RESENHAS

Economia internacional

Anita Kon

Professora do Departamento de Planejamento e Análise Econômica Aplicados à Administração da EAESP/FGV. E-mail: akon@fgvsp.br

 

 

 

de Peter B. Kenen
Rio de Janeiro: Campus, 1998. 648 p.

A partir do desenvolvimento tecnológico nos sistemas de transportes (desde o século XVI), tem sido possível às nações a intensificação de suas relações de trocas, ampliando o acesso a insumos e mercados, com resultados na internacionalização econômica. Essa internacionalização, que desde aquele século tinha o caráter de trocas comerciais de mercadorias, intensificou-se na segunda metade do século XIX, passando da esfera da circulação de mercadorias para a da produção, com o desenvolvimento da indústria na Europa e o processo extremamente rápido de concentração da produção. Transformou-se então, nessas circunstâncias, na internacionalização do capital financeiro, como resultado da acumulação de capital nos bancos, que passaram a atuar não só como intermediários mas também como monopolistas do capital-dinheiro, de meios de produção e de matéria-prima de vários países, unindo-se às empresas no processo produtivo. Essa concentração de excedentes de capital que são exportados resultou num novo estágio de desenvolvimento econômico, intensificado após a Segunda Guerra Mundial, que se revestiu, por um lado, num aumento do fluxo financeiro internacional, com reflexos no equilíbrio macroeconômico interno e no balanço de pagamentos das nações, e, por outro, na ampliação do desenvolvimento industrial por meio de investimentos diretos de grandes empresas no exterior com a internacionalização da produção de produtos acabados e posteriormente, a partir do final dos anos 60, com o desenvolvimento de cada parte do processo produtivo em uma diferente região mundial.

O corpo teórico representado pelo ramo da Economia Internacional veio se desenvolvendo desde as doutrinas mercantilistas do século XVI, buscando explicar tecnicamente os mecanismos dessas relações econômicas internacionais e suas implicações sobre os aspectos macro e microeconômicos dos países. Nesse contexto, o livro-texto Economia internacional: teoria e política, do professor Peter B. Kenen, publicado pela Editora Campus como tradução do original em inglês International Economics, apresenta os temas próprios do debate econômico dessa área, abordando as principais teorias encontradas na literatura acadêmica e objetivando mostrar como as transações internacionais afetam a economia interna e a condução de políticas econômicas nacionais.

O autor é renomado professor de Economia Internacional da Universidade de Princeton, e a versão original, publicada pela Cambridge University Press, é amplamente utilizada nos Estados Unidos e nos países de língua inglesa pelas qualidades didáticas que apresenta. Emprega uma linguagem apropriada à iniciação às idéias teóricas do tema, utilizando diagramas que introduzem o leitor ao tratamento acadêmico, sem se valer de uma linguagem matemática mais sofisticada (apenas resumida em um "Apêndice"). O texto, conforme designação do próprio autor, destina-se principalmente a alunos de graduação, integrando teoria pura com trabalho empírico.

A obra, desenvolvida em três partes, aborda, na primeira, uma introdução ao tema que apresenta, sob o tópico "A nação como uma unidade econômica", uma visão histórica sobre as origens do estudo do comércio e das finanças internacionais. O capítulo é iniciado com a visão dos mercantilistas sobre o papel do Estado e do comércio internacional para a base do entesouramento de uma nação e prossegue com a idéia dos economistas clássicos do século XVIII sobre a isenção do Estado em relação à regulamentação do comércio exterior como forma de aumentar a eficiência competitiva. As transações internacionais dos economistas modernos são, então, apresentadas, mostrando que podem ser influenciadas pelas políticas econômicas governamentais internas, muitas vezes resultando em conflitos entre o regime cambial e a eficácia da política monetária.

A segunda parte do livro trata da "Teoria e política do comércio internacional", introduzindo os principais conceitos e métodos, abrangendo particularmente as premissas das vantagens comparativas. Os modelos ricardiano e de Heckscher-Ohlin são examinados em detalhe, já que apresentam visões diversas sobre as vantagens. O primeiro se concentra sobre a eficiência econômica, salientando que as diferenças existentes entre os países se manifestam em preços relativos e se devem às exigências de mão-de-obra, e o segundo explica como as diferenças de dotações de fatores contribuem para a diversidade entre as condições de oferta e como essas diferenças se refletem nos preços dos fatores e dos produtos e na distribuição de renda.

Em continuidade, os capítulos seguintes analisam a substituição de fatores, inicialmente por meio de um modelo ricardiano modificado e, em seqüência, no contexto do tradicional modelo de Heckscher-Ohlin. Ferramentas relevantes para a análise das características específicas das economias modernas são expostas pelo autor quando são examinadas as condições da concorrência imperfeita e as conseqüências das economias de escala (multinacionalização), o movimento dos fatores e suas repercussões, as ferramentas da política comercial que afetam a distribuição dos ganhos do comércio e da renda nacional, bem como a evolução de longo prazo da política comercial.

O último capítulo da segunda parte da obra apresenta uma discussão sobre alguns tópicos constantemente discutidos na atualidade em economia internacional, como as premissas da Rodada Uruguai, a contribuição dos blocos regionais para a liberalização global do comércio internacional, o papel deste para o crescimento econômico de países desenvolvidos e em desenvolvimento, bem como a agenda de longo prazo da política comercial mundial. Como complementação a esse tópico, podem ser consultados os textos Comércio exterior brasileiro, de José Lopes Vazquez (Atlas, 1998), e Mercosul no contexto latino-americano, de Marcos Simão Figueiras (Atlas, 1996), que tratam mais especificamente da questão brasileira e latino-americana.

A terceira parte do livro desenvolve as premissas da "Teoria e política monetária internacional", enfocando inicialmente os aspectos macroeconômicos da economia aberta relacionados aos impactos das transações internacionais sobre os níveis de produção e preços, estoques de moeda, taxas de juros e outras variáveis expressas no balanço de pagamentos dos países. Mostra também como essas transações repercutem na liberdade e na eficácia das políticas monetárias e fiscais que objetivam a estabilidade econômica e como os acordos internacionais exercem influências sobre essas diretrizes.

Nesse contexto, o autor aborda as questões críticas sobre a maneira pela qual o comércio internacional modifica os processos de ajuste da determinação da renda e produção, dos regimes cambiais, das taxas de juros relacionadas à mobilidade do capital, o papel das expectativas e da incerteza nos movimentos internacionais de capital, a variação de estoques monetários resultantes de superávits ou déficits do balanço de pagamentos, bem como uma discussão sobre o equilíbrio de portfólio.

A publicação desse texto em português vem atualizar e ampliar a informação sobre a teoria da Economia Internacional, complementando obras menos recentes publicadas nesse idioma, como a de John Williamson, A economia aberta e a economia mundial: um texto de economia internacional (Atlas, 1989), e a mais conhecida e utilizada, de Paul T. Ellsworth, Economia internacional (Atlas, 1974). A abrangência dos tópicos tratados pela obra de Peter B. Kenen pode ser equiparada à publicação mais completa sobre o tema na atualidade, porém disponível apenas no idioma inglês, de Paul Krugman, Maurice Obstfeld et al., International economics: theory and policy (Addison Wesley, 1997). A obra é, portanto, recomendada não apenas para estudantes de graduação mas também para docentes e discentes de pós-graduação e para os profissionais especializados na área de Comércio Internacional.

 

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