RESENHAS

Novíssimo dicionário de economia

Jean Jacques Salim

Coordenador do Programa de Educação Continuada da EAESP/FGV

 

 

 

de Paulo Sandroni
São Paulo: Best Seller, 1999. 650 p.

Apesar do inegável avanço ocorrido no campo das comunicações e da informática, nós, brasileiros, ainda sofremos de um grande mal, que é a escassez de dados confiáveis sobre os mais variados setores da vida nacional ou a dificuldade de obtê-los. Os pesquisadores, professores, jornalistas e estudantes que o digam. Na realidade, não temos tradição em organizar fatos e estatísticas sobre nossa história e até debochamos de nós mesmos, quando dizemos, por exemplo, que o brasileiro tem memória curta.

Imaginemo-nos diante da tarefa de preparar um relatório sobre a conjuntura econômica no qual precisemos fazer referência ao passado, digamos, aos planos econômicos. Saberíamos identificar com facilidade uma fonte de consulta segura, rápida e não muito cara? Qual era o nome da moeda em vigor? E o nome do Ministro da Economia (ou será da Fazenda?) em exercício naquele período? Não parece assim tão difícil, mas não teríamos os dados nas pontas dos dedos.

Agora, suponhamos que, durante uma leitura corriqueira de um jornal ou uma revista, nos deparemos com expressões do tipo currency board, bradies, circuit-breaker, dirty float, global sourcing, ataque especulativo, securitização, anexo 4. Ou, então, aquele peculiar emaranhado de siglas tão a gosto da mídia: TBC, TBAN, TBF, ARO, T-Bonds, ACC, ADR. É muito provável que, em um ponto ou outro da leitura, tenhamos que admitir nosso desamparo vocabular.

Argumentar que as coisas são muito voláteis em nosso país, que a cada instante somos expostos a novos planos, jargões e siglas, pode ser uma explicação aceitável, mas não resolve o problema. Continuamos impelidos a gastar tempo e dinheiro na montagem de bancos de dados particulares, a duplicar arquivos e a constituir bibliotecas que possam atenuar nossa carência informacional.

É em parte por conta dessa perplexidade que tenho o prazer de resenhar o Novíssimo dicionário de Economia, do professor Paulo Sandroni, Best Seller, 1999. De outro lado, não consigo ocultar minha admiração pelos dicionaristas, pessoas sistemáticas, perseverantes, dotadas de um profundo senso de escolha, uma vez que se dedicam a uma tarefa infindável de múltiplas opções. O histórico desse trabalho é por si só prova cabal de sua qualidade: foi lançado em 1985, com o título de Dicionário de Economia. Sofreu a primeira revisão em 1989, ultrapassando 2.000 verbetes. A segunda revisão ocorreu em 1994, e o Novo dicionário de Economia angariou ao seu autor o Prêmio Jabuti 1995. Agora, é reeditado com mais de 4.000 verbetes, em respeitáveis 650 páginas.

Vejamos, em linhas gerais, o que está contido nessa obra que a torna fonte de consulta indispensável para profissionais de várias áreas, acadêmicos e estudantes.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que a obra cobre com largueza o campo da Economia, decerto sua principal meta, mas inclui uma extensa gama de termos e expressões de áreas correlatas, como administração, finanças, estatística e informática.

Se examinarmos o dicionário mais detidamente, veremos que cuidou de catalogar assuntos de interesse muito atual, como globalização, privatização, securitização, âncora cambial, ataque especulativo, Euro, currency board, hot money etc. Obviamente, não deixou de registrar uma infinidade de siglas designativas dos mais diversos organismos, operações financeiras e outros, como CVM, ANBID, ANDIMA, ABAMEC, FGV, FIPE, CADE, ALCA, NAFTA, BID, BIRD, BIS, ACC, ADR, LBO, WACC, EBIT, CAPM.

Os termos latinos, comumente empregados na linguagem de negócios, e os vocábulos ingleses que já se encontram incorporados ao nosso dia-a-dia também lá se encontram em profusão: ad hoc, ad nutum, ad valorem, pro rata tempore, per diem, back-up, back office, deadline, tradeoff, stakeholder, benchmark, break-even, hedge, competition, window-dressing, circuit-breaker.

O vocabulario de contabilidade e estatística que mais de perto se relaciona com temas de Economia foi seletivamente listado. São exemplos do primeiro caso: ativo, passivo, margem de contribuição, índices de liquidez corrente e seco, custos fixos e variáveis, capital fixo e de giro, ativos tangíveis e intangíveis. No segundo caso, encontramos: amostragem, correlação, análise de regressão, análise de variância, tipos de distribuição de probabilidades, medidas de dispersão e de tendência central.

Há, igualmente, um respeitável conjunto de verbetes de uso informal ou jargões corriqueiros no mundo dos negócios, tais como: caixa dois, sacoleiro, papagaio, mico, lavagem de dinheiro, mordomia, papel frio, moeda podre, contrato de gaveta, contrabando formiga.

Um outro tipo de registro que satisfaz a curiosidade e o interesse histórico: uma relação de todos os ex-ocupantes do Ministério da Fazenda (depois Economia), desde 1822 até hoje, com os respectivos períodos de exercício. Recordamos, por exemplo, que neste século tivemos 30 Presidentes da República e 59 Ministros da Fazenda. O presidente que inaugurou a fase republicana, Deodoro da Fonseca, nomeou quatro, começando com Rui Barbosa. João Goulart também teve quatro, e Itamar Franco bateu o recorde, com seis ministros dessa área, contra quatro de Sarney e apenas um sob Castello Branco, Costa e Silva-Médici ou Geisel.

Verificamos, ademais, que tivemos sete padrões monetários, com períodos variados de vigência e equivalências de valor: mil-réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real e real. Os planos econômicos certamente foram os responsáveis por essa e muitas outras mudanças e constam do Novíssimo dicionário de Economia com nível suficiente de detalhes.

Mais uma curiosidade: quer saber quais foram os economistas laureados com o Prêmio Nobel desde sua criação em 1969? Consulte o verbete Prêmio Nobel.

Uma característica importante desse trabalho de Sandroni são as minibiografias de inúmeras personalidades que influenciaram o pensamento econômico, inclusive uma rápida lembrança aos filósofos Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant e Rousseau. Como novidade, encontramos, adicionalmente, referências aos economistas brasileiros contemporâneos, cujas idéias, nem sempre bem-sucedidas, digamos, têm marcado os tempos recentes. São eles: Roberto Campos, Delfim, Simonsen, Conceição Tavares, Bresser Pereira, José Serra, Belluzzo, Pastore, Pérsio Arida, Edmar Bacha, Lara Rezende, João Sayad, Paul Singer e vários outros.

Por essas e outras características é que considero o Novíssimo dicionário de Economia uma obra de grande utilidade e confiabilidade.

 

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