RESENHA

HISTORICAL TURN: EM BUSCA DE UM MARCO TEÓRICO CRÍTICO PARA ESTUDOS ORGANIZACIONAIS

Alessandra de Sá Mello da Costa1

1alessandra.costa@iag.puc-rio.br Doutora em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Administração – Rio de Janeiro – RJ, Brasil

ORGANIZATIONS IN TIME: History, Theory, Methods. Bucheli, Marcelo; Wadhwani, R. Daniel. (2014). Oxford: Oxford University Press, 2014, 338 pp.

Nos últimos anos, tem ocorrido uma adesão cada vez maior tanto às propostas de aprofundamento na articulação entre a perspectiva histórica e a área de Administração quanto a um novo posicionamento nessa relação a partir de um marco teórico crítico denominado virada histórica (historical turn). A ideia é buscar um maior envolvimento de pesquisadores com a perspectiva histórica para além de um engajamento superficial com o passado que apenas contemple estudos longitudinais e fontes históricas para testes e ilustrações de teorias, modelos e hipóteses originadas em contextos externos hegemônicos, como é o caso de grande parte das pesquisas que dominam hoje os Estudos Organizacionais.

No entanto, apesar da emergência de um contexto promissor para discussões, ainda são poucas as publicações que buscam sistematizar essa aproximação. É nesse sentido que o livro em questão adquire importância. Estruturado na forma de uma coleção de estudos, busca problematizar a temporalidade das organizações, assumindo que a aproximação entre as áreas não é recente, consensual nem óbvia. Assim, o argumento central da obra é propor reflexões acerca: (1) do que se entende por história; (2) de por que a história é importante para a compreensão dos gestores, das organizações e do mercado; e (3) de quais métodos e práticas históricas podem ser utilizados por pesquisadores organizacionais (ver capítulo 1).

A primeira parte do livro, "History and theory", propõe caminhos alternativos para superar diferenças epistemológicas (e seus pontos de tensão) entre a história e os Estudos Organizacionais. Assim, no capítulo 2, "History and organizations studies: a long-term view", Usdiken e Kipping buscam identificar e sistematizar o papel desempenhado pelo raciocínio histórico nos Estudos Organizacionais durante o século XX. A partir do olhar da academia norte-americana e europeia, os cinco momentos desse percurso permitem identificar movimentos de aproximação e afastamento entre as áreas até os dias de hoje. No capítulo 3, "History and organization theory: potential for a transdisciplinary convergence", Leblebici problematiza em que medida apresenta-se viável e/ou desejável a aproximação entre história e teoria organizacional e em que termos essa relação poderia se configurar. Ao analisar as similaridades e diferenças teóricas, epistemológicas e metodológicas entre as áreas, propõe uma abordagem transdisciplinar (legitimando diferentes formas de se estudar o mesmo fenômeno) em vez das recorrentes propostas de interdisciplinaridade. No capítulo 4, "Historical institutionalism", Suddaby, Foster e Mills discutem o papel da história nos estudos dos processos institucionais, chamando a atenção para uma inerente natureza histórica das instituições. Como desdobramento, assumem que a epistemologia histórica não só é compatível mas também crucial para um melhor entendimento de certos aspectos do institucionalismo, cunhando o termo Institucionalismo Histórico. No capítulo 5, "History and evolutionary theory", Lippmann e Aldrich sugerem que a teoria evolucionária (por meio de um modelo metateórico) pode ser especialmente útil para integrar a pesquisa histórica com as pesquisas organizacionais dominantes e suas tradicionais práticas, operando por meio de um processo heurístico de variação, seleção e retenção. E, no capítulo 6, "History and the cultural turn in organization studies", Rowlinson e Hassard defendem que os desafios epistêmicos apresentados por uma virada histórica requerem uma história desconstrucionista que - de uma perspectiva culturalista - considere as narrativas presentes nas configurações organizacionais como representações do passado sempre de maneira crítica e autorreflexiva.

A segunda parte, "Actors and markets", concentra os artigos que buscam entender como a lógica e o raciocínio histórico podem ajudar nas pesquisas organizacionais a partir dos seguintes pontos: (1) Como o tempo e a temporalidade enquadram e constrangem as ações dos atores organizacionais, do mercado e dos Estados?, (2) Como a identidade dos atores e suas motivações para agir são construídas pelas percepções de seu lugar (como agentes) no tempo histórico? e (3) Como pensar de forma mais crítica a partir do questionamento histórico de conceitos e ideias já estabelecidas? (ver capítulo 1).

Dessa forma, no capítulo 7, "Mining the past: historicizing organizational learning and change", Fear destaca a importância do uso da periodização histórica como uma ferramenta de pesquisa organizacional para sistematizar e contextualizar o comportamento organizacional em um percurso temporal. No capítulo 8, "Schumpeter's plea: historical reasoning in enterpreneurship theory and research", Wadhwani e Jones ressaltam a importância do uso da periodização do comportamento empreendedor com base no ambiente institucional para a revelação de como os processos de alocação de recursos têm sido diferentemente organizados ao longo do tempo. No capítulo 9, "Historicism and industry emergence: industry knowledge from pre-emergence to stylized fact", Kirsch, Moeen e Wadhwani analisam os antecedentes históricos das indústrias com o objetivo de entender em que medida desenvolvimentos anteriores dão forma a características industriais. Para os autores, o estudo desses antecedentes é uma oportunidade para entender as condições sob as quais novas tecnologias falham em serem comercializadas. E, no capítulo 10, "Thestate as a historical construct in organization studies", Bucheli e Kim destacam, de modo bastante original, o papel dos antecedentes do Estado em determinar como (e por que) ocorre o processo de conferir legitimidade às organizações dentro de suas fronteiras.

A terceira e última parte do livro, "Sources and methods", concentra os artigos que buscam entender o que é uma pesquisa histórica e quais são os seus métodos e práticas usuais no contexto das pesquisas organizacionais.

Assim, no capítulo 11, "Understanding historical methods in organization studies", Yates compara o método histórico com métodos qualitativos e quantitativos já utilizados na área de Estudos Organizacionais para destacar semelhanças e diferenças. A ideia defendida é a de que a pesquisa histórica não é apenas um tipo de pesquisa organizacional qualitativa, e contribui para explorar fenômenos históricos, clarear processos em um contexto histórico específico e melhor compreender processos de mudança em grandes períodos. No capítulo 12, "Historical sources and data", Lipartito aprofunda-se na discussão sobre dados e fontes com o objetivo de apresentar como os historiadores engajam-se em pesquisas para descobrir e organizar suas fontes; como usam essas fontes para construir argumentos históricos; e como estabelecem a credibilidade de suas pesquisas. O autor também faz uma breve discussão sobre arquivos, destacando sua estrutura, formas de acesso e diversidade de fontes. E, por fim, no capítulo 13, "Analyzing and interpreting historical sources: a basic methodology", Kipping, Wadhwani e Bucheli propõem - em um dos capítulos mais interessantes do livro - uma metodologia básica para Estudos Organizacionais usando fontes históricas, em particular para pesquisadores que desejam publicar pesquisas históricas em periódicos de gestão. A metodologia proposta contempla os elementos básicos da metodologia histórica combinando críticas interna e externa das fontes (buscando determinar a sua validade); triangulação de diferentes fontes; e interpretação hermenêutica (situando documentos analisados em seus contextos históricos).

Enfim, apesar de serem várias as formas possíveis de utilização da perspectiva histórica para interpretar o significado das ações organizacionais no tempo e no espaço, os 13 capítulos do livro nos mostram as potencialidades da pesquisa histórica e o valor de se reconhecer: (1) que o seu raciocínio surge de uma diferente tradição epistemológica e de pesquisa; (2) que o exame dessas especificidades contribui para um diálogo mais significativo e profundo sobre a incorporação da história nos estudos das organizações; e (3) que torna possível vincular criticamente pesquisadores organizacionais aos seus próprios contextos como agentes históricos de ação e de mudança.

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