ARTIGOS

 

Apresentação

 

 

Jorge Ferreira da Silva

PUC-RJ E-mail: shopshop@iag.puc-rio.br

 

 

Shakespeare (1564-1616) escreveu que "advantage is a better soldier than rashness", intuindo o conceito central de administração estratégica muito antes de Chandler publicar, em 1962, o pioneiro trabalho Strategy and Structure: Chapters in the History of the American Industrial Enterprise".

É possível imaginar Hamlet iniciando um solilóquio com o crânio de Yorick nas mãos e, esquecendo a morbidez original, adaptar o famoso "to be or not to be" às duas modernas alternativas epistemológicas da administração estratégica. A primeira, de perspectiva newtoniana mecanicista, formada por teorias autônomas e disciplinares, fornecedora de modelos conceituais prescritivos, utilizados para explicar as variações em estratégia e desempenho de forma discreta, causal. Yorick teria dificuldade para entender uma sopa de letras de tal proporção: SCP - structure-conduct-performance; o SSP - strategy-structure-performance; e a RBV - resource-based view. A segunda, orgânica, de natureza descritiva, inspirada nas ciências naturais e sociais, preocupada com modelos e idéias evolucionários, com o reconhecimento da reciprocidade das relações entre estratégia e outros construtos, e com a pesquisa integrativa. Tudo tão complicado que também atrapalharia Yorick

Então, de volta do futuro, Churchill (1874-1965) apareceria, no estilo dos bombardeiros alemães surgindo nos céus da velha Albion, e, no meio da tragédia de Hamlet, declararia que "we shape our environments, then our environments shape us", comentando que o estágio atual das pesquisas mostra que a perspectiva mecanicista unificou-se em uma base epistemologicamente coerente, mas vem se desalinhando gradualmente de seu contexto discreto e direcional, enquanto a orgânica tem melhorado o alinhamento externo, mas ainda não consegue unificar sua abordagem, construída sobre o entendimento do incessante, interativo e integrado. Yorick, então, talvez se desintegrasse.

Abrindo mão da abordagem shakespeariana das fraquezas humanas e desconsiderando que as opiniões e atitudes apresentam uma inércia e uma impenetrabilidade extraordinárias aos fatos, a realidade é que esta edição da RAE, suprida por uma seleção de oito entre os 758 trabalhos submetidos ao III Encontro de Estudos em Estratégia (III3Es), realizado em São Paulo de 9 a 11 de maio de 2007, demonstra que o dilema revisitado de Hamlet pode estar longe de ser resolvido, mas muita pesquisa, de excelente nível, está contribuindo para a solução das controvérsias e ambigüidades da área de estratégia, definitivamente uma estrela na pesquisa em administração no Brasil, seja na sua vertente clássica de Estratégia em Organizações, seja em Gestão Internacional ou em Empreendedorismo e Comportamento Empreendedor.

Nota-se, nas pesquisas teórico-empíricas reportadas nos artigos submetidos, a aplicação crescente de metodologia quantitativa de qualidade, elaborada a partir de sólidos construtos com base teórica no estado da arte e utilizando análise de dados de última geração. Observase, ainda, que os estudos de natureza qualitativa utilizaram abordagens avançadas e criativas, contribuindo para uma compreensão mais profunda dos fenômenos estratégicos. Sinais de amadurecimento da área, já pronta para vôos mais ousados e desafiantes.

O estudo de administração estratégica, pela óptica do processo, conteúdo ou contexto, objetiva um melhor entendimento da variação dos desempenhos das empresas, dos grupos estratégicos e das indústrias no espaço físico-temporal. Retratando a amplitude dessa linha de pesquisa, quatro entre os oito artigos focam diretamente o tema, destacando-se "O efeito país sobre o desempenho da firma: uma abordagem multinível", que mereceu o Prêmio 3Es - Edição 2007. A modelagem hierárquica com quatro níveis utilizada na pesquisa superou o clássico problema de violação de premissas enfrentado pelas metodologias comuns de análise, permitindo identificar a semelhança das importâncias relativas dos efeitos país, indústria e interação indústria-país, além da sua equivalência, quando considerada em conjunto, com a magnitude do efeito firma. O ranking de países com base na lucratividade das empresas é um resultado valioso, especialmente considerando a amplitude da amostra analisada, com mais de 83.641 observações e 10.927 firmas em 37 países e 224 indústrias em um período de dez anos.

No artigo "O coalinhamento entre as estratégias competitivas e colaborativas e desempenho de empresas", na mesma linha temática, é proposto e testado um modelo teórico capaz de descrever o ajuste entre as estratégias competitivas e colaborativas, sua reação conjunta aos impactos do ambiente e seus efeitos sobre o desempenho de empresas, tendo o paradigma SCP como pano de fundo. O uso de modelagem de equações estruturais permitiu demonstrar a importância do coalinhamento estratégico sobre o desempenho na indústria de seguros brasileira, selecionada como campo de teste para o modelo proposto.

Já na pesquisa relatada em "Impacto dos recursos da empresa na performance de inovação", a teoria da resource-based view of the firm é aplicada na elaboração de um modelo teórico para avaliação da relação dos recursos da empresa com o desempenho das inovações. Também aqui o uso de modelagem por equações estruturais para análise de dados de firmas de diversos setores econômicos do Brasil permite sugerir caminhos pelos quais os ativos e habilidades empresariais influenciam o desempenho das inovações nas organizações.

Fechando a seleção de estudos sobre desempenho e na vertente do empreendedorismo, "Formação de estratégia nas micro e pequenas empresas: um estudo no centrooeste mineiro" investiga o processo de construção de estratégias buscando a identificação de indicadores que diferenciem grupos de empresas em função do desempenho observado, dando uma relevante contribuição ao entendimento do universo das micro e pequenas empresas do Brasil, tão importantes para a economia e ainda não suficientemente estudadas na academia.

Os demais artigos, embora não focando diretamente o construto desempenho, são uma excelente amostra da diversidade da pesquisa em administração estratégica, que, oportunamente, tem detalhes da sua gênese explorados em "Cooperação interinstitucional no campo da pesquisa em estratégia". A partir de 765 artigos publicados nos eventos Anpad na área de Estratégia em Organizações no período de 2001 a 2006, observa-se uma rede de relações com estrutura small world de baixa densidade, alto coeficiente de agrupamento e pequena distância média entre instituições, com importantes implicações para a formação de capital social.

A teoria fica contemplada com o ensaio "Análise institucional de práticas formais de estratégia", que endereça a questão do processo de institucionalização das práticas formais de estratégia empresarial, destacando o planejamento estratégico, disseminado, a partir da década de 70 do século passado, como o modelo mais representativo da difusão e institucionalização desse tipo de prática organizacional.

Em "O discurso das fundações corporativas: caminhos de uma 'nova' filantropia?", analisa-se como as fundações constroem, discursivamente, sua relação com a empresa e a sociedade a partir do tema responsabilidade social. Com base no estudo de seis fundações, conclui-se que tais entidades, além de protagonistas na criação de valor social, desempenham um papel estratégico para as empresas, conforme a retórica da "nova" filantropia.

Por fim, e no domínio da Gestão Internacional, em "Orientação para o mercado externo: o refinamento de uma escala de mensuração", são apresentados os resultados de uma survey exploratória de corte transversal único, realizada em 617 empresas exportadoras brasileiras, para validar, no Brasil, uma escala de "orientação para o mercado externo". Utilizou-se a modelagem de equações estruturais para, a partir de duas escalas de referência, validar um novo modelo híbrido, combinando alguns indicadores originais e com melhor ajuste às práticas locais.

Pode-se dizer que nesta edição da RAE o único trabalho foi montar um buquê com as flores cultivadas pelos talentosos autores selecionados, provendo alguma liga para mantê-las em corpo único. O perfume ajudará a exorcizar o fantasma de Yorick.

Boa leitura!