RESENHA

 

Bem-estar e finanças: papel da indústria de seguros

 

 

Wesley Mendes-da-Silva

Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, Fundação Getulio Vargas, São Paulo – SP, Brasil, wesley.silva@fgv.br

 

 

INSURANCE & BEHAVIORAL ECONOMICS: IMPROVING DECISIONS IN THE MOST MISUNDERSTOOD INDUSTRY
De Howard C. Kunreuther; Mark V. Pauly; Stacey McMorrow. Cambridge: Cambridge University Press, 2013. 329 páginas.

 

Com alguma frequência, alguém tem me perguntado: "O que finanças têm com felicidade?". Na busca por apresentar respostas convincentes a questões e inquietações desse tipo, diversos centros de pesquisa pelo mundo têm dispensado esforços no entendimento das associações entre produtos financeiros e bem-estar, sobretudo em se tratando de seguros. Um forte movimento, de alcance internacional, induzido por organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas, tem recomendado que, no processo de inovação em produtos financeiros, o bem-estar das pessoas seja foco de atenção.

Em paralelo, não tem sido raro encontrar, no meio acadêmico, o argumento de que a expansão do conhecimento em Finanças depende da conexão de conhecimentos de diferentes campos, tais como Economia, Psicologia, Matemática, Informática e Sociologia. Nesse contexto, pesquisadores vinculados ao Risk Management and Decision Processes Center, da University of Pennsylvania, em meio a um esforço de publicação de uma série de trabalhos dedicados ao entendimento dos processos de decisão em situações de risco elevado, e.g. catástrofes naturais, publicaram recentemente este livro, focado na indústria de seguros. Com base em conceitos de behavioral economics, aponta-se a indústria de seguros como capaz de oferecer um portfólio de produtos com vistas a proporcionar ferramentas vitais ao gerenciamento de riscos.

O livro ganha relevância quando se observa que seguros ainda constituem aspecto pouco entendido pelos consumidores, reguladores e pelos próprios executivos dessa indústria, de tal forma a reduzir expressivamente a sua efetividade. A obra, de maneiraímpar, apresenta uma análise informativa da indústria de seguros, tal como hoje ela se apresenta, e quais seus caminhos futuros. Adicionalmente, os autores, utilizando insights de behavioral economics, lançam luzes sobre pontos pouco entendidos e, a partir de um caráter prescritivo, apontam caminhos para decisões mais racionais no uso de seguros, com vistas ao aumento do bem-estar individual e coletivo. Em que pese não fazer parte do escopo do livro, convém ressaltar que a obra deixa de apresentar aspectos que poderiam fazê-la mais interessante ao público. Entende-se, assim, que fornecer uma revisão de aspectos relativos aos fundamentos microeconômicos da decisão, bem como a apresentação de exercícios e objetivos explícitos de pesquisas na área de seguros, com base no arcabouço de behavioral economics, poderia atribuir valor adicional à obra. A relevância deste livro está essencialmente suportada por quatro aspectos: i) crescente demanda por abordagens de domínio conexo no campo de Finanças; ii) papel que a indústria de seguros pode exercer sobre o bem-estar das pessoas; iii) desconhecimento de aspectos importantes em relação ao comportamento dos indivíduos no processo de consumo desse tipo de produto financeiro; e, ainda, iv) pela probabilidade de ocorrência, bem como severidade, de riscos que futuramente podem se apresentar ao redor do mundo nos campos econômico, ambiental, geopolítico e social (e.g.: falência de sistemas financeiros, catástrofes naturais, redefinição da pirâmide etária, militarização do espaço, desemprego, desequilíbrios da distribuição de renda, entre outros), o que tem despertado o interesse de governos e empresas.

O conteúdo do livro inicia-se com exemplos de seguros com ênfase na prática, seguindo-se apontamentos a respeito das raízes do deficit de entendimento da indústria de seguros. Com base nisso, os autores apresentam os fundamentos econômicos clássicos que suportam a explicação da demanda e da oferta de seguros. Apoiando-se nesses modelos, os autores, na sequência, confrontam esse conteúdo com exemplos (do mundo real) de decisões de aquisição de seguros, o que possibilita elencar anomalias de comportamento. Em seguida, são discutidas situações nas quais os modelos de benchmark explicam razoavelmente a demanda (comportamento do consumidor) e a oferta de seguros (comportamento da firma ou do investidor).

Essas questões remetem os autores à discussão de ocasiões em que os modelos explicativos de comportamentos são frustrados pelos exemplos do mundo real, incluindo-se: informação imperfeita e moral hazard, seleção adversa, assimetria informacional entre as partes interessadas e, ainda, perdas correlacionadas. Na ocorrência de falha dos modelos apoiados em preceitos clássicos, naquilo que se refere às respostas apresentadas pelos consumidores e pelas firmas, o livro oferece, assim, o desenvolvimento de modelos alternativos com base em conhecimentos oriundos do campo de behavioral economics. Nessa linha de pensamento, o leitor encontra o detalhamento de um modelo de escolha, o qual caracteriza a demanda por seguros por meio com foco na relevância de objetivos e planos na tomada de decisão sob incerteza.

Isso é realizado pelos autores sem que eles ignorem exemplos de ocasiões nas quais se constatam anomalias do lado da demanda, sugerindo motivações para sua ocorrência. Em adição, de maneira a completar a discussão, os autores abordam o lado da oferta de seguros, isto é, verifica-se a análise dos comportamentos das seguradoras: na formação dos preços dos seguros, na cobertura oferecida aos segurados e, ainda, o papel que o mercado de capitais, incluindo-se as agências de classificação de risco (rating), desempenha nesse processo, apontando alterações nesse percurso.

Após ter exposto, de maneira prática e conceitual, os seguros, explorando os comportamentos dos consumidores e das empresas, os autores esforçam-se num exercício de apontar caminhos futuros e tendências para a indústria. São, a partir daí, abordadas respostas a questões ainda pendentes, tais como: Que informações poderiam ajudar o consumidor a decidir que tipo de cobertura ele estaria disposto a adquirir? Quais os passos que as empresas seguradoras podem perseguir para continuar a oferecer coberturas sob prêmios razoáveis, até mesmo depois de perdas extremas? Qual o papel que o setor público poderia desempenhar no encorajamento dos consumidores e/ou empresas, de modo a estimular comportamentos mais próximos dos modelos de benchmark mais relevantes?

Os autores desenvolvem, assim, um rol de informações e princípios com o fim de avaliar o papel que as seguradoras podem desempenhar com vistas à redução de riscos e oferecimento de recompensas na situação de ocorrência de perdas. Ainda nessa linha, são apontadas políticas para corrigir anomalias presentes nos comportamentos da demanda e da oferta, por meio do foco nas atitudes dos agentes envolvidos, identificando formas de estimular procedimentos que estejam alinhados com a promoção de seu próprio bem-estar, assim como da sociedade. Com base nesse conteúdo, os autores concentram-se nas estratégias de redução de risco. O leitor pode, então, encontrar um texto focado no interesse de proprietários de imóveis e no consumidor de seguro-saúde.

Conforme expoentes da indústria de seguros costumam assumir, para a maioria das pessoas, seguros constituem um mistério, e não uma solução, para problemas presentes em suas vidas. Simultaneamente, analisar como o mercado de seguros efetivamente funciona constitui um desafio merecedor de registro. Diante de opiniões como essa e do conteúdo disponibilizado nesta obra, de modo geral, a leitura é extremamente recomendável, pois o tópico de seguros, especialmente em economias menos desenvolvidas (caso do Brasil), é pouco discutido, pouco investigado e, por extensão, pouco conhecido. Por esses motivos, entendo que este livro é de explícito interesse de pesquisadores, pessoas de negócios e governos; e, por que não?, dos consumidores de seguros. Enfim, acho que esse livro pode ajudar as pessoas a responderàquela pergunta que constantemente me fazem: "O que finanças têm com felicidade?"