RAE-CLÁSSICOS

 

Na hora da crítica: condições e perspectivas para estudos críticos de gestão

 

 

Valérie FournierI; Chris GreyII

IUniversity of Leicester
IICambridge University

 

 


RESUMO

Testemunhamos recentemente um crescente interesse pelos Critical Management Studies (CMS) [Estudos Críticos de Gestão (ECGs)]. Nosso objetivo, neste artigo, é refletir sobre a popularização do ECG; mais especificamente, nos propomos examinar os vários fatores que contribuíram para sua emersão, e rever o significado do seu projeto. Começamos pela exploração das condições de possibilidade do ECG, destacando uma combinação de tendências políticas, institucionais e epistemológicas. Na segunda parte do artigo, consideramos o que constitui o ECG e sugerimos que, embora inspirado numa pluralidade de tradições intelectuais, o ECG foi unificado numa instância antiperformativa,* e por um comprometimento com alguma forma de desnaturalização e reflexividade. Finalmente, articulamos as polêmicas em torno das quais as políticas do ECG têm sido contestadas, especialmente ao rever os debates entre neomarxistas e pós-estruturalistas, e discutimos o tópico do engajamento na prática da gestão.

Palavras-chave: Gestão crítica, desconstrução, gerencialização, performatividade.


ABSTRACT

We have recently witnessed a growing, if still arguably marginal, interest in "Critical Management Studies" (CMS). Our aim in this paper is to reflect upon the popularization of CMS; more specifically, we propose to examine the various factors that have contributed to its emergence, and to review the significance of its project. We start by exploring the conditions of possibility for CMS and point to a combination of political, institutional and epistemological trends. In the second part of the paper, we consider what constitutes "CMS" and suggest that whilst it draws upon a plurality of intellectual traditions, CMS is unified by an anti-performative stance, and a commitment to (some form of) denaturalization and reflexivity. Finally, we articulate the polemics around which CMS politics have been contested, in particular we review the debates between neo-Marxism and post-structuralism, and discuss the issue of engagement with management practice.

Keywords: Critical management, deconstruction, managerialization, performativity.


 

 

INTRODUÇÃO

A década de 1990 presenciou o surgimento de uma nova conjunção dos termos "crítica" e "gestão", e até mesmo o nascimento de uma nova subdisciplina cognominada CMS - Critical Management Studies ["Estudos Críticos de Gestão" (ECG)]. Alvesson e Willmott (1992a) adotaram esse termo como título de sua coleção muito citada e da qual foram editores, e desde então houve uma proliferação de publicações, séries de conferências e redes acadêmicas devotadas a discussões sobre "gestão crítica".1 Até mesmo ouvimos o termo "critters" usado para denotar o pessoal envolvido em gestão crítica - implicando pelo menos a tentativa de construir uma identidade baseada nessa área.

Muito embora, como veremos mais tarde, exista um leque considerável de maneiras pelas quais é nomeada e entendida a ligação entre "gestão" e "crítica", parece, de fato, que sua proliferação evidente merece análise. E devemos declarar aqui nosso interesse particular: estivemos envolvidos, de forma relativamente menor, sem dúvida, nas tentativas de articular os estudos críticos sobre gestão. Mas nosso propósito neste artigo não é, pelo menos não originalmente, avançar essa causa. Ao contrário, queremos dar um passo atrás, e tentar entender de que modo a gestão crítica ocorreu. De fato, temos alguma apreensão e inquietude acerca desse assunto, sendo esta uma ocasião para criticarmos um pouco a gestão crítica.

Temos em mente três grandes temas neste artigo. Primeiramente, discutimos o surgimento dos estudos críticos sobre gestão. Após salientar brevemente que certo criticismo sempre tem acompanhado a prática da gestão, desde seus primórdios, esta discussão toma a forma de um delineamento das condições da possibilidade da gestão crítica. Essas condições incluem a Nova Direita e o Novo Trabalhismo (New Labour), a gerencialização,** da crise interna da gestão, os deslocamentos na natureza da ciência social, bem como nos fatores específicos concernentes às escolas de administração do Reino Unido. A segunda parte do artigo considera mais detalhadamente o que queremos dizer com a palavra "crítica". Destacamos a pluralidade dos estudos críticos sobre gestão, identificando também certos caracteres unificadores. Estes últimos incluem um ponto de vista antiperformativo e um comprometimento com alguma versão da desnaturalização. Na terceira seção deste artigo, consideramos as políticas do ECG, dando especial atenção aos debates entre neomarxistas e pós-estruturalistas, e também à idéia de o ECG engajar-se ou não nas práticas da gestão, e como fazê-lo.

 

SURGIMENTO DOS ESTUDOS CRÍTICOS DE GESTÃO

Desde que a gestão surgiu como uma prática social no final do século XVIII e início do XIX (Pollard, 1968), tem sido sujeita de várias espécies de crítica. Por exemplo, nos idos de 1776, numa famosa passagem da Riqueza das nações, Adam Smith escreveu:

Dos diretores de sociedades anônimas [joint-stock companies], que são gestores do dinheiro alheio mais que do seu próprio, não se pode bem esperar que velem sobre esse dinheiro com a mesma vigilância ansiosa com a qual os sócios de uma sociedade privada [private copartnery] freqüentemente vigiam o seu próprio. (SMITH, 1776 [1904], p. 233).

A evidência histórica de sociedades anônimas no início do século XVIII (Pollard, 1968, p. 25-26) confirma que a fraude deliberada e a incompetência respondiam por parcela significativa dos fracassos.

Mant (1977, p. 9) argumenta que, no início do século XIX, o termo gestor era usado freqüentemente no sentido pejorativo, e, no melhor dos casos, a gestão era vista como uma ocupação servil. Escrevendo acerca desse período uma pesquisa, conclui que:

A julgar pela literatura dos primórdios, os gestores assalariados, isto é, aqueles pertencentes ao nível administrativo abaixo do empreendedor, eram usualmente trabalhadores analfabetos, promovidos de suas fileiras porque mostravam competência técnica ou porque tinham habilidade de manter a disciplina. Em geral recebiam apenas pouco mais do que os trabalhadores comuns e mais freqüentemente eram atraídos pela posição administrativa porque isso lhes dava o poder de contratar suas esposas e filhos para trabalharem na fábrica. (WREN, 1994, p. 45).

Obviamente, do ponto de vista dos proprietários ou dos defensores do capital, a desonestidade e a ineficiência eram vistas como problemas. Mas não se pouparam críticas à gestão, com respeito ao seu aspecto disciplinar e controlador do trabalho. De fato, muitos escritos acerca do processo do trabalho eram explicitamente relacionados com isso (por exemplo, Marglin, 1974, 1980). E, durante todo o século XX, houve muitas tentativas de explorar e problematizar o crescente poder social da gestão como prática e como grupo ou estamento social (por exemplo, Burnham, 1945; Mills, 1956; Enteman, 1993).

Dado que a gestão está emaranhada com o poder social e político, não surpreende que tenha sido sempre sujeita a alguma análise crítica. Porém, foi apenas na década de 1990 que se fez realmente alguma tentativa para unificar essa análise, ao delineá-la em conjunto sob um nome: Estudos Críticos de Gestão (ECGs). Obviamente, esse sinal pode significar nada mais do que um exercício no empreendimento acadêmico, explicável parte em termos de marketing de idéias, parte em termos dos esforços para construir a carreira dos indivíduos. Não obstante, isso raramente explica a avidez óbvia de alguns indivíduos e instituições em abraçar a gestão crítica e negligenciar o assunto mais interessante das condições sob as quais a conjunção de crítica e gestão tornou-se possível. São esses assuntos que agora exploramos. Antes de fazê-lo, deveríamos deixar claro que não enxergamos essas condições como tendo "causado" ou determinado o surgimento dos estudos críticos de gestão. Nem vemos os diferentes assuntos que identificamos funcionando independentemente uns dos outros.

ECG, a Nova Direita e a gerencialização

Muito embora o ECG tenha surgido no Reino Unido na década de 1990, precisamos regredir um pouco para entendê-lo, certamente até os anos 1980. Nessa década, sob a influência de políticas da Nova Direita (New Right), a gestão tornou-se um tópico quente, e, de acordo com alguns comentaristas, ocorreu uma "segunda revolução administrativa" (Clarke e Newman, 1993). Uma das razões para o surgimento da legislação antisindicato foi que ela restauraria o direito administrativo de gerir. A eliminação de "restrições" abriria caminho para uma gestão eficiente e inovadora. Mas a preocupação da Nova Direita com a gestão era mais profunda que isso. O setor público foi objeto de um esforço maciço da gerencialização (Pollitt, 1993; Clake e Newman, 1997). Conduzida em nome da eficiência e da responsabilidade final, a gerencialização do setor público também pode ser compreendida como um assalto sustentado, muito embora nem sempre bem-sucedido, às arenas do poder profissional, que para muitos neoliberais não passava de um dogma socialista. Particularmente com relação ao governo local, ao trabalho educacional e social, a gerencialização pareceu ser tanto um projeto de reestruturação ideológica como um controle de custos.

A gestão foi tratada como uma celebridade, foi até mesmo glamourizada. Os gestores eram vistos como detentores de um esclarecimento especial que os qualificava a se pronunciar acerca de um grande número de assuntos. Em educação, os administradores seniores industriais foram convocados para ajudar a construir o Currículo Nacional, uma vez que estavam no serviço de saúde participando dos comitês gestores dos hospitais, recentemente criados. Muito embora tais desenvolvimentos fossem freqüentemente vistos como "parcialmente políticos", no sentido de conquistar simpatizantes conservadores, foram talvez ontologicamente mais importantes no sentido de que os gestores eram vistos como tendo um conhecimento privilegiado do mundo real. A gerencialização, inscrita nas técnicas de responsabilidade final e simulação de mercado, era orientada a trazer o setor público para a realidade do mercado, ao traduzir o problema do fornecimento de serviços públicos para questões de cálculo e eficiência trocando-se valor por dinheiro.

Essas práticas não ficaram confinadas às administrações conservadoras. O Novo Trabalhismo (New Labour) tinha a mesma fé na competência administrativa. E continuaram os processos de gerencialização, no setor público, em termos de uma preocupação continua com "qualidade" e mensurações ou a convocação para a "modernização", equacionada como a gerencialização do governo local. Também tendem a considerar os assuntos políticos como tratáveis por soluções "técnicas", por meio da gestão de especialistas. Isso ficou claro com a tendência a usar executivos empresariais pra presidir comissões de revisões políticas, como as relacionadas com pensões, envolvendo a designação de David Sainsbury ao status de ministro. Temos ainda o encanto com Richard Branson; a delegação para decidir as taxas de juros no Banco da Inglaterra e assim por diante. Então a Nova Direita e o Novo Trabalhismo juntaram forças para construir o status icônico da gestão, legitimado sobre fundamentos ontológicos, epistemológicos e éticos. Assim, os gestores eram os sustentáculos do mundo real. Epistemologicamente, a gestão era considerada como a aplicação do conhecimento técnico. Moralmente, ela se justificaria por propiciar mais justiça, responsabilidade pública, democracia e melhoria na qualidade dos serviços públicos.

O uso crescente da gestão como um "valor"2 no domínio político, e o poder administrativo cada vez mais irrestrito nos setores público e privado, constitui a primeira parte dos fundamentos do ECG. À medida que a gestão foi sendo elevada a uma posição mais visível, também se tornou objeto de crescente atenção por parte daqueles ligados à análise do trabalho e das organizações. Obviamente, nem todo, nem mesmo a maior parte, desse crescente interesse era de "natureza crítica", e grande parte da análise da gestão realizada nas décadas de 1980 e 1990 simplesmente reproduziu o status icônico da gestão. Por definição, caracterizar a gestão como estando em ascendência é colocar uma apreensão grandemente não crítica em seu valor. Mas, ao mesmo tempo, a mescla da gestão com mudanças grandemente contestadas (como a estruturação do setor público, diminuição de escala, reengenharia cultural) ofereceu um campo fértil para uma apreciação mais crítica da gestão. Certamente, a gestão sempre poderia ter sido percebida como uma prática política, e não simplesmente como um conjunto neutro de técnicas administrativas, mas o status da gestão no universo da Nova Direita tornou isso muito mais visível.

Entretanto, o relacionamento entre a gestão e a Nova Direita foi mais complexo do que uma simples elevação de status da primeira em virtude da influência da segunda. Pois, enquanto a gestão ia se constituindo na solução de um conjunto de problemas e assuntos discrepantes, tornou-se um problema. Primeiramente, ficou óbvio que a erosão dos direitos dos sindicatos trabalhistas não acompanhou a nova era de eficiência administrativa. Realmente, pode muito bem ter eliminado apenas uma das desculpas que antes existiam para a incompetência administrativa. Segundo, como exploraremos na próxima seção, a gestão pareceu caminhar para uma espécie de crise interna, ao mesmo tempo em que ganhava proeminência.

Crise interna da gestão

O livro The Collapse of the American Management Mystique [O colapso da mística da gestão americana], de Locke (1996), ilustra bem essa crise. Enquanto as práticas da gestão americana (que foram e são a pedra angular das práticas administrativas no Ocidente em geral) têm sido consideradas responsáveis pela dominância dos Estados Unidos no pós-guerra, Locke argumenta que tem se tornando cada vez mais claro que não é esse o caso. Especificamente, sugere que, a partir de 1970, a gestão americana foi considerada ineficiente em face da competição internacional e inferior às da Alemanha e do Japão. A influência da japonização é bem conhecida (Oliver e Wilkinson, 1992), e pode-se dizer que, em vez de identificar uma crise de gestão, mostra como a gestão foi reconstituída. Dessa forma, conseguiu realçar seu prestigio e poder: a denúncia de que a gestão ocidental fracassou ao competir com as organizações japonesas habilitou o desacoplamento entre gestão e administração/burocracia. Assim, enquanto o "administrador burocrático" era demonizado, o gestor [manager] era pintado como uma figura mítica, rara mistura de brilho carismático que não poderia ser rotinizada nem codificada em regras, para depois ser transferida por meio de treinamento científico. Essa aura de mistificação e glória com a qual os gestores (da espécie correta) são canonizados pela literatura popular serviu para aumentar o poder e o status potenciais da gestão, e forneceu um campo fértil para o estudo crítico (por exemplo, Willmott, 1993; Du Gay et al., 1996). Entretanto, a japonização também anunciou o começo de uma espiral permanente e mais rápida de modismos (Kieser, 1997). Longe de emergir como um conjunto estável de técnicas confiáveis e estabelecidas, o conhecimento e a ciência gerencial mostraram-se fragmentados e instáveis. Para colocar de maneira diferente, se o sonho da gestão no pós-guerra era o estabelecimento de uma ciência gerencial reconhecida nos anos 1980 e 1990, esse sonho não somente não se realizou, como se revelou, com crescente clareza, irrealizável.

Para os próprios gestores, isso talvez não seja um assunto palpitante. Entretanto, os modismos das décadas recentes têm sido uma excelente arma para os acionistas, gestores de fundos e consultores usarem contra os gestores. Os gestores sempre podem ser criticados por serem insuficientemente versados na última técnica, e, sem a legitimação de uma base de conhecimento científico, são vulneráveis aos ataques. Porém, sua falta de status científico tem sido provavelmente mais problemática para os acadêmicos do que para os próprios gestores. Mas como o ECG é primariamente um fenômeno acadêmico, é razoável afirmar que essa crise interna da gestão é como que uma das condições para a possibilidade da existência do ECG. Embora ainda existam os que afirmem que o surgimento de uma verdadeira ciência da gestão está logo ali adiante (Koontz, 1980; Kay, 1994), é o clamor de uma minoria, e não uma esperança compartilhada por muitos. Uma visão mais cética sugere que, "[...] o objetivo de uma 'ciência da gestão' integrada, coerente e relevante parece mais distante, se assim podemos dizer, do que nos prósperos anos 1950" (Whitley, 1984, p.331).

É o colapso da certeza e da autoconfiança que torna os gestores e os pesquisadores da gestão, se não receptivos à crítica, pelo menos conscientes das deficiências de sua própria base de conhecimento. Como sugerirmos adiante, isso conduziu a alguns bizarros engajamentos em idéias críticas, entre os acadêmicos da gestão.

Positivismo, funcionalismo e ciência social

A maneira como o sonho gerencial de uma ciência fracassou é parte de um assunto maior, relacionado ao enfraquecimento da posição do positivismo e do funcionalismo na ciência social. Simplesmente, esse é um assunto vasto e complexo, que tem implicações maiores do que o estudo da gestão. Pelo menos desde os anos 1950, a noção de que a ciência social poderia ou deveria replicar as ciências naturais (em termos de metodologia, provendo leis e previsões) foi posta em questão (por exemplo, Winch, 1958). A posição positivista sofreu mais um golpe desferido pelo desenvolvimento da filosofia da ciência, mais obviamente daquele associado a Kuhn (1962), que problematizou o suposto objetivismo das próprias ciências naturais. Isso prognosticou a "virada lingüística", com um renovado interesse na fenomenologia, especialmente depois da publicação de A construção social da realidade, de Berger e Luckmann, em 1966. De maneira geral, essa obra pavimentou o caminho para a fragmentação das ciências sociais numa série de perspectivas concorrentes (Bernstein, 1976) e, finalmente, para o aparecimento da influência, grandemente difundida, do pós-modernismo.

Esses temas, que delineamos de forma bem coloquial, pois seguramente são muito familiares, afetaram as ciências sociais de forma geral, e a sociologia em particular. Em geral, o estudo da gestão e das organizações inspirou-se nas tradições das ciências sociais, mas de maneira bastante defasada. Assim, os métodos qualitativos apenas recentemente ganharam um ponto de apoio para sua legitimidade (Morgan e Smircich, 1980), mas houve um crescimento firme no engajamento com a ciência social não positivista e, um tanto quanto retardatariamente, com o pós-modernismo (por exemplo, Hassard e Parker, 1993). Muito embora uma rejeição do positivismo não seja automaticamente um movimento em direção à crítica (da mesma forma que ser positivista não é automaticamente estar desprovido de senso crítico), existe certa ligação entre essas coisas. Pelo menos, o reconhecimento da natureza socialmente construída dos arranjos sociais evidencia sua contingência e a possibilidade de sua reconstrução, segundo diferentes linhas.

Reino Unido como um sítio dos ECGs

O engajamento com o não positivismo e com outros movimentos relacionados em direção aos ECGs foram mais fortemente percebidos no Reino Unido (e em alguns outros países europeus) do que nos Estados Unidos, embora muitas condições do neoliberalismo estivessem presentes em ambos os países. É necessário, então, considerar algumas das condições específicas do trabalho intelectual no Reino Unido. Primeiramente não é apenas que os estudos sobre gestão sejam menos positivistas no Reino Unido, mas as ciências sociais em geral estiveram muito mais abertas aos debates antipositivistas. Contudo, é sabido que a sociologia americana ainda é dominada por métodos positivistas e que a publicação em periódicos de nomeada requer conformidade a essa filosofia. Dado o rigor dos sistemas de estabilidade nas universidades, a capacidade para o desenvolvimento da sociologia crítica fica limitada. Os mesmos argumentos se aplicam, talvez ainda mais fortemente, ao campo da gestão.

Além do mais, nos Estados Unidos relativamente pouco se percorreu do caminho da tradição intelectual radical baseada no marxismo, em contraste com o Reino Unido e a ciência social européia. Em parte por razões políticas e culturais gerais, em parte por causa do impacto da guerra fria e do macarthismo, a Academia Americana , embora abrigue dissidentes, não lhes exibiu a mesma espécie de acesso aos recursos críticos, facilmente disponíveis aos acadêmicos da gestão, quando começaram a desenvolver os ECG. Uma amostra disso é a maneira como a tradição weberiana foi utilizada na teoria americana da organização. Principalmente em termos de planejamento normativo organizacional, e não em termos da crítica da racionalização, com a qual está freqüentemente associada no Reino Unido.

Portanto, a questão é que as escolas de gestão do Reino Unido tinham uma tradição crítica pronta em que podiam se inspirar, o que não era tão verdadeiro nos Estados Unidos. O ímpeto de se inspirar nessas tradições é também parcialmente explicável em termos das condições específicas que prevaleciam no Reino Unido. Um dos impactos da Nova Direita nas universidades britânicas foi o corte radical no financiamento das ciências sociais. Tal qual no assunto da gerencialização, isso ocorreu em parte por causa do corte de custos, mas também em função de uma percepção de que os departamentos de sociologia eram locais de militância do esquerdismo. Nessas circunstâncias, muitos daqueles que seguiriam a carreira das ciências sociais nos anos 1980 encontraram mais oportunidades de financiamento e de trabalho nas escolas de gestão. Contudo, ao seguirem por esse rumo, levaram consigo um comprometimento com as tradições de sua primeira escolha, complementando assim a fertilização cruzada já existente entre os estudos sobre gestão e a ciência social criticamente orientada. Poder-se-ia dizer que isso é mais evidente em disciplinas organizacionais (por exemplo, Clegg e Dunkerley, 1977) do que em outras, embora tenha havido, por outro lado, um vigoroso florescimento de contabilidade crítica a partir dos anos 1970 pelas mesmas razões. Além disso, muitos acadêmicos críticos da gestão estão entre os pesquisadores mais produtivos, em termos de publicações em periódicos acadêmicos tradicionais, e isso conferiu um impulso considerável à sua legitimidade, quando essa medida de produção se tornou fundamental, a partir dos anos 1990.

Houve outras circunstâncias específicas particularmente auspiciosas para os ECGs, no Reino Unido, ao lado de um clima em que as tradições críticas eram mais disponíveis. Nos Estados Unidos, havia escolas de administração desde os fins do século XIX. Entre as conseqüências da Segunda Guerra Mundial, houve uma tentativa de recriar essas escolas com um fundamento científico rigoroso e tornar o nível da pesquisa em gestão mais alto, isto é, mais científico (Locke, 1989, 1996; Thomas, 1997). Muitas escolas de negócios americanas tinham um contato limitado com as faculdades de ciências sociais. No Reino Unido, ao contrário, não havia escolas de administração até os anos 1960, e a partir daí, apenas duas (Whitley et al., 1981). Nos anos 1980, porém, a maior parte das universidades desenvolveu uma escola de administração ou gestão. A administração se tornou o curso de graduação mais popular, e as providências para o MBA cresceram rapidamente. Esse desenvolvimento refletiu o cenário e a visão ideológica mutante do que as universidades deveriam ser, e também forneceu às universidades uma fonte de renda em face do congelamento das despesas e dos cortes.

Um efeito dessa expansão foi criar demanda para docentes de inclinação acadêmica, abrindo a possibilidade de cientistas sociais encontrarem um novo emprego nessas escolas. Mas a outra questão era que essas novas escolas de administração foram muitas vezes configuradas como parte dos departamentos de ciências sociais, de tal forma que houve uma razão muito maior para inspirar-se naquelas tradições das ciências sociais.3 O que talvez tenha sido crucial é que a demora na expansão das escolas de administração no Reúno Unido significou que a ortodoxia positivista dos anos 1950, que informou o crescimento das escolas de administração norte-americanas, foi questionada, de forma que as escolas de administração do Reino Unido provavelmente tornaram-se mais aptas a se nutrir da ciência social não positivista.

É claro que não tencionamos desenhar um quadro das escolas de Administração do Reino Unido como sendo incubadoras do fervor revolucionário, nem como sendo, em geral, inclinadas à ciência social não positivista. Ao contrário, a maioria do trabalho de pesquisa empreendido por essas escolas se inspirou nas versões positivistas da economia ou da psicologia, muitas vezes na sua forma mais crua (Anthony, 1986). Os métodos quantitativos tornaram-se dominantes, e, ideologicamente, pouca dúvida existe de que a orientação gerencial prevaleça. Em nossa opinião, assim como existiam algumas condições que indicavam um rumo diferente, também as práticas de gestão, nos anos 1980, assumiram como que um caráter de Jano,*** entre a panacéia e a crise. Houve então acadêmicos que tiveram (em parte por escolha própria, em parte por necessidade) interesse em gestão e (em função de treinamento ou predisposição) se inclinaram à análise crítica.

 

O QUE É ESSA COISA CHAMADA CRÍTICA

Até agora estivemos falando como se o significado de crítica fosse auto-evidente. De certa maneira, ao nível mais básico, estar engajado nos estudos críticos de gestão significa dizer que existe algo de errado com a gestão, enquanto prática e corpo de conhecimento, e que isso deve ser mudado. O que nos leva muito longe, porque muito do trabalho realizado sobre gestão se encaixa nessa definição4 sem ser crítico, na maneira definida por aqueles que se subscrevem nos ECGs. Parece que na prática não temos dificuldade de distinguir, no campo da gestão, um trabalho crítico de um não crítico. Mas como? Que gramática ou que identificadores nos permitem fazer essa distinção?

Uma resposta óbvia encontra-se na natureza e na pluralidade das tradições intelectuais da ciência social, invocadas pelos acadêmicos críticos da gestão. Ela envolve uma grande amplitude de posições, incluindo o neomarxismo (teoria do processo de trabalho; teoria crítica da Escola de Frankfurt; "teoria da hegemonia" de Gramsci), o pós-estruturalismo, o desconstrucionismo, a crítica literária, o feminismo, a psicanálise, os estudos culturais, o ambientalismo. Mais recentemente, abordagens como o pós-colonialismo e a queer theory**** tiveram algum impacto, embora limitado, sobre os estudos de gestão. Portanto, os ECGs são em parte constituídos por um processo de inscrição dentro de uma rede de outras inscrições que servem para criar pontos de passagem obrigatórios em termos de trabalho referenciado e vocabulário, ou conceitos usados em análises.

Porém, o pluralismo teórico dos ECGs e o fato de que não há posição "crítica" unitária significa que não existe uma única maneira de separar o crítico do não crítico. Por exemplo, alguns teóricos do processo de trabalho consideram várias formas do pós-modernismo incapazes de gerar crítica real (por exemplo, Thompson, 1993). O trabalho psicanalítico, e humanista em geral, pode considerar-se apto a oferecer uma base para a crítica e a reforma que os pós-estruturalistas rejeitam como disciplinar (Rose, 1989). Por essas e por outras razões, muitos dos que poderiam ser identificados com os ECGs rejeitariam esse rótulo. Além disso, o termo "crítica" é desenvolvido para articular diferentes divisões. Para alguns o termo crítica é reservado para o trabalho inspirado na Escola de Frankfurt e contrasta com a análise pós-moderna (Alvesson e Deetz, 1996), enquanto, para outros, os estudos críticos de gestão são usados (de uma maneira afrontosa) para referir-se à análise pós-moderna (Anthony, 1998). No meio dessa confusão ao distinguir diferentes trabalhos sob vários rótulos, deveríamos deixar claro que usamos o termo ECG num sentido amplo para abarcar mesmo uma pluralidade de tradições intelectuais conflitantes, inclusive alguns autores que rejeitariam o rótulo ECG. Embora o pluralismo dos ECGs e a extensão dos dissidentes acerca da inclusão sejam fatos que sugerem que não existe uma maneira definitiva de traçar limites entre o trabalho crítico e o não crítico, os limites são, a despeito de tudo, traçados e reconhecidos pelos tipos de trabalhos referidos pelos autores. Sugerimos que os limites sejam definidos em torno de assuntos relacionados a performatividade, desnaturalização e reflexividade.

Intenção (não) performativa

O limite mais óbvio pareceria estar situado entre o trabalho sobre gestão que possui uma intenção ou premissa performativa e aquele que não o tem. Uma intenção performativa (Lyotard, 1984), aqui, significa a intenção de desenvolver e celebrar o conhecimento que contribui para a produção do máximo output [saída] com o mínimo input [entrada], envolvendo o registro do conhecimento dentro dos cálculos meios-fins. O estudo de gestão não crítica é governado pelo princípio da performatividade que serve para subordinar conhecimento e verdade à produção de eficiência. No estudo de gestão não crítica, a performatividade é tomada como um imperativo, em direção ao qual todo o conhecimento e prática deve ser guiado e não exige questionamento. Em outras palavras, o objetivo é contribuir para a eficiência da prática de gestão, ou construir um modelo melhor, ou entender acerca dele. A gestão é entendida como um dado, e um dado desejável, e não é interrogada, exceto quando isso possa contribuir para a melhoria de sua eficiência. O trabalho crítico não é performativo nesse sentido, muito embora possa ter alguma intenção de desempenho, como conquistar um mundo melhor ou terminar a exploração. Os ECGs questionam o alinhamento entre conhecimento, verdade e eficiência (um ponto ao qual retornaremos em breve), e está interessado na performatividade apenas enquanto ela procura descobrir o que está sendo feito em seu nome.

Uma maneira pela qual a demarcação entre não performatividade e performatividade, crítica e não crítica é mediada e pode ser reconhecida baseia-se no léxico dos conceitos desenvolvidos nos diferentes estilos de trabalho. Por exemplo, a invocação de noções como poder, controle e desigualdade exprime tipicamente alguma forma de abordagem crítica, enquanto eficiência, efetividade e lucratividade não o fazem. Claro, muito depende de como os termos são usados. Por exemplo, o recurso a um conceito como gênero pode ocorrer tanto num trabalho crítico como num não crítico. Num trabalho não crítico, o assunto poderia ser o de aproveitar a diversidade na busca da efetividade; aqui, tópicos de desigualdade de gênero são traduzidos em problemas de recursos desperdiçados; e a oportunidade igualitária é promovida sobre o fundamento performativo (por exemplo, Davidson e Cooper, 1992). O trabalho não crítico considera o gênero como um repositório "dado" de diferenças. As perspectivas críticas podem concentrar-se na feitura de diferenças de gênero e no modo como as práticas organizacionais, inclusive as práticas de igual oportunidade, estão implicados na reprodução das relações de poder baseadas no gênero (por exemplo, Acker, 1992; Halfourd et al., 1997).

O exemplo do gênero introduz outro marco na fronteira entre o trabalho crítico e o não crítico. Este último se relaciona com o comprometimento de desnaturalização que, na nossa visão, distingue os ECGs. Sugerimos que o que talvez una as disparatadas contribuições dos ECGs seja a tentativa de expor e reverter o trabalho da teoria de gestão da corrente majoritária.

Desnaturalização

Se concebermos a teoria de gestão do século XX como envolvida num duplo movimento de construção da realidade e da racionalidade organizacional, enquanto oculta o processo de construção sob uma máscara de ciência e "naturalidade", podemos conceber os ECGs como engajados num projeto de desfazer esse trabalho, de desconstruir a "realidade" da vida organizacional, ou a "verdade" do conhecimento organizacional ao expor sua "não naturalidade" ou irracionalidade. Os ECGs dizem respeito à "desnaturalização" (Alvesson e Willmott, 1996).

Enquanto nas teorias de gestão da corrente majoritária se invocam vários "imperativos" (como a globalização, a concorrência) para legitimar um curso de ação e sugerir (implícita ou explicitamente) que "não há alternativas", os ECGs estão comprometidos com o descobrimento das alternativas que têm sido eliminadas pelo conhecimento e pela prática administrativa. Seja concebido em termos de uma ideologia que reproduz certas ilusões de direção (Skillen, 1977), seja em termos de discursos historicamente contingentes, os ECGs estão interessados com a proposição de que as coisas podem não ser como parecem, mesmo que as razões dadas para isso difiram tanto ontológica quanto politicamente. Nos anos 1970, quando Stewart Clegg e outros começaram a articular uma agenda crítica para a teoria da organização, destacaram que, "nossos 'assuntos' - sexismo, poder, desenvolvimento capitalista [...] ainda não constam dos índices da maioria dos textos sobre organizações. Esperamos remediar esse estado de coisas ao colocar essa ausência como problemática" (Clegg e Duncaerley, 1977, p. 2).

É esse interesse em registrar o que tinha sido escrito por extenso que parece ligar muitos textos críticos sobre gestão que de outra forma pareceriam diversos. Seguramente, esse interesse pode ser percebido de formas diferentes. Em primeiro lugar, as críticas podem não concordar sobre o significado relativo daquilo que é escrito. Para uns, a degeneração da gestão pode parecer o mais importante; para outros, o desaparecimento da classe. Em segundo lugar, alguns críticos (notavelmente, mas não exclusivamente, os marxistas) argumentam que o que é escrito é realidade, enquanto outros (muito obviamente pós-estruturalistas) se contentam em destacar a possibilidade de perceber a gestão e as organizações de maneiras alternativas, sem conferir prioridade ontológica a essas percepções. Contudo, sem querer suavizar as diferenças teóricas substantivas (e retornaremos a esses assuntos num momento futuro), parece que tais projetos têm mais em comum entre si do que com relatórios sobre gestão, que supõem ou procuram justificar as relações sociais e organizacionais existentes como naturais e/ou inevitáveis.

Esse comprometimento com a desnaturalização sugere que os ECGs não são estáticos. Estão sujeitos a deslocamentos e revisões, tanto em relação à amplitude das tradições e teorizações que invocam quanto em relação aos deslocamentos na natureza das práticas e do conhecimento administrativo. O comprometimento dos ECGs com a crítica por meio da desnaturalização os coloca em movimento contínuo, pois a crítica tem que seguir as práticas que constituem seus alvos e haurir-se promiscuamente de uma pluralidade de tradições intelectuais, para lançar e aperfeiçoar seus ataques. Os ECGs envolvem perpétua crítica (Deetz e Mumby, 1990), inclusive a crítica de si mesmo, implicada por sua ênfase sobre reflexibilidade.

Reflexibilidade

Isso nos conduz a uma linha final de demarcação entre o trabalho crítico e o não crítico: os ECGs talvez possam ser diferenciados em termos da extensão de sua reflexibilidade filosófica e metodológica. Não que os estudos de gestão, na corrente majoritária, sejam positivistas enquanto os ECGs não o seriam. Mas o positivismo da corrente majoritária raramente é discutido e defendido explicitamente (veja Donaldson, 1996, como uma rara exceção). Em geral, alguma versão (um tanto quanto fraca) do positivismo é simplesmente suposta, não existindo nenhuma reflexão explícita sobre epistemologia e ontologia, e a discussão sobre metodologia acaba limitada a assuntos restritos a assuntos de método e de técnica estatística (Ackroyd, 1996).

 

AS POLÍTICAS DOS ECGS

Num nível básico, os ECGs são um projeto político, no sentido de almejar o desmascaramento das relações de poder em torno das quais a vida social e organizacional está tecida. Além disso, a noção de emancipação (Alvesson e Willmott, 1992b), embora imaginada, figura proeminentemente nas várias tradições intelectuais que dão forma aos ECGs (sejam elas o feminismo, as teorias neomarxistas, o pós-estruturalismo). Existe um comprometimento para libertar sujeitos individuais das relações de poder em que estão inseridos, inclusive sua própria subjetividade (Knights e Willmott, 1989). Porém, o modo como essas relações de poder devem ser concebidas, desembaraçadas e subvertidas têm sido assunto de muita controvérsia dentro dos ECGs, controvérsias que espelham a fragmentação geral das ciências sociais.

Os ECGs estão dilacerados pelas diferentes posições ontológicas e epistemológicas das diversas tradições intelectuais nas quais se inspiram. Mas é talvez ao nível político que essas diferenças são expressas mais ferozmente (não que a política possa ser separada da epistemologia ou da ontologia). Em vez de tentar delinear um projeto político comum vago, articulamos os tópicos em torno dos quais as políticas dos ECGs têm sido contestadas, sobretudo a contestação sobre realismo/relativismo, e aquela acerca do engajamento com a prática administrativa.

Realismo/relativismo

Talvez os argumentos mais clamorosos coloquem em antagonismo o entendimento materialista de poder, baseado na análise marxista, com o entendimento discursivo das relações de poder, inspirado no pós-modernismo. Ambas as vertentes da discussão foram bem ensaiadas (confira Thompson, 1993; Knights e Vurdubakis, 1994; Thompson e Ackroyd, 1995 versus. Knights, 1995), e aqui fornecemos apenas uma breve descrição da polêmica para examinar suas implicações políticas. De acordo com a linha neomarxista, a análise pós-moderna5 é politicamente inepta, irresponsável e perigosa; seu relativismo epistemológico e ontológico inevitavelmente conduz ao niilismo moral (Thompson, 1993). Argumenta-se que, ao considerar a linguagem como construtora, e não como refletora da realidade, o pós-modernismo reduz todas as experiências sociais - inclusive experiências de exploração, exclusão e dominação - a efeitos lingüísticos que podem ser voluntariamente descartados recambiando os recursos discursivos sobre os quais nos inspiramos. A análise pós-moderna é acusada de não possuir nenhuma margem crítica ou política na qual negue que as histórias de exploração são mais verdadeiras, válidas ou reais do que as histórias construídas pelos que abusam do poder. Parker (1992) sumariza esse criticismo ao sugerir que no texto pós-moderno "os problemas de indivíduos (fictícios) em organizações (míticas) são colocados em segurança, atrás de uma cobertura filosófica (duplamente envidraçada), e seus gritos são tratados como exemplos interessantes de discurso" (Parker, 1992, p. 11).

Autores mais condescendentes com o "pós-modernismo" (por exemplo, Knights, 1995) têm-se defendido desses ataques. As refutações-chave são, primeiro, que o dualismo entre o material e o discursivo, invocado na crítica marxista, é inválido porque reduz a noção pós-moderna de discurso à linguagem (isso seria uma má interpretação). O discurso refere-se tanto às práticas lingüísticas quanto às materiais, como foi ilustrado no trabalho de Foucault (1979), por exemplo. Em segundo lugar, para alguns escritores, o relativismo epistemológico e ontológico do pós-modernismo oferece um amistoso refúgio às grandes narrativas totalizantes do modernismo crítico, sejam a teoria crítica ou a teoria do processo de trabalho, que propõem substituir um tipo de absolutismo (performatividade) por outro. E os "discursos aparentemente emancipatórios podem ser, ou vir a ser, uma fórmula de dominação normalizadora e disciplinante" (Willmott, 1996a, p.115).

Porém, o debate tem ido cada vez mais além dessas polarizações, de forma que alguns escritores críticos têm procurado construir ou reconstruir uma forma de crítica que nem reafirma dogmaticamente a primazia do realismo neomarxista nem abraça a ironia estética e o niilismo moral de algumas versões do pós-modernismo. A tentativa de separar a ligação lógica entre o relativismo epistemológico e o relativismo moral ou político tem sido um motivo central para certos escritores que buscam reintroduzir a crítica com algum grau de engajamento político (Willmott, 1994a; Parker, 1985; Grey, 1996a). Aqui, o interminável "lutar contra", implicado pela crítica permanente, é considerado insuficiente e deveria ser acrescido de algum comprometimento com uma ordem "melhor" e com alguma "microemancipação" (Alvesson e Willmott, 1992b; Parker, 1995), embora essas visões possam ser locais, pequenas e modestas. O desafio é encontrar "um local provisório e contingente para uma crítica radical eticamente fundamentada" (Grey, 1996a, p. 593). Poderse-ia dizer, entretanto, que outros argumentam que qualquer tentativa de reconciliar o relativismo epistemológico com algumas visões morais é fútil e hipócrita (Carter, 1995; Jackson, 1995). A crítica permanen-te, inclusive a crítica de uma promesse de bonheur [promessa de felicidade], é tudo o que poderíamos fazer, em face do pós-modernismo, muito embora essa limitação possa ser dolorosa.

Essas várias polêmicas, entre neomarxistas e pósmodernistas, entre aqueles que buscam reconciliar o relativismo epistemológico com alguma forma de comprometimento ético e aqueles que argumentam em favor de uma crítica permanente, tiveram algumas implicações importantes. Não apenas por articularem as diferentes políticas que os ECGs podem engajar, mas também ao encorajarem um grau maior de reflexividade nos textos de ECG. Esses debates levaram os autores dos ECGs a questionarem os fundamentos da crítica, os direitos e habilidade de criticar, e os alertaram sobre a natureza paradoxal e ridícula de suas posições chegando a confiscar a voz daqueles em nome de quem falavam. Esses debates certamente foram provocadores e serviram como um "esmeril para afiar a crítica" (Parker, 1995, p. 562).

Engajamento versus desengajamento

Porém, há alguma impaciência com esse debate, e existem inquietudes no sentido de que essa preocupação com os fundamentos e a "retidão" de nossa crítica está nos desviando do engajamento com práticas organizacionais e participantes (por exemplo, Anthony, 1998). Isso nos conduz a uma segunda linha de tensão nos ECGs que separa os que gostariam de ver a crítica sendo orientada pragmaticamente dos que são acusados de serem indulgentes com o elitismo intelectual. Os ECGs, especialmente sua versão pós-moderna, são acusados de reduzir a crítica a alguns intercâmbios obscuros entre intelectuais, conduzidos atrás das portas fechadas das conferências acadêmicas onde os pesquisadores podem expor, em préstito, a sua crítica e ponderar acerca de sua verossimilhança:

Que forma essa educação necessária sobre gestão deveria tomar e qual deveria ser o seu propósito? Essas perguntas, onde quer que sejam debatidas, são levantadas fora das agendas oficiais das escolas de negócios e de gestão, fora da pista, em conferências e seminários pequenos, mas de elite, os quais provavelmente não serão notados pelos diretores e seus planejadores de programas. A natureza um tanto sombria das discussões contribui para uma excitação perigosa. Isso porque há um consenso de que a educação para a gestão não deve de forma alguma ser concebida como algo útil, e que, portanto, melhor seria que os empregadores dos participantes dessas conferências não estivessem a par dos assuntos ali tratados. (ANTHONY, 1998, p. 270).

Há também uma preocupação de que, enquanto os escritores estejam a torturar-se sobre os termos de suas críticas e sobre sua própria posição dentro da crítica, se elimine do texto o gestor ou o membro organizacional como sujeito de interesse. O problema da posição do autor no texto e os interesses com a reflexibilidade tendem a privilegiar a voz do autor, enquanto os sujeitos da vida organizacional são eliminados ou mantidos à distância pelo jargão esotérico adrede preparado (Clegg e Hardy, 1996). Assim, para alguns, os ECGs estão em perigo de se desengajar da gestão e das práticas organizacionais, em perigo de tornar-se um fórum para o exercício da indulgência acadêmica.

Porém, em nossa visão, seria injusto e inverídico reduzir os ECGs a algum intelectualismo obscuro que recuse engajar-se em qualquer coisa que não seja o intercâmbio hermético consigo mesmo.6 Uma coisa é certa: pode muito bem ser necessário haver um período inicial de "debate interno" entre acadêmicos, como prelúdio para o desenvolvimento de formas mais engajadas na prática. Além disso, e contrariamente ao que disse Anthony (1998), houve um debate aberto e rigoroso sobre como o ECG poderia e deveria informar a educação sobre gestão (ex. Willmott, 1994b; Grey e Mitev, 1995; French e Grey, 1996; Grey, 1996b; Reynolds, 1997; Thomas, 1997). A educação da gestão, apesar de tudo, é a arena mais imediata onde os ECGs talvez possam influenciar a prática administrativa. E não há dúvida, a partir dessa literatura, de que muitos acadêmicos críticos da gestão estejam ativamente desenvolvendo pedagogias congruentes com o projeto crítico. Certamente, existem cismas aqui, vejase Gray e Mitev (1995) argumentando em favor de um desacoplamento entre educação de gestão e gestores. Porém, como enfatiza Thomas (1997), é improvável realizar isso a curto prazo, e a maior parte da literatura procura identificar uma aproximação entre "pragmatismo" e "purismo". A esse respeito, os debates acerca de educação para a gestão são um subconjunto das questões mais amplas que afetam os ECGs. Aqui, pintamos um quadro polarizado e caricatural de duas posições conflitantes, reconhecendo que poucos sinceramente abraçariam qualquer uma delas, antes fariam um malabarismo desconfortável com ambas.

A primeira posição é de que os ECGs deveriam contribuir para a promoção e o desenvolvimento de formas mais humanas de gestão. Dessa perspectiva, os ECGs não são "antigestão", mas almejam transformar a gestão, para promover formas menos irracionais e socialmente desagregadoras de teorias e práticas de gestão (por exemplo, Watson, 1994; Alvesson e Willmott, 1996; Grey, 1996b; Anthony, 1998):

A teoria crítica (TC) não é inerentemente ou infatigavelmente "antigestão". O intento da TC não é ser indulgente com o projeto utópico de eliminar a hierarquia, de remover divisões especializadas de trabalho ou até mesmo de abolir a separação da gestão e de outras formas de trabalho. Ao contrário, sua aspiração é incentivar o desenvolvimento de organizações em que as comunicações e o potencial produtivo sejam progressivamente menos distorcidos por relações de poder socialmente opressivas e assimétricas. (ALVESSON e WILLMOTT, 1996, p. 18).

Embora exista uma controvérsia quanto ao fato de a gestão poder ou dever ser transformada, existe também uma ênfase compartilhada acerca do engajamento no diálogo com os que praticam a gestão e os teóricos da corrente majoritária (Watson, 1994; Anthony, 1998). De acordo com essa linha de discussão, a gestão está mesclada com relações morais, decisões e atividades, e os gestores deveriam ser moralmente educados. Porém, pelo menos para alguns (por exemplo, Anthony, 1998), essa educação moral deveria suspender a crítica, ou a pregação de valores emancipatórios, e começar por um entendimento indulgente da prática administrativa. Porque se as relações morais estão incrustadas no processo administrativo devemos aprender com aqueles que o praticam. Isso sugere um engajamento num intercâmbio [...] esse intercâmbio depende tanto da sanção do discípulo quanto da autoridade do douto (Anthony, 1998, p. 279).

A segunda posição adotada pelos ECGs é de um desengajamento mais ou menos completo da prática administrativa. Aqui, uma recusa em engajar-se em conversações lenientes ou em propor "melhores modelos de gestão" constitui a verdadeira força e integridade da política dos ECGs. O argumento é de que a gestão é irredimivelmente corrupta, já que sua atividade está inscrita nos princípios performativos que os ECGs procuram desafiar. Assim, os ECGs são expressamente "antigestão": sua tarefa não é reformar a gestão em direção a alguma atividade mais humana ou eticamente concebida, mas solapá-la (e talvez finalmente, e ingenuamente, destroná-la) por meio da crítica. Talvez o principal ponto da crítica aqui seja chocar, provocar e ser ofensivo, ou "urinar em público" (Burrell, 1993). Essa relutância em se engajar num diálogo com gestores ou pesquisadores de gestão pertencentes à corrente majoritária não é um distintivo de esnobismo intelectual, mas um ato político: "o diálogo é a arma do poderoso" (Burrell, 1996, p. 650), e um intercâmbio com praticantes e teóricos de gestão traz o risco de corromper a crítica, porque os conceitos e os interesses do ECG são apropriados pelo esgazeado olhar performativo daquilo que Burrell (1996) chama NATO (North American theory of organization). Teme-se que o engajamento, longe de deslocar a ortodoxia, vá transformar os ECGs noutro "kit de ferramentas" para os gestores, que, equipados com um melhor entendimento das relações de poder nas organizações, possam organizar recursos discursivos para avançar a sua dominação com uma legitimidade adicional e credos intelectuais fornecidos pela referência aos altos teóricos de Frankfurt ou Paris:

Os gestores geralmente responsáveis pelas organizações têm o interesse de preservar as relações hierárquicas correntes. Quanto mais aprendem que o discurso atua como uma fonte de controle, mais aumentam sua habilidade de distorcer a comunicação com o objetivo de legitimar e avançar suas próprias vantagens nas organizações. De fato, a CSS [critical social science - ciência social crítica] pode ser especialmente útil para essa finalidade. (NORD e JERMIER, 1992, p. 214).

Embora a posição "antiengajamento" identifique corretamente os perigos da colonização, parece supor que a "gestão" está unida numa conspiração contra "o que é gerido". Tal pressuposto desconsidera as várias divisões (organizacionais e sociais) que fragmentam a "gestão" (Parker, 1997), e que podem aproximar alguns gestores, mais do que outros, das alegações emancipatórias dos ECGs. Certamente seria incorreto considerar os gestores como um grupo homogêneo. E há aqui o perigo de os ECGs, ao considerarem os gestores dessa forma, meramente projetem todo o "mal" sobre eles. Não obstante, assim fazendo ignoram não somente a heterogeneidade dos gestores, mas também o fato de os próprios gestores serem gerenciados (Watson, 1997), e a capacidade dos gestores para a atuação moral (Watson, 1994).

Ainda que os últimos comentários possam sugerir que o engajamento deve ser preferido ao desengajamento, continua sendo verdade que o engajamento coloca alguns dilemas reais. Prontamente se presta ao comprometimento dos recursos dos ECGs na busca de "melhor gestão", muito embora de forma modesta. O ECG, ou simplesmente o termo crítico, está sendo cada vez mais invocado como uma espécie de nova abordagem aos estudos da gestão, e utilizado com pouca atenção às complexidades ou intenções de seus fundamentos teóricos. Podemos ser acusados, talvez com alguma justiça, de criar uma linha entre o que é "realmente" crítico e o que é "pretensamente" crítico. Muito embora existam alguns fundamentos para isso, tal separação é secundária para a nossa intenção mais analítica: não é interessante e significativo que a crítica deva ser invocada dessa maneira?

Para se ter uma idéia da "infiltração" do conceito de "crítica" na corrente majoritária, considere-se a conferência de 1996 da Britich Academy of Management (BAM). Esta alardeou, pela primeira vez, uma corrente de "pensamento crítico" que incluía, entre outras coisas, vários artigos que examinavam a eficiência do desenvolvimento da gestão baseada em competências e nas NVQs (National Vocational Qualifications). Um artigo almejava esclarecer a academia sobre a maneira como "as qualificações vocacionais da gestão podem encorajar o desenvolvimento de habilidades transferíveis por meio de aprendizado empírico" (Bedward e Rexworthy, 1996). Outro artigo propunha "disseminar a melhor prática na educação de graduação" com base nas descobertas do exercício da Teaching Quality Audit (TQA) [Auditoria sobre a Qualidade do Ensino] (Gennard e McKiernan, 1996).

Em termos dos tópicos de performatividade, desnaturalização e reflexividade que identificamos anteriormente como indicadores dos ECGs, é difícil ver muita coisa crítica nesses artigos. Além do mais, é notável como se tornou lugar-comum invocar a aura do pós-modernismo de maneira a manter escassa semelhança com o trabalho de, digamos, Baudrillard, Lyotard ou Kristeva. Por exemplo, um dos artigos da BAM de 1996 afirmava que Mintzberg, Peters e Ohmae representam "posições teóricas pós-modernas" que servem para reconceitualizar a gestão estratégica como uma mescla ardilosa de ações espontâneas e caóticas (Joyce e Woods, 1996). Outro artigo inspira-se numa análise pós-estruturalista da linguagem para sugerir que os gestores deveriam aperfeiçoar sua prontidão e uso da linguagem para desenvolver seu entendimento cultural.

Podemos esperar que esse desenvolvimento ainda modesto dos conceitos e recursos teóricos dos ECGs se torne mais difundido como a pressão para publicação, e que a reputação acadêmica atraia mais pesquisadores para explorar recursos ainda inexplorados. Por sua vez, é provável que isso conduza, pelo menos até certo ponto, à suavização dos conceitos críticos e dos projetos emancipatórios, como já é evidente, por exemplo, nas tentativas de reivindicar uma reaproximação entre o marxismo e estilos pós-burocráticos de gestão (Aktouff, 1992), ou nos livros-textos sobre pós-modernismo e gestão (por exemplo, Boje et al., 1996).

Enquanto a questão da desejabilidade e da possibilidade de engajamento com a prática administrativa continuar a ser uma das principais clivagens nos ECGs, talvez valha a pena concluir que boa parte do debate tem sido peculiarmente parcial. Isso porque o engajamento é apresentado como sendo com a gestão (daí os temores de corrupção, etc.). Contudo, os ECGs apenas começaram a considerar os engajamentos com o gerenciado,7 com os sindicatos, com os grupos de mulheres e, por assim dizer, com quem possa, discutivelmente talvez, ser uma clientela mais óbvia para esse empreendimento. Quebrar a ligação entre os estudos de gestão e a necessidade da gestão não implica o tipo de lacre hermético, intelectualismo auto-referido, que Peter Anthony e outros têm criticado.

 

CONCLUSÃO

Descrevemos os ECGs como uma área fragmentada, fraturada por múltiplas linhas divisórias que de maneira geral reproduzem as divisões das ciências sociais. É importante enfatizar que não vemos essas divisões como demarcações claras de "campos" ou de posições fixas dentro dos ECGs. São apenas linhas definidoras de movimentos, discussões e alianças cambiantes que constituem o verdadeiro ângulo crítico dos ECGs, pois são essas polêmicas que permitem a dúvida, o questionamento e a reflexão que alimentam e sustentam a crítica. Também sugerimos que, assim como há questões substantivas em suspenso entre as diferentes posições dos ECGs, também é possível ver essas diferenças como coisas menos importantes do que aquelas entre os ECGs e a gestão não crítica. Seguramente, se é que vai haver algum futuro para os ECGs como "movimento" - qualquer que seja -, então seria mais importante criar alianças entre marxistas e pós-estruturalistas (para citar a principal divisão) do que degenerar em escaramuças recônditas acerca de diferenças.

Terminamos a seção prévia com o exame do significado político dos ECGs, e é a esse tópico que retornamos aqui. Nossa análise pintou os ECGs numa situação difícil. Para resumir: será que devemos conservar nossa crítica para nós mesmos e simplesmente saborear o prazer estético com que o ato de escrever criticamente pode nos regalar (ou sofrer em silêncio pela nossa inaptidão em fazer a diferença)? Ou devemos advogar a causa dos oprimidos com o risco de fazer maiores contribuições à sua dominação ao deixarmos que nossa crítica seja apropriada e traduzida em "conhecimento performativo"?

Nenhuma dessas alternativas parece particularmente atraente, nem compatível com o projeto emancipatório dos ECGs. Mas, até certo ponto, pode ser necessário para os ECGs simplesmente aceitar sua tensão irreconciliável, que, num certo sentido, é uma feição inevitável de todas as diligências políticas. Além disso, essa não é uma escolha que nós (escritores acadêmicos) temos o poder de fazer. Porque enquanto somos indulgentes ao debater essas questões, outras pessoas "lá fora" estão ocupadas em medir o gênero, as inovações, o poder, a cultura, etc., e articular essas novas contingências para a produção de maior lucro. E, pelo mesmo indício, há também muitas pessoas "lá fora" que se interessaram pelas condições de opressão, exclusão e dominação por muito mais tempo do que nós, e que expressaram suas inquietudes de forma mais incisiva. Aqui encontramos desde membros de sindicatos a feministas, movimentos de homossexuais, ativistas negros, e até gestores. Talvez tudo o que possamos fazer é nos assegurarmos de que essa dissonância, que a teoria de gestão na corrente majoritária tratou como irrelevante à analise das organizações ou como um conjunto de recursos e de restrições na busca da performatividade, seja ouvida pelos estudantes de gestão "não distorcida" pelo intento performativo (daí a importância particular da educação da gestão para os ECGs). Assim, para retornar a um ponto que antes já esclarecemos, devemos libertar a noção de engajamento da camisa-de-força na qual se enredou em debates que promoviam ou recusavam o diálogo com os gestores, e imaginar novamente o engajamento em termos de uma clientela organizacional maior.

Mas uma questão permanece em aberto: se esse projeto requer ou é compatível com a promulgação estudos críticos de gestão como um espaço ou um "lar" de onde as críticas possam ser formuladas e lançadas. Se a crítica está sempre em movimento, pode muito bem ser que tenha chegado a hora de partir do lar temporário que os ECGs lhe forneceram. Como já foi sugerido, o rótulo de "crítica", agora, parece ser usado ecleticamente para incluir o trabalho orientado tanto performativamente como desatentamente à teoria social sobre a qual os ECGs se fundamentam. Testemunhando a apropriação da "crítica" por formas tão extensivas que o seu sentido se torna indistinguível daquele que era antigamente o alvo da crítica, fica-se tentado a considerar morto o rótulo Estudo Críticos de Gestão. Porém, deixando os rótulos de lado, apesar de todas as dificuldades que a acompanham, não gostaríamos de desistir da crítica, como uma diligência proveitosa para a gestão.

 

NOTAS

1 Em 1996, a British Academy of Management Conference continha uma trilha crítica de gestão, repetida em 1999. Em 1998, a American Academy of Management Conference continha uma comissão de estudos críticos de gestão e um simpósio sobre educação crítica de gestão, também a ser repetido. Desde 1995, tem havido, por e-mail, uma rede de estudos críticos de gestão. Tem havido uma série de seminários do ESRC [Conselho de Pesquisa Econômica e Social], de dois anos, sobre educação crítica de gestão. Há pós-graduação em estudos críticos de gestão na Universidade de Lancaster, um curso de estudos críticos de gestão na Universidade Derby e outros programas com conteúdo crítico, se não o título. Temos conhecimento de pelo menos uma graduação de MPhil [Master of Philosophy] em vias de realização, sobre o fenômeno dos estudos críticos de gestão. Em 1999, a 1ª Conferencia de Estudos Críticos de Gestão realizou-se na Universidade de Manchester.

2 A elevação da gestão do status de uma técnica ao de um valor tem tido, há muito, um interesse central nos textos críticos, inspirados na tradição weberiana (como em Ritzer, 1996). Aí foi vista como um dos mecanismos por meio dos quais a racionalidade formal e a busca de soluções vieram a deslocar a racionalidade substantiva.

3 Como foi destacado por um dos avaliadores anônimos deste artigo, também é digno de nota que as escolas de Administração e de gestão no Reino Unido não somente foram integradas (fracamente) com as ciências sociais como também estiveram menos dependentes de patrocínios comerciais do que suas correlatas norte-americanas. Além disso, não houve o mesmo nível de intercâmbio entre acadêmicos de Administração, practitioners e elaboradores de políticas no Reino Unido como em outros países europeus.

4 Grande parte da literatura recente sobre Administração é extremamente "crítica" sobre a gestão; os gestores apressam-se a transformar-se, e dizem que nada menos do que uma revolução ocorrerá se eles quiserem estar em "organizações vencedoras" ou permanecerem na corrida pela excelência. Embora a declaração de uma crise na gestão e a defesa de uma "revolução" fosse parte de um negócio lucrativo para esses escritores/consultores, continua sendo verdade que simplesmente oferecer uma crítica da gestão em si não conquista um lugar no "campo" dos ECGs.

5 Dentro dessa espécie de debate, aqueles que assumem preliminarmente uma posição realista tendem a usar o termo pós-modernismo num sentido bastante amplo quando comparado com seus oponentes, que freqüentemente traçam uma distinção entre pós-modernista (Baudrillard, Lyotard, Kristeva) e pós-estruturalista (Foucault, Derrida).

6 Vale a pena ressaltar também que não são somente os ECGs, com seu engajamento no pós-modernismo, que induzem essas acusações. Até mesmo o realismo politicamente mais robusto da análise do processo de trabalho tem sido repetidamente criticado como obscuro e elitista, e um fracasso quanto a "fazer a diferença" (por exemplo, Jones, 1994).

7 Reconhecemos que traçar uma fronteira entre "gestores" e "gerenciados" é problemático não apenas porque os gestores também são gerenciados, e na última década estiveram cada vez mais sujeitos às mesmas formas de "gerenciamento do trabalho" que os "trabalhadores braçais" (redundância, intensificação do trabalho, etc.). Porém, queremos chamar a atenção para o fato de que o debate foi conduzido principalmente em termos de engajamento com "gestão" e tem obscurecido as formas de engajamento com outros grupos de interesse representados nas organizações.

 

Notas da Redação

* Anti-performative stance: trata-se de uma postura contrária à idéia de que a melhoria do desempenho é uma idéia-chave da gestão.

** "Managerialization" tem a conotação de se estenderem práticas da administração privada ou de empresas à gestão do setor público. No Brasil, tais práticas foram designadas como a adoção de práticas gerenciais do setor privado para a administração pública, em oposição ao sistema funcional burocrático que predomina na nossa administração direta.

*** O deus romano Jano tinha duas faces: uma voltada para a frente e outra para trás.

**** "Queer theory". A palavra inglesa "queer" traz à mente a idéia de homossexualidade. Dessa forma o termo "queer theory" surgiu como derivado de estudos sobre gênero, que por sua vez tiveram origem no pensamento feminista da segunda metade do século XX. Mais amplamente, "queer" significa "coxo", "torto", "fora das regras" ou simplesmente "desviante". Neste texto, pode significar uma das bases dos ECGs que, juntamente com as demais, se afastam das teorias predominantes no campo das chamadas também de mainstream.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACKER, J. Gendering organizational theory. In: MILLS, A.; Tancred, P. (Eds.). Gendering Organizational Analysis. London: Sage, 1992. p. 248-60.

ACKROYD, S. The quality of qualitative methods: qualitative or quality methodology for organization studies? Organization, v. 3, n. 3, p. 439-51, 1996.

AKTOUFF, O. Management and theories of organizations in the 1990s: toward a critical radical humanism. Academy of Management Review, v. 17, n. 3, p. 407-31, 1992.

ALVESSON, M.; DEETZ, S. Critical theory and postmodern approaches to organizational studies. In: CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Eds.). Handbook of Organization Studies. London: Sage, 1996. p. 191-217.

ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. (Eds.). Critical Management Studies. London: Sage, 1992a.

ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. On the idea of emancipation in management and organization studies. Academy of Management Review, v. 17, n. 3, p. 432-64, 1992b.

ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. Making Sense of Management: A Critical Introduction. London: Sage, 1996.

ANTHONY, P. The Foundations of Management. London: Tavistock, 1986.

ANTHONY, P. Management education: ethics versus morality. In: PARKER, M. (Eds.). Ethics and Organization. London: Sage, 1998. p. 269-81.

BEDWARD, D.; REXWORTHY, C. Assessing managerial competence. Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston, p. 9.5-9.6, 1996.

BERGER, P.; LUCKMANN, T. The Social Construction of Reality. London: Penguin, 1966.

BERNSTEIN, R. The Restructuring of Social and Political Theory. Oxford: Blackwell, 1976.

BOJE, D.; GEPHART, B.; THATCHENKERY, T. (Eds.). Postmodern Management and Organization Theory. London: Sage, 1996.

BURNHAM, J. The Managerial Revolution. London: Penguin, 1945.

BURRELL, G. Eco and the Bunnymen. In: HASSARD, J.; PARKER, M. (Eds.). Post-Modernism and Organizations. London: Sage, 1993. p. 71-82.

BURRELL, G. Normal science, paradigms, metaphors, discourses and genealogies of analysis. In: CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Eds.). Handbook of Organization Studies. London: Sage, 1996. p. 642-658.

CARTER, P. Writing the wrongs. Organization Studies, v. 16, n. 4, p. 573-5, 1995.

CLARKE, J.; NEWMAN, J. The right to manage: a second managerial revolution. Cultural Studies, v. 7, p. 427-41, 1993.

CLARKE, J.; NEWMAN, J. The Managerial State. London: Sage, 1997.

CLEGG, S.; DUNKERLEY, D. Critical Issues in Organizations. London: Roudedge, 1977.

CLEGG, S.; HARDY, C. Representations. In: CLEGG, S.; HARDY, C.; NORD, W. (Eds.). Handbook of Organization Studies. London: Sage, 1996. p. 676-708.

DAVIDSON, M.; COOPER, G. Shattering the Glass Ceiling - The Woman Manager. London: Chapman, 1992.

DEETZ, S.; MUMBY, D. Power, discourse, and the workplace: reclaiming the critical tradition. Communication Yearbook, v. 13, p. 18-47, 1990.

DONALDSON, L. For Positivist Organization Theory. London: Sage, 1996.

GAY, P. du; SALAMAN, G.; REES, B. The conduct of management and the management of conduct: contemporary managerial discourse and the constitution of the 'competent' manager. Journal of Management Studies, v. 33, n. 3, p. 263-82, 1996.

ENTEMAN, W. Managerialism: The Emergence of a New Ideology. Madison, WI: University of Wisconsin Press, 1993.

FOUCAULT, M. Discipline and Punish. Harmondsworth: Penguin, 1979.

FRENCH, R.; GREY, C. (Eds.). Rethinking Management Education. London: Sage, 1996.

GENNARD, J.; MCKIERNAN, P. Scottish undergraduate management education: a critical appraisal. Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston, p. 9.9, 1996.

GREY, C. Towards a critique of managerialism: the contribution of Simone Weil. Journal of Management Studies, v. 33, n. 5, p. 590-611, 1996a.

GREY, C. Critique and renewal in management education. Management Learning, v. 27, n. 1, p. 5-20, 1996b.

GREY, C.; MITEV, N. Management education: a polemic. Management Learning, v. 26, n. 1, p. 73-90, 1995.

HALFORD, S.; SAVAGE, M.; WITZ, A. Gender, Careers and Organizations. Basing stoke: Macmillan, 1997.

HASSARD, J.; PARKER, M. (Eds.). Postmodernism and Organizations. London: Sage, 1993.

JACKSON, N. To write, or not to write? Organization Studies, v. 16, n. 4, p. 571-3, 1995.

JONES, O. Subjectivity and the labour process: a critical examination of critical theory. University of Leicester Discussion Papers in Management Studies, v. 94, n. 1, 1994.

JOYCE, P.; WOODS, A. The arrival of postmodernist strategic thought. Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston, p. 9.43-9.45, 1996.

KAY, J. Plenary address to the British Academy of Management Conference, Lancaster University, 1994.

KIESER, A. Rhetoric and myth in management fashion. Organization, v. 4, n. 1, p. 49-74, 1997.

KNIGHTS, D. Hanging out the dirty washing: labour process theory in the age of deconstruction. Paper presented at the 13thLabour Process Conference, Blackpool, 1995.

KNIGHTS, D.; VURDUBAKIS, T. Foucault, power, resistance and all that. In: JERMIER, J.; KNIGHTS, D.; NORD, W. (Eds.). Resistance and power in organizations. London: Roudedge, 1994. p. 167-98.

KNIGHTS, D.; WILLMOTT, H. Power and subjectivity at work: from degradation to subjugation. Sociology, v. 23, n. 4, p. 535-58, 1989.

KOONTZ, H. The management theory jungle revisited. Academy of Management Review, v. 5, n. 2, p. 175-88, 1980.

KUHN, T. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago: University of Chicago Press, 1962.

LOCKE, R. Management and Higher Education since 1940. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.

LOCKE, R. The Collapse of the American Management Mystique. Oxford: Oxford University Press, 1996.

LYOTARD, J. F. The Postmodern Condition. Manchester: Manchester University Press, 1984.

MANT, A. The Rise and Fall of the British Manager. London: Macmillan, 1977.

MARGLIN, S. The origins and functions of hierarchy in capitalist production. In: NICHOLS, T. (Eds.). Capital and Labour: Studies in the Capitalist Labour Process. London: Fontana, 1974/1980. p. 237-54.

MILLS, C. W. The Power Elite. New York: Oxford University Press, 1956.

MORGAN, G.; SMIRCICH, L. The case for qualitative research. Academy of Management Review, v. 5, n. 3, p. 491-500, 1980

NORD, W.; JERMIER, J. Critical social sciences for managers? Promising and perverse possibilities. In: ALVESSON, M.; WILLMOTT, H. (Eds.). Critical Management Studies. London: Sage, 1992. p. 202-22.

OLIVER, N.; WILKINSON, B. The Japanization of British industry. New developments in the 1990s. Oxford: Blackwell, 1992.

PARKER, M. Postmodern organizations or postmodern organization theory. Organization Studies, v. 13, n. 1, p. 1-17, 1992.

PARKER, M. Critique in the name of what? Postmodernism and critical approaches to organization. Organization Studies, v. 16, n. 4, p. 553-64, 1995.

PARKER, M. Dividing organizations and multiplying identities. In: HETHERINGTON, K.; MUNRO, R. (Eds.). Ideas of Difference. Oxford: Blackwell, 1997. p. 114-38.

POLLARD, S. The genesis of Modern Management. London: Penguin, 1968.

POLLITT, C. Managerialism and the Public Services. Oxford: Blackwell, 1993.

REYNOLDS, M. Reflection and critical reflection in management learning. Management Learning, v. 29, n. 2, p. 183-200, 1997.

RITZER, G. The McDonaldization of Society. Thousand Oaks, CA: Pine Forge Press, 1996.

ROSE, N. Governing the Soul. London: Roudedge, 1989.

SKILLEN, A. Ruling Illusions: Philosophy and the Social Order. Hassocks: Harvester, 1977.

SMITH, A. The Wealth of Nations. London: Methuen, 1776/1904.

THOMAS, A. The coming crisis of western management education. Systems Practice, v. 10, n. 4, p. 681-702, 1997.

THOMPSON, P. Postmodernism - fatal distraction. In: HASSARD, J.; PARKER, M. (Eds.). Postmodernism and Organizations. London: Sage, 1993. p. 183-203.

THOMPSON, P.; ACKROYD, S. All quiet on the workplace front? A critique of recent trends in British Industrial Sociology. Sociology, v. 29, n. 4, p. 615-33, 1995.

TIETZE, S. Languages and management: a case of mutual neglect. Proceedings of British Academy of Management Annual Conference, Aston, p. 9.79-9.81, 1996.

WATSON, T. In Search of Management. London: Routledge, 1994.

WATSON, T. The labour of division: the manager as 'self' and other. In: HETHERINGTON, K.; MUNRO, R. (Eds.), Ideas of Difference. Oxford: Blackwell, 1997. p. 139-52.

WHITLEY, R. The fragmented state of management studies: reasons and consequences. Journal of Management Studies, v. 21, n. 3, p. 331-48, 1984.

WHITLEY, R.; THOMAS, A.; MARCEAU, J. Masters of Business: The Making of a New Elite. New York: Tavistock, 1981.

WILLMOTT, H. Strength is ignorance, freedom is slavery: managing culture in modern organizations. Journal of Management Studies, v. 30, n. 4, p. 515-52, 1993.

WILLMOTT, H. Bringing agency (back) into organizational analysis: responding to the crisis of (post)modernity. In: HASSARD, J.; PARKER, M. (Eds.). Towards a New Theory of Organizations. London: Roudedge, 1994a. p. 87-130.

WILLMOTT, H. Management education: provocations to a debate. Management Learning, v. 25, n. 1, p. 105-36, 1994b.

WILLMOTT, H. From bravermania to schizophrenia: the d(is/ec)eased condition of subjectivity in labour process theory. Paper presented at the 13th Labour Process Conference, Blackpool, 1995.

WINCH, P. The Idea of a Social Science. London: RKP, 1958.

WREN, D. The Evolution of Management Thought. New York: John Wiley, 1994.

 

 

Artigo convidado.
Aprovado em 03.02.2005.

 

 

Valérie Fournier
Professora da área de estudos organizacionais na Management Centre - University of Leicester.
Interesses de pesquisa nas áreas de economia e organizações alternativas que incluem: economia rural e desenvolvimento sustentável, formas alternativas de trocas e mercados, cooperativas e pedagogia crítica.
E-mail: vf18@le.ac.uk
Endereço: Management Centre, Ken Edwards Building, University of Leicester, University Road, Leicester - UK, LE1 7RH.
Chris Grey
Professor de teoria das organizações na Judge Institute of Management Studies - Cambridge University.
Interesses de pesquisa nas áreas de estudos críticos de gestão - especialmente pós-estruturalismo e pesquisa qualitativa -, aprendizagem e conhecimento em gestão, história da administração, gestão e política.
Email: c.grey@jbs.cam.ac.uk
Endereço: Judge Business School, University of Cambridge, Trumpington Street, Cambridge - UK, CB2 1AG.

 

 

 

Artigo originalmente publicado com o título "At the critical moment: Conditions and prospects for critical management studies", de Valérie Fournier e Chris Grey, na Human Relations, v. 53, n. 1, p. 7-32, 2000. Publicado com autorização da Sage Publications Ltd. Copyright The Tavistock Institute, 2006 & SAGE Publications, 2006. www.sagepublications.com