Indicações Bibliográficas

Estudos pós-coloniais e diálogos interculturais

Marina Dantas de Figueiredo

Nos anos 1990, críticas pós-colonialistas que denunciavam a hegemonia da matriz colonial nas relações conhecimento/poder chegaram aos Estudos Organizacionais (EOs), anunciando o resgate de diferentes formas de pensar o fenômeno organizacional com base em compreensões interculturais e contextualizadas. Desde o surgimento da Administração como disciplina no século XX, práticas e discursos alinhados com epistemologias euro-americanas têm-se reproduzido no mundo todo, por meio do colonialismo e do capitalismo. De maneira sub-reptícia, modelos de gestão e processos organizacionais autóctones ou localmente forjados foram marginalizados e esquecidos. Apesar disso, diálogos interculturais que envolvam Norte-Sul/Oriente-Ocidente, para além das relações de poder verticalizadas que marcam a modernidade, são possíveis. Com base nessa visão, construída por leituras sobre multiculturalismo e estudos pós-coloniais, a professora Marina Dantas de Figueiredo (Unifor) indica as seguintes referências.

UNBECOMING MODERN: Colonialism, modernity, colonial modernities.

Saurabh Dube e Ishita

Banerjee-Dube (Editors.).

New Delhi: Esha Béteille, 2006. 257 p.

Da reunião de textos de autores do Sul da América e da Ásia, surge um livro que problematiza concepções unívocas e totalizantes sobre a modernidade a partir de seus próprios pressupostos, contidos na ideia de "modernidades coloniais". Ao pluralizar colonialidade e modernidade com um neologismo dúbio, que é portador tanto de possibilidades quanto de problemas epistemológicos, busca-se rever a história e indicar horizontes e perspectivas para os estudos pós-coloniais.

CORE-PERIPHERY RELATIONS AND ORGANIZATION STUDIES.

Robert Westwood; Garvin Jack; Fazard Khan e Michael Frenkel (Editors). London: Palgrave Macmillan, 2014. 272 p.

Em capítulos que combinam análises teóricas e contribuições empíricas, a coletânea tem por objetivo recuperar o caráter histórico da disciplina e da prática da gestão e, com isso, ressaltar a persistência do colonialismo nesse domínio. Uníssona entre os colaboradores é a afirmação de que conhecimentos indígenas sobre gestão e organização são fundamentais para desafiar as estruturas centro-periferia, relacionadas a análises do sistema-mundo e à teoria da dependência.

EPISTEMOLOGIAS DO SUL.

Boaventura de Souza Santos e Maria Paula Meneses (Orgs.). São Paulo: Cortez, 2010. 637 p.

O título do livro, que parece claro à primeira vista, pode ser reinterpretado quando se observa a origem 18 autores que colaboraram com a escrita de capítulos. A ideia de Sul Global ganha novas fronteiras quando pensadores da Europa, da América, da Ásia e da África se reúnem para pensar sobre colonialidade, tradição, geopolítica e lugar, a partir de contextos culturais e políticos específicos de produção de conhecimento.

EVERYDAY GEOGRAPHY OF THE GLOBAL SOUTH.

Jonathan Rigg. New York: Routledge, 2007. 264 p.

O livro parte do argumento de que viver na modernidade, sob a égide de governos e organizações, impõe padrões e ritmos à vida cotidiana. Mais do que isso, o mundo moderno condiciona estruturas e formas de agência que se tornam determinantes das relações entre as pessoas e com o ambiente. Daí surge o interesse em repensar a geografia do Sul Global a partir das práticas de indivíduos e comunidades.

STRANGE ENCOUNTERS: Embodied others in post-coloniality.

Sarah Ahmend. New York: Routledge, 2000. 212 p.

O livro analisa a construção do "estranho" em oposição ao sujeito ocidental típico a partir da perspectiva do feminismo pós-colonialista. Seu argumento rotaciona a questão da relação com o outro – usualmente centrada na ideia de alteridade, construída pela antropologia moderna –, e amplia o raio de entendimento para o outro-como-estranho (strangeness). Questões como migrações, multiculturalismo e globalização podem, então, ser entendidas a partir das diferenças políticas dos corpos.

marina.dantas@unifor.br

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