml) e outros.

Quanto aos jornais e revistas, grandes mudanças também se avizinham. Ao invés de ser bombardeado com inúmeras notícias, das quais o leitor médio lê apenas pequena parcela, e de ser inundado com incontáveis páginas de propaganda, muitas vezes imaginando que o leitor é algum imbecil ou retardado, o século 21 virá surgir um noticiário dirigido, on-line e à la carte. Como já ocorre hoje com o Edupage, http://www.educom.edu, especializado em Internet, onde diariamente o internauta recebe, gratuitamente, um resumo das principais notícias, ou com o New York Times, o maior jornal do mundo, que pode ser lido, também gratuitamente, em http://www.nyt.com.

Claro que as receitas deverão vir de algum lugar. Embora haja uma tentativa, ainda malsucedida, de transportar a propaganda do mundo real para o virtual, onde aliás também é abominada, talvez haja no futuro algum sistema de assinatura, semelhante à TV a cabo, no qual o internauta possa se manter informado apenas naquilo que estiver interessado e sem as entediantes armadilhas de marketing.

 


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Agências de publicidade

Com a migração da população para o mundo virtual, para lá também irão se dirigir as agências de publicidade, sempre atrás da caça para tentar vender algum produto. Tal migração, no entanto, ainda não deu certo. De fato, o internauta, cansado com o bombardeio diário que lhe é movido no mundo real pela propaganda, encontrou na Internet um ambiente limpo, onde as informações só chegavam a ele de acordo com a sua vontade, sem mensagens publicitárias enfiadas no meio do caminho.

As empresas virtuais, por outro lado, vendo na publicidade uma fonte adicional de receitas, têm iniciado um conluio com as agências, e a enfadonha propaganda começa a aparecer novamente em todos os sites, inclusive com a mensagem "Por favor, clique no banner de nosso patrocinador, para que este site continue existindo" (o alcance da propaganda é medido pelo número de hits recebido pelo patrocinador).

Esta é uma questão importante a ser solucionada no futuro: Como resolver o impasse entre os internautas que querem tudo de graça e sem propaganda, e as empresas que necessitam de receitas para manter o site no ar? A menos que o governo entre no circuito, a questão por ora ainda não tem solução geral.

 


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Cartórios e tabelionatos

Os cartórios e os tabelionatos são instituições que datam da Renascença (1500 AD). Para se garantir a propriedade de um imóvel ou a veracidade de um documento, recorre-se a eles.

Nada mais enganoso que essa segurança. Folhas de registro de imóveis são arrancadas, firmas reconhecidas são falsas, incêndios, imperícia e corrupção dão sumi-ço nos caros e demorados registros.

Mas a Internet tem uma solução para isso tudo. Por intermédio da criptografia, ou "assinatura digital", torna-se difícil a falsificação de um documento. E a facilidade com que um documento pode ser copiado e enviado para outro lugar (aumentando a segurança pela redundância) torna impraticável dar-lhe sumiço.

Essa técnica já é usada na Internet para autenticar transações comerciais (ecommerce) e em home banks. A empresa mais conhecida, que funciona como um cartório virtual nesses casos, é a VeriSign, http://www.verisign.com/

A criptografia é há muito tempo utilizada pelos serviços secretos militares. Para criptografar um documento, isto é, transformar o documento em um texto ininteligível, usa-se uma "password" ("chave", "senha", "código secreto" etc.), de conhecimento apenas da pessoa e do cartório virtual. Essa password é a "assinatura digital" que substituirá a assinatura manuscrita do papel. Note-se que a password não é de conhecimento público, ao contrário das assinaturas em papel (onde qualquer um pode ver e copiar, falsificando documentos), e portanto muito difícil de ser fraudada (a menos que o dono da password a forneça para alguém, o que corresponde, na Era Digital, a assinar um documento em branco).

Uma password, como <@#34e ....... dfgAEDÇ**||\]12a3> pode ter até 4096 caracteres (como no software de encriptação Pretty Good Privacy, PGP).

Outros mecanismos de segurança também estão sendo estudados. Um deles é a utilização como password das impressões digitais, devidamente codificadas. Outro é usar o DNA ou código genético da pessoa (usado para a identificação de paternidade), este talvez o mais seguro de todos, pois não muda com o tempo (ao contrário das assinaturas manuscritas em papel).

Agora, se um proprietário resolve vender um imóvel, a escritura pode ser encriptada duas vezes, usando primeiro a password do vendedor e depois a do comprador.

Enviando essa escritura encriptada para o cartório, ele terá condições de saber se a escritura é legítima, ao decriptar a escritura usando as passwords que estão lá registradas. E irá tornar pública a escritura (decriptada) em seu site. Também o cartório virtual enviará cópias dessa escritura (encriptada) para outros cartórios virtuais da rede de cartórios, por medida de segurança.

Não há maneira mais segura para um documento. Como a assinatura digital não é de domínio público, quase não é falsificável, ao contrário das assinaturas do mundo real, às quais qualquer um pode ter acesso e reproduzir. A possibilidade de algum funcionário corrupto do cartório alterar ou sumir com um documento também não existe, pois há backups em outros cartórios virtuais pertencentes à rede, e seria necessário haver corrupção em todos esses cartórios para que o estratagema desse certo, o que é pouco provável.

O único ponto vulnerável é que, embora mais difícil, alguém pode ter acesso a uma password e forjar um documento falso. No entanto, a prática atualmente existente de exigir a presença física dos signatários em frente ao tabelião nos documentos mais críticos, como transferência de propriedade e testamentos, talvez permaneça na Era Digital, como medida de segurança adicional.

O esquema acima é simples, barato e seguro. Mas ainda há um obstáculo.

A legislação americana classifica como Arma Militar qualquer software de criptografia com capacidade de encriptação de mais de 40 bits (5 caracteres).

Ou seja, qualquer password com mais de 5 caracteres ("strong file encryption"), como "Senhas", é ilegal se usada fora dos EUA. Aparentemente, isso pode ser contornado usando-se softwares obtidos de fora dos EUA, como, por exemplo, o CripText, http://www.tip.net.au/~njpayne, que aceita até 160 bits (20 caracteres).

Mas, na economia globalizada, ocupando os EUA parte central no processo, não é muito prático utilizar sistemas que as multinacionais americanas não possam usar fora dos EUA. O próprio Internet Explorer da Microsoft, que possui recurso para strong encryption, não funciona fora dos EUA com chaves de mais de 40 bits (para verificar isso, click em Help no IE4 em inglês e veja a linha "Cipher Strenght: 40-bit").

No entanto, até o momento, nem a CIA, nem o FBI, nem o Pentágono parecem dispostos a abrir mão dessa proibição. Por uma razão muito simples. É fácil quebrar uma proteção de 40 bits, mas impossível para uma de 4096 bits, como a do PGP, pois, neste último caso, deveríamos fazer até N tentativas para descobrir a chave, em que N é um número com 9.830 casas decimais (256 elevado à potência 4096).

 


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Companhias telefônicas, provedores de serviços de Internet (ISP), rádios amadores

As empresas de telefonia convencional devem desaparecer no futuro. Como a tendência é a telecomunicação se dar diretamente via satélite (já existem telefones celulares e PCs com esse recurso), não haverá mais centrais telefônicas nem redes de fios de cobre ou de fibras ópticas para interligar os aparelhos telefônicos (que, aliás, nem existirão mais). Cada um poderá ter um pequeno computador de mão pelo qual irá acessar, via satélite, a Internet, ou seja, se contatar a qualquer cidadão moderno do mundo em qualquer parte da Terra. As comunicações se darão na freqüência das microondas (grande largura da banda) por meio de satélites artificiais apenas.

Não mais havendo rede telefônica, não haverá também provedores de serviços de Internet (Internet Service Providers - ISP), pois os PCs acessarão também os satélites via antenas parabólicas. O embrião desse acesso já existe: é o projeto da Hugues Aircraft Corporation chamado Direct-PC (http://ltm.com/hughes.htm), análogo ao Direct-TV. No entanto, por enquanto, o acesso direto é apenas para receber dados (download), pois o envio (upload) continua sendo pelos meios tradicionais.

A comunicação apenas via satélite não é especulação. Esse projeto já está em andamento e chama-se TELEDESIC, http://www.teledesic.com, a um valor de quase 3 bilhões de dólares, com início previsto para 2003. Centenas de satélites de comunicação serão colocados a baixa altitude da Terra e servirão para permitir que as pessoas modernas se comuniquem entre si de qualquer parte do globo, mesmo se estiverem no interior da Floresta Amazônica ou no meio do Oceano Pacífico. Com a Teledesic, também os Rádios Amadores desaparecerão.

 


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Correios, telegramas, fax

O fax desaparecerá na Era Digital. Os correios permanecerão, mas com uma função diferente: entregar material e equipamento adquirido no Comércio Virtual (ECommerce). Sua função de entregador de cartas e telegramas ficará restrita apenas às regiões mais atrasadas onde ainda não exista e-mail (ver notícia "Correios criam sistema....").

 


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Gravadoras de CD, lojas de discos

O "comércio" de faixas de CD é uma das maiores revoluções ocasionadas pela Internet.

Antigamente, por causa de uma boa música, o consumidor era obrigado a comprar o CD inteiro, pagando por (digamos) 11 músicas ruins e só aproveitando uma boa.

Com a invenção de um compressor de áudio digital, o padrão MP3, uma faixa de CD pode ser comprimida para uns 5 MB, tornando possível sua transferência de um computador para outro, via Internet. Antes disso, extrair uma faixa de um CD ocupava uns 50 MB (formato CDDA e Wave), isto é, dez vezes mais, sendo impossível transmiti-la pela Internet, por demorar horas. Com o padrão MP3, um CD pode conter 120 faixas, em vez de 12, embora os toca-discos atuais ainda não consigam ler gravações em MP3 (mas o modelo Rio, da Diamond, consegue ler faixas em MP3).

A simples extração de uma faixa, de um CD comprado, que é armazenada no disco rígido e ouvida pelo usuário, não tem nada de ilegal, pois a Lei de Direitos Autorais permite copiar (uma só vez) qualquer obra adquirida, desde que não seja com intuito de lucro. O problema que tem enfurecido as gravadoras de CD é que a faixa é copiada para um site, ficando à disposição dos internautas. Neste caso, qualquer um pode transferir gratuitamente a faixa do site para seu computador e ficar ouvindo a faixa quantas vezes quiser. Isto já se torna ilegal, pois a lei permite apenas UMA cópia, e agora milhares de cópias estão sendo feitas pela Internet.

A conseqüência é que hoje não mais é necessário comprar CDs para ouvir músicas! O prejuízo para as gravadoras é enorme. Por isso, elas estão desenvolvendo um outro padrão de gravação em CDs que, embora não impeça a pirataria, pelo menos pode identificar, por meio de códigos escondidos no CD, se o MP3 é ilegal. Bem, isso até que algum hacker descubra o código utilizado e crie um programa para apagar esse código...

Naturalmente, as gravadoras colocaram seus advogados em campo tentando fechar esses milhares de "sites de MP3", uma missão naturalmente impossível, pois os sites se espalham pelo mundo todo, inclusive em países onde a pirataria não é reprimida (Bulgária, China etc.).

O resultado prático disso tudo é que, na Era Digital, as lojas de discos desaparecerão e, em seu lugar, surgirão as lojas virtuais, onde o internauta comprará apenas a faixa que quiser para ouvir em seu computador. Com a vantagem de pagar menos (há sites que vendem faixas por US$ 1,00), além de poder comprar faixas que as gravadoras não se interessaram em comercializar.

Quanto às gravadoras, enviarão para as lojas virtuais faixas em MP3 para comercialização, sem mais necessidade de gravação em CDs (baixando o preço final da faixa). Mas o problema da pirataria deve permanecer, como já ocorre hoje.

 


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Agências bancárias

Ir ao banco é um calvário. Além das intermináveis filas, do horário restrito de funcionamento, dos erros dos funcionários e da burocracia (como para sacar um valor mais alto em dinheiro), ainda há a perda de tempo procurando um lugar para estacionar o carro ou o risco de assalto (todo dia, mais de três agências são assaltadas na Grande São Paulo).

A Internet promete resolver tudo isso. Por meio dos bancos virtuais, todas as operações bancárias poderão ser feitas de casa ou do escritório, a qualquer hora do dia ou da noite, com segurança e rapidez. O saque de dinheiro poderá também ser feito via Internet, pois no futuro não existirá papel-moeda nem cheque, mas sim Smart Cards (cartões pessoais com um microprocessador embutido, para onde será transferido numerário da conta para o cliente, por um drive existente no computador para esse fim). Isso, aliás, já ocorre em vários países.

O resultado disso é que no futuro não mais haverá agências bancárias. Para negócios de maior vulto, o contato entre o correntista e o banco será feito em algum escritório, não em agências.

 


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Casa da Moeda

Com o dinheiro eletrônico (smart card), não mais existirá papel-moeda. Com isso, as Casas da Moeda, onde se imprime dinheiro, deixarão de existir.

Farmácias e drogarias

Esse setor deverá desaparecer do mundo real, indo para o virtual, junto com a maioria das lojas comerciais. Podendo-se comprar um remédio pela Internet, as farmácias se transformarão em uma sala com um servidor da Internet. Os serviços de "curativos" e "aplicação de injeções" serão feitos por enfermeiras e médicos em outro local (como ocorre no Primeiro Mundo, onde esses serviços não podem ser feitos por farmacêuticos).

 


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Lojas comerciais, shopping centers, supermercados, fornecedores, atacadistas, varejistas, vendedores ambulantes, representantes comerciais

Os supermercados convencionais deverão desaparecer do cenário econômico, pois é muito mais conveniente fazer as compras mensais a qualquer hora do dia ou da noite sem sair de casa e rapidamente (usando as listas de compras do mês anterior).

Os shoppings e as lojas comerciais, em parte, também deverão desaparecer, ficando apenas aqueles em que a presença física é indispensável, como para experimentar uma roupa, um sapato ou um perfume.

Com menores investimentos e custos operacionais, o preço final para o consumidor irá baixar.

Os fornecedores e atacadistas também deverão desaparecer, dado o crescimento do business-to-business, em que uma empresa compra diretamente de outra empresa via Internet (ou Extranet), com conseqüente barateamento dos produtos (não haverá mais intermediários). Este, aliás, deverá ser o maior uso do e-commerce, vindo em seguida as vendas ao consumidor final.

 


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Corretoras da Bolsa de Valores

No futuro, o investidor da Bolsa poderá programar seu computador para comprar e vender ações diretamente na Bolsa, sem intermediários, numa operação entre computadores apenas. Essa programação tanto poderá refletir seu critério decisório ou utilizar algum algoritmo de inteligência artificial. O resultado é que, no fim do mês, o investidor terá apenas que retirar de seu home bank os lucros das aplicações feitas pelo computador (claro que também poderá haver prejuízos, mas se o algoritmo for bem elaborado, essa chance será pequena). Naturalmente, nesse esquema não mais haverá corretores nem intermediários.

 


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Corretoras de imóveis

A cansativa procura de um imóvel para comprar ou alugar pode estar acabando.

Na Internet, o interessado poderá acessar bancos de dados com milhares de imóveis e escolher aquele mais próximo do perfil definido, que inclui a localização, o preço (ou aluguel), área etc. Uma vez escolhido, poderá visitar o imóvel, com um corretor ou diretamente com o proprietário (que também poderá anunciar imóveis na Internet). A procura é rápida, pois é feita em bancos de dados sem precisar sair de casa ou do escritório.

No Brasil, já existe algo parecido em http://www.coelhodafonseca.com.br. Veja também http://ucansellit.com e http://homeadvisor.msn.com/ie/default.asp

 


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Agências de turismo e de viagens

No futuro, as agências de viagens serão virtuais, rápidas e confiáveis. O turista ou executivo poderá acessar um site, especificar a data, hora e local da partida e da chegada e a Internet lhe reservará os vôos, hotéis, carros etc. Tudo sem burocracia e sem perda de tempo.

 


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Leilões

Outra recente revolução causada pela Internet são os leilões virtuais. Qualquer objeto usado ou novo pode ser leiloado na Internet: basta anunciá-lo em um site adequado (como a Amazon, por exemplo), estabelecer um preço mínimo e aguardar sete dias. Após isso, quem fizer a maior oferta recebe o produto, entregado pela empresa virtual, que cobra uma comissão pelo serviço.

 


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EMPREGOS QUE ESTARÃO SURGINDO

Embora a Internet possa afetar bastante profissões como vendedores, corretores, bibliotecários, secretárias, agentes de viagem, bancários, cartorários, telefonistas, leiloeiros etc., mais de 20 novas profissões deverão surgir com a Internet, como listado a seguir.

O que vai ocorrer é que, entre a extinção de uma profissão e a criação de outra nova, as pessoas ficarão meio perdidas no mercado de trabalho, pois sua especialidade não mais será procurada, enquanto, para outras, nas quais há muita oferta de empregos, não se encontrarão profissionais habilitados. Isso é o que se chama "Desemprego Tecnológico".

Uma parte dos desempregados, geralmente os mais jovens, procurará se reciclar, indo às escolas em busca de uma nova profissão ou para atualizar seus conhecimentos. Outra, mais idosa e já sem disposição para assistir às aulas, acabará por fazer parte das estatísticas de desemprego.

O que é importante notar nesse processo de transição é que a escolha da profissão pelos jovens deve ser feita com base no que ocorrerá nos próximos 20 ou 30 anos, e não na situação de hoje (que, infelizmente, é o critério mais usado). Quem se decidir por uma carreira com base no que existe hoje correrá o risco de ter que ser reciclado no futuro, se quiser manter o emprego.

Por outro lado, as escolas precisam também se reciclar. Como disse um sindicalista, "as escolas tradicionais estão formando jovens para o desemprego, já que qualificam estudantes para profissões em extinção". Entre exemplos de cursos obsoletos, podem ser citados:

• Desenho Industrial baseado em régua, compasso e tinta nankin (em lugar de CAD);

• Cursos de Contabilidade baseados em lápis, papel e calculadora;

• Fabricação de chips de alta tecnologia em escolas de engenharia eletrônica (o que o Brasil não fará tão cedo);

• Organização & Métodos em escolas de administração (há muito tempo extinto no Primeiro Mundo);

• Cursos de Direito que ignoram a realidade jurídica do mundo virtual (ensinando, por exemplo, a Lei de Direitos Autorais cuja aplicação na Internet é discutível);

• Cursos de Medicina que ignoram o diagnóstico feito por algoritmos de inteligência artificial.

As novas profissões do século 21:

Administrador de Sistemas de Acesso à Internet

Administrador de Sites da Internet (Hospedeiros, Bancos de Dados)

Administrador Especializado em Home Banking e em Transferência de Fundos

Administrador Especializado em Marketing Virtual

Advogado, Promotor e Juiz Especializados em Internet

Analista e Programador Especializados em Redes Internet

Analista e Programador Especializados em Realidade Virtual (VRML)

Analista e Programador Especializados em Linguagens HTML e DHTML

Analista e Programador Especializados em Bancos de Dados para a Internet

Economista e Financista Especializados em Empresas Virtuais

Engenheiro de Segurança da Internet

Engenheiro de Telecomunicações via Internet

Engenheiro e Técnico de Redes Intranet e Extranet

Engenheiro Projetista de Hardware para a Internet

Engenheiro Projetista de Sites da Internet

Engenheiro Projetista de Software para a Internet

Filósofo, Sociólogo, Psicólogo e Pedagogo Especializados em Realidade Virtual

Matemático e Estatístico Especializados em Sistemas Complexos Não Lineares

Médico, Dentista e Veterinário Especializados em Consultas pela Internet

Professor Especializado em Ensino Virtual

Web Designer

Web Master

 

CONCLUSÃO

O mundo está mudando. E rápido demais para o lento processo de aculturação das pessoas. As empresas que não acompanharem as transformações ditadas pela tecnologia e pelo mercado vão acabar se tornando obsoletas e perderão mercado, virando história.

À guisa de conclusão, seguem aqui três artigos:

• Um é a mentalidade da "Geração Internet" que está surgindo e que ditará os novos padrões de consumo do próximo século.

• Outro são 12 conselhos de Bill Gates para que as empresas não submirjam com as novas ondas que estão surgindo.

• O terceiro, uma previsão de crescimento da Internet.

 


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Qui habet aures audiendi, audiat (Ap. 2-29)

 

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