JOAO CLEOFAS DE OLIVEIRA

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Nome: CLEOFAS, João
Nome Completo: JOAO CLEOFAS DE OLIVEIRA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
CLEOFAS, JOÃO

CLEOFAS, João

*dep. fed. PE 1935-1937; const. 1946; dep. fed. PE 1946-1951; min. Agric. 1951-1954; dep. fed. PE 1954-1955, 1959-1963 e 1965-1967; sen. PE 1967-1975.

 

João Cleofas de Oliveira nasceu em Vitória de Santo Antão (PE) no dia 10 de setembro de 1899 (embora em seu registro conste a data de 22 do mesmo mês), filho de Augusto Teixeira de Oliveira e de Maria Florentina de Lemos Oliveira. Seu pai, proprietário de uma pequena usina de açúcar, tinha pouca instrução, mas sua mãe, apesar de origem modesta, chegara a ingressar na Faculdade de Direito de Recife, sem entretanto concluir o curso.

João Cleofas fez os primeiros estudos sob a orientação da mãe, concluindo o secundário como aluno interno do Colégio Porto Carrero, em Recife. Ingressou em seguida na Escola Livre de Engenharia de Pernambuco, única opção então existente no estado à Faculdade de Direito, transferindo-se depois para a Escola Politécnica do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), pela qual se diplomou em 1920.

Regressou então a sua cidade natal, onde seu pai morrera pouco antes de sua formatura. Ingressou na vida política e, graças ao apoio do presidente de Pernambuco, José Bezerra Cavalcanti, amigo de seu pai, elegeu-se prefeito de Vitória de Santo Antão, cargo que exerceu de maio de 1922 a novembro de 1925. Em sua gestão, implantou no município os serviços de abastecimento de água e de fornecimento de eletricidade.

Eleito deputado à Assembléia estadual para o período 1926-1928, elaborou nessa legislatura o projeto de regulamentação da profissão de engenheiro no estado que, aprovado, constituiu a primeira lei regulamentando essa profissão no país. Ao fim do mandato, afastou-se da política por divergir do novo presidente do estado, Estácio Coimbra, adversário dos líderes aos quais Cleofas era ligado (José Bezerra e Manuel Antônio Pereira Borba).

Embora sem participar diretamente dos acontecimentos, colaborou com a Revolução de 1930, arrecadando entre os simpatizantes da causa em Pernambuco recursos depois enviados aos revolucionários do Sul. Após a vitória do movimento, Carlos Lima Cavalcanti foi nomeado interventor federal em Pernambuco, e em janeiro de 1931, nomeou João Cleofas para a Secretaria de Agricultura, Indústria, Comércio, Viação e Obras Públicas do estado.

No início de 1932, a grande seca ocorrida no Nordeste assolou boa parte de Pernambuco. Em visita à região atingida, José Américo de Almeida, ministro da Viação e Obras Públicas, propôs a Cleofas o adiantamento de verbas federais para combater o flagelo, o que o secretário pernambucano recusou, considerando a medida insuficiente e defendendo a inclusão de seu estado na região atendida pelo programa de assistência especial do governo. Nesse sentido, tomou a iniciativa de emitir, em nome do governo de Pernambuco, uma nota que comunicava a inclusão do estado no Polígono das Secas. Embora não tivesse conhecimento prévio da nota, o interventor Lima Cavalcanti responsabilizou-se por ela, enfrentando a áspera reação do ministro José Américo, que julgou invadida a área de sua competência e se opôs à medida. Ainda assim, a decisão foi oficializada pouco depois.

Em sua gestão à frente da secretaria, Cleofas construiu, com recursos militares, o tronco rodoviário ligando Recife ao interior do estado (hoje a BR-316), e transferiu para o governo estadual a administração do porto de Recife. Criou a Comissão de Melhoramentos Municipais, com o fim de coordenar os investimentos nos municípios, e o serviço de perfuração de poços e açudes. Em apoio à atividade agrícola, fundou a Diretoria da Agricultura, o Serviço de Fruticultura e colaborou ativamente com os agricultores de cana-de-açúcar, algodão e mamona, instalando ainda as três primeiras estações experimentais para o cultivo do algodão de fibra longa no estado.

Em junho de 1934, um mês antes do fim dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte (ANC), deixou o cargo, por ter aderido à proposta defendida na Assembléia pela bancada pernambucana, que pleiteava a inelegibilidade dos interventores para os governos estaduais. Desse modo, embora a proposta pernambucana tenha sido derrotada, rompeu com Lima Cavalcanti, que pretendia permanecer no poder.

A partir de então, passou a articular-se com os dissidentes do Partido Social Democrático (PSD) de Pernambuco, controlado pelo interventor. Em outubro de 1934, esse grupo formou a Dissidência Pernambucana, pela qual Cleofas se elegeu deputado federal. Em seguida, a agremiação lançou a candidatura de João Alberto Lins de Barros ao governo do estado. Concorrendo nas eleições disputadas na Assembléia Legislativa estadual em 1935, João Alberto foi derrotado por Lima Cavalcanti.

Na Câmara Federal, João Cleofas participou da Comissão de Investigação Econômica e Social, e integrou a minoria parlamentar, liderada então por João Neves da Fontoura e Otávio Mangabeira. No início da campanha para a sucessão presidencial de 1937, contudo, apoiou a candidatura de José Américo de Almeida, patrocinada pelo presidente Getúlio Vargas.

Fechado o Congresso e interrompido o processo sucessório com o golpe que instituiu o Estado Novo (10/11/1937), Cleofas passou a dedicar-se à administração de seu engenho em Vitória de Santo Antão. Entre novembro e dezembro de 1943, participou do I Congresso Brasileiro de Economia, promovido no Distrito Federal pela Associação Comercial do Rio de Janeiro. No conclave, apresentou a tese “Organização da agricultura no Nordeste brasileiro”. Em 1944, ampliou seus negócios, adquirindo uma usina de açúcar.

Com o início do processo de dissolução do Estado Novo e de redemocratização do país, participou da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Presente à primeira reunião do diretório nacional de agremiação, realizada em 21 de abril de 1945, foi nomeado membro da comissão de orientação política que participou da elaboração dos estatutos do partido. Passou então a promover a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República. Nas eleições realizadas em dezembro de 1945, contudo, o brigadeiro foi derrotado pelo general Eurico Gaspar Dutra, candidato apoiado por Getúlio Vargas.

No mesmo pleito, Cleofas elegeu-se deputado federal na legenda da UDN, representando seu estado nos trabalhos da ANC, iniciados em 1946. Na Assembléia, foi um dos signatários dos dois documentos encaminhados à mesa por Otávio Mangabeira em junho, manifestando repúdio ao Estado Novo e exaltando as forças armadas pela deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945. Ambas as moções foram aprovadas pelo plenário.

Com a transformação da Assembléia em Congresso ordinário depois de promulgada a Constituição, permaneceu na Câmara até o final de seu mandato (31/1/1951). Em janeiro de 1948, foi o relator do projeto sobre a produção de açúcar e álcool no país, opinando por sua aprovação desde que fossem introduzidas modificações que estendessem o amparo oficial aos açúcares destinados à transformação em álcool anidro nas destilarias do Instituto do Açúcar e do Alcool, promovessem a exportação do açúcar “tipo usina” que excedesse o consumo nacional, e dessem maior amparo ao produtor, adiantando-lhe parte da receita enquanto não ocorresse a exportação.

Durante a legislatura, integrou ainda a Comissão Geral de Investigação Econômica e Financeira, tendo sido o relator da parte financeira, apresentando relatório intitulado Desorganização financeira do país. Participou também da Comissão de Finanças da Câmara, tendo sido o relator dos orçamentos do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério da Fazenda e do Ministério da Agricultura.

Presidente da seção pernambucana da UDN, candidatou-se em 1950 ao governo do estado, concorrendo com Agamenon Magalhães, candidato apresentado pelo Partido Social Democrático (PSD). No mesmo pleito, concorriam à eleição presidencial Getúlio Vargas, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Cristiano Machado pelo PSD e Eduardo Gomes pela UDN. Após conseguir o apoio do Partido Social Progressista (PSP), Vargas passou a desenvolver negociações com as seções estaduais da UDN e do PSD, prometendo colaborar com o candidato a governador do partido que lhe desse apoio. Embora preferisse compor com o PSD em Pernambuco, encontrou esse partido firmemente comprometido com Cristiano Machado, o que o levou a aliar-se à UDN. Apesar do apoio de Vargas, porém, Cleofas foi derrotado por Agamenon Magalhães.

Entretanto, havia se candidatado também à reeleição para a Câmara, obtendo novo mandato que não chegou a cumprir, já que Vargas, eleito presidente da República, nomeou-o ministro da Agricultura, retribuindo dessa forma o apoio que lhe dera a UDN pernambucana. Entretanto, o presidente nacional da UDN, Odilon Braga, afirmou que a nomeação de Cleofas para o ministério não envolvia nenhum compromisso do partido em colaborar com Vargas. No dia 31 de janeiro de 1951, o novo governo foi empossado, assumindo João Cleofas a pasta da Agricultura.

 

No ministério

No primeiro ano de sua gestão, Cleofas criou por decreto, em 25 de julho de 1951, a Comissão Nacional de Política Agrária (CNPA). João Gonçalves de Sousa, secretário-geral da comissão, traduzira um livro publicado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o problema da reforma agrária em várias partes do mundo, aqui intitulado A reforma agrária no Brasil e no mundo, com a finalidade de esboçar as diretrizes básicas para uma reforma agrária no Brasil. A partir dessas diretrizes gerais, a CNPA passou a elaborar projetos específicos, como os da Lei de acesso à Terra Própria, da Lei Geral de Imigração e da Lei de Parcelamento Rural. Entretanto, esses trabalhos foram interrompidos em decorrência de denúncias feitas por Carlos Lacerda, que afirmava ser a reforma agrária mero pretexto para Vargas reivindicar poderes excepcionais, movido por pretensões continuístas.

Em relação à política creditícia, Cleofas tomou desde o início diversas medidas relevantes: por decreto de 13 de agosto de 1951, transformou a Carteira de Crédito Cooperativo do Banco do Brasil em Banco Nacional de Crédito Cooperativo, aumentando assim o incentivo à cultura de subsistência desenvolvida por pequenos e médios produtores. Interessado em promover a mecanização no campo, instituiu o Fundo de Mecanização da Lavoura, sistema de créditos bancários rotativos implantado a partir de convênio entre o Ministério da Agricultura e o Banco do Brasil.

Por outro lado, foram ampliadas as operações da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil, sendo adotados novos títulos de crédito para facilitar o financiamento rural e implementado um sistema mais amplo de garantia de preços mínimos. Ainda no Banco do Brasil, foi criada a Carteira de Colonização, com o objetivo de apoiar a colonização por iniciativa particular.

Em 22 de novembro de 1951, o ministro tornou efetivo o decreto de 24 de outubro de 1945 que criava a Confederação Rural Brasileira, entidade de classe formada pela reunião das federações de associações rurais de todo o país (em janeiro de 1964, essa entidade deu lugar à Confederação Nacional de Agricultura). No mesmo sentido, Cleofas encorajou a criação de federações estaduais de agricultura e de associações rurais municipais — ao assumir o ministério, havia 31 destas associações, número que se elevava a 800 quando deixou o cargo.

Foi ainda em sua gestão que, no dia 22 de dezembro de 1952, foi criado o Instituto Brasileiro do Café (IBC), que passou a desempenhar as funções exercidas inicialmente pelo Departamento Nacional do Café e, a partir de 1946, pelo Departamento Econômico do Café. Em outubro de 1953 assinou, juntamente com todo o gabinete, a Lei nº 2.004, que instituiu o monopólio estatal do petróleo e resultou na criação da Petrobras no ano seguinte.

Em janeiro de 1954, a Lei nº 2.163 criou o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), órgão que revitalizou os núcleos de colonização existentes no país e determinou a criação de 14 novos núcleos. O INIC esteve, durante a maior parte de sua existência, entregue a políticos ligados ao Partido de Representação Popular (PRP), que congregava os remanescentes integralistas.

Cleofas procurou também implantar o Serviço Social Rural, iniciativa que, aprovada na Câmara, esbarrou no veto do Senado e só chegou a ser implementada durante o governo de João Café Filho. Entretanto, o Congresso aprovou a criação da Companhia de Seguros Agrícolas, proposta pela CNPA.

Preocupado em elevar a produção de trigo no país, Cleofas promoveu uma campanha de intensificação do cultivo desse cereal em cooperação com as secretarias de Agricultura dos estados produtores. Em conseqüência, a produção anual subiu de cem mil para um milhão de toneladas ao fim de sua gestão.

Nesse período, o ministério criou também estabelecimentos de ensino de práticas agrícolas em todo o país, e promoveu estudos para a instalação de uma rede nacional de silos e armazéns.

 

Sucessão estadual e sucessão federal (1954-1955)

Em fevereiro de 1954, no início do debate sobre o problema sucessório, Cleofas escreveu ao governador de Pernambuco, Etelvino Lins, afirmando que apoiaria o candidato do PSD ao governo do estado caso o partido aceitasse a chapa Juarez Távora-Juscelino Kubitschek para as eleições presidenciais, promovendo a “união nacional” proposta pelo próprio governador pernambucano. Nesse caso, a candidatura presidencial deixaria de ser essencialmente partidária, o que facilitaria as composições ao nível dos estados.

Em março, Cleofas tornou a discutir esse problema em almoço oferecido em Petrópolis pelo governador do estado do Rio de Janeiro, Ernâni do Amaral Peixoto, presidente nacional do PSD. Getúlio Vargas e Benedito Valadares, também presentes, participaram das conversações. Entretanto, a chapa Juarez-Juscelino não foi adiante.

Cleofas deixou o Ministério da Agricultura no dia 8 de junho de 1954, desincompatibilizando-se para concorrer ao governo de Pernambuco nas eleições de outubro daquele ano. Foi substituído interinamente por Osvaldo Aranha, e depois efetivamente por Apolônio Sales, que tomou posse no dia 28 de junho.

Reassumindo sua cadeira de deputado federal, iniciou a campanha como candidato da UDN ao governo pernambucano, concorrendo com o general Osvaldo Cordeiro de Farias, indicado pelo PSD. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), decidido a derrotar as forças pessedistas, formalizou um acordo com a UDN e endossou a candidatura de Cleofas, que recebeu ainda o apoio do deputado federal pernambucano Jarbas Maranhão, membro do diretório regional do PSD, que foi expulso do diretório devido a essa atitude.

Embora vitorioso em Recife, Cleofas foi derrotado no interior por Cordeiro de Farias, que venceu as eleições e assumiu o governo do estado em janeiro de 1955.

No mês de abril de 1955, em plena campanha para as eleições presidenciais de outubro, reuniram-se representantes do Partido Democrata Cristão (PDC), do Partido Libertador (PL), da UDN e da dissidência do PSD (os diretórios de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que se opunham à candidatura de Kubitschek, apoiada oficialmente pelo partido). No encontro, debateu-se o acordo entre Jânio Quadros, governador de São Paulo, e João Café Filho, no exercício da presidência da República, segundo o qual o governador paulista abriria mão de sua candidatura em prol de Juarez Távora caso pudesse indicar o candidato à vice-presidência e fosse assegurada a São Paulo maior participação no governo federal.

Ao fim de algumas reuniões, udenistas e líderes da dissidência do PSD decidiram recusar os termos dessa proposta e lançar a candidatura de Etelvino Lins, homologada na convenção nacional da UDN realizada em 28 de abril de 1955. Cleofas protestou contra essa indicação e, logo que Etelvino iniciou sua campanha, o Correio da Manhã publicou editorial (4/5/1955) em que Cleofas o acusava de permitir diversas modalidades de jogo no estado, explorando as taxas que dele advinham, excluídas do orçamento oficial, para fins eleitorais.

Em decorrência das objeções suscitadas por sua indicação, Etelvino acabou retirando sua candidatura no dia 22 de maio, e a UDN passou a apoiar Juarez Távora, já candidato pelo PDC. Nas eleições de outubro, Juarez foi derrotado por Juscelino Kubitschek, que assumiu a presidência da República em 31 de janeiro de 1956.

 

A união das oposições em Pernambuco (1957-1958)

Em 13 de novembro de 1957, João Cleofas, presidente da seção pernambucana da UDN, participou de um comício contrário às modificações introduzidas na legislação fiscal do estado pelo governador Cordeiro de Farias. As classes empresariais, descontentes, haviam promovido a paralisação das atividades industriais nos dias 9 e 13, recebendo o apoio dos sindicatos dos trabalhadores. Na manifestação do dia 13, participaram, além de Cleofas, o presidente do diretório estadual do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Antônio de Barros Carvalho, e o deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), Alexandre Barbosa Lima Sobrinho.

Essas lideranças estaduais, unidas em uma frente única de oposição, pronunciaram-se não só contra a nova política fiscal como também contra a violência policial registrada no final do governo de Cordeiro de Farias. A partir de então, articuram-se udenistas e a chamada Frente de Recife, composta por comunistas, socialistas e trabalhistas, em torno da candidatura ao governo do estado do usineiro Cid Sampaio, presidente do Centro das Indústrias de Pernambuco, em oposição à de Jarbas Maranhão, apoiado por Cordeiro e pelo PSD.

Cleofas trabalhou intensamente em favor de Cid Sampaio, promovendo reuniões com os representantes dos partidos oposicionistas para coordenar a resistência ao governo e o apoio ao candidato das oposições. Constituíram-se as Oposições Unidas de Pernambuco, congregando UDN, PTB, PSB, o Partido Social Progressista (PSP) e o Partido Trabalhista Nacional (PTN). Recebendo ainda o apoio do PCB, a candidatura de Cid Sampaio foi formalizada em uma ampla reunião realizada na casa de João Cleofas. Como resultado dessa campanha, Cid Sampaio conquistou expressiva vitória nas urnas em outubro de 1958, assumindo o governo de Pernambuco em janeiro do ano seguinte. Nas mesmas eleições, Cleofas elegeu-se deputado federal na legenda das Oposições Unidas.

Em 1961, integrou a delegação brasileira à XV Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Na ocasião, declarou que, para o Brasil, a meta prioritária da década deveria ser o incremento da atividade agrícola.

 

Outra vez candidato a governador

Novamente interessado em disputar o governo de Pernambuco, Cleofas candidatou-se às eleições de outubro de 1962, na legenda do Partido Republicano (PR), contando ainda com o apoio da UDN e de Cid Sampaio, que a essa altura haviam rompido com a Frente de Recife e com as Oposições Unidas de Pernambuco. Seu principal oponente era o prefeito de Recife, Miguel Arrais de Alencar, indicado pelo Partido Social Trabalhista (PST) e apoiado pelo PTB e pela dissidência do PSD liderada pelo deputado Paulo Guerra. O terceiro candidato era Armando Monteiro Filho, ministro da Agricultura no gabinete do primeiro-ministro Tancredo Neves, indicado pelo Partido Republicano Trabalhista (PRT).

O pleito de outubro de 1962 em Pernambuco foi cercado de um clima de radicalização política provocando reflexos no panorama nacional, marcado na época pela polarização das forças político-sociais.

Conforme foi mais tarde amplamente divulgado pela imprensa, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) teria canalizado dinheiro norte-americano para a campanha de Cleofas, tentando impedir a vitória de Arrais, que tinha o patrocínio das forças nacionalistas e de esquerda, inclusive os comunistas. Programas de ajuda dos EUA, como a Aliança para o Progresso e Alimentos para a Paz, também teriam contribuído, bem como empresas norte-americanas sediadas no Nordeste.

Segundo declarações posteriores de Lincoln Gordon, então embaixador dos EUA no Brasil, mais de cinco milhões de dólares foram destinados a ajudar os candidatos nas eleições de 1962, com a condição de que defendessem a participação do capital estrangeiro na economia brasileira e combatessem a reforma agrária. Em 5 de novembro de 1977, o Jornal do Brasil publicou notícia afirmando que, além de auxílio financeiro, Cleofas teria solicitado material de propaganda anticomunista ao governo norte-americano. Entretanto, Cleofas refutou as informações do jornal, negando ter pedido apoio financeiro aos EUA. Admitia contudo ter solicitado o material anticomunista, o qual, segundo ele, não chegou a tempo de ser utilizado.

Entretanto, a despeito da poderosa máquina eleitoral montada em favor de Cleofas, este foi derrotado por Arrais, que reuniu 264.499 votos contra 251.146. Enquanto Cleofas recebeu os votos do sertão pernambucano e das camadas urbanas médias e altas, Arrais foi sufragado pela população mais pobre da capital e por alguns núcleos interioranos de trabalhadores rurais.

Cleofas terminou seu mandato de deputado em janeiro de 1963. No mesmo ano, instaurou-se na Câmara uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para apurar se o IBAD e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS) haviam servido como agências de repasse das contribuições norte-americanas para a campanha eleitoral do ano anterior. Entretanto, a CPI não chegou a apresentar suas conclusões finais, pois foi dissolvida depois do movimento político-militar de 1964.

Em junho de 1965, em pleito extraordinário realizado para preencher uma vaga na bancada pernambucana, elegeu-se deputado federal na legenda da UDN, com mandato até janeiro de 1967. Ao longo de toda a sua permanência na Câmara, integrou a Comissão de Finanças e Orçamento e a Comissão de Agricultura e Política Rural. Com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional nº 2 (27/10/1965) e a posterior instauração do bipartidarismo, filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena), em cuja legenda se elegeu senador por Pernambuco no pleito de novembro de 1966, derrotando o oposicionista Armando Monteiro Filho, candidato pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Tomou posse no Senado em janeiro de 1967, integrando entre o início de seu mandato e 1969 as comissões de Finanças, de Indústria e Comércio, de Agricultura, de Economia, de Legislação sobre Energia Atômica, de Comunicações, de Obras Públicas, de Projetos do Executivo, de Estudos para Alienação e Concessão de Terras Públicas e Povoamento, e de Ajustes Internacionais.

Ao longo de 1969, o Congresso Nacional esteve em recesso em decorrência do Ato Institucional nº 5 (AI-5), promulgado pelo presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968. Nesse ano, Cleofas representou o Brasil na Assembléia Geral da Food and Agriculture Organization (FAO).

No reinício dos trabalhos legislativos, em março de 1970, Cleofas foi eleito presidente do Senado Federal, cargo que exerceu por um ano. Ainda em 1970, presidiu a comissão que, em julho, visitou o Nordeste a fim de examinar as providências cabíveis para socorrer as zonas afetadas pela seca.

Presidente do Senado num período em que a atividade parlamentar foi severamente limitada pelo endurecimento do regime, admitia que a Constituição de 1967 e as emendas de 1969 tivessem eliminado prerrogativas do Legislativo em favor do Executivo, fato que atribuía a uma tendência mundial e ao “processo revolucionário” em curso. Durante sua gestão, promoveu reformas nas instalações do Senado e proferiu quatro pronunciamentos reunidos na publicação Falando ao Senado e ao Congresso.

Ao deixar a presidência da Câmara Alta, em fevereiro de 1971, foi eleito presidente da Comissão de Finanças do Senado, cargo para o qual foi sucessivamente reconduzido até o final de seu mandato. Escolhido presidente da Comissão Mista de Orçamento Geral da União, exerceu essa função durante o período em que ela cabia a um membro do Senado. Foi também suplente da Comissão de Agricultura, em 1971 e no ano seguinte. Ainda em 1971, integrou a delegação brasileira à ONU.

Em junho de 1972, foi designado para integrar a delegação de parlamentares à primeira Conferência Continental da Reforma Agrária e Colonização da América Latina, realizada em Bogotá, tendo sido o relator-geral da posição brasileira.

Candidatou-se à reeleição para o Senado pela Arena de Pernambuco no pleito de novembro de 1974. Concorria com Marcos Freire, candidato do MDB, que em sua campanha manifestou forte oposição ao governo. Diante do sucesso crescente da pregação oposicionista, Cleofas procurou com ela identificar-se, declarando-se favorável à normalização política e à abolição do AI-5 e denunciando o desvio de incentivos fiscais destinados ao Nordeste em benefício de empresas multinacionais. Embora tenha afirmado que a candidatura de Marcos Freire era “revanchista e contestadora”, chegou a dizer em relação a seu adversário que “o que ele defende é o que eu defendo também”.

Ante a perspectiva, confirmada em seguida, de uma oposição eleitoral maciça ao regime, o que impossibilitava a vitória de Cleofas, os líderes arenistas de Pernambuco chegaram a pedir publicamente a retirada de sua candidatura à direção do partido. Os dirigentes do partido, porém, não atenderam a esse pedido, e Marcos Freire conseguiu uma expressiva vitória nas urnas.

Por ocasião das eleições indiretas ao governo de Pernambuco, para o período 1975-1979, Cleofas foi um dos líderes arenistas que apoiaram a candidatura de Marco Antônio Maciel. Embora estivessem certos de que essa indicação seria vitoriosa, o governo federal decidiu-se por José Francisco de Moura Cavalcanti.

Afastando-se da política, fixou residência no Rio de Janeiro, dedicando-se à atividade agrocanavieira no município fluminense de Campos, onde possuía uma fazenda.

Cleofas foi ainda diretor e vice-presidente da Confederação Rural Brasileira, além de presidente da Associação Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco.

Faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 17 de setembro de 1987.

Era casado com Maria Olenka Carneiro da Cunha, filha de Francisco Solano Carneiro da Cunha, deputado por Pernambuco à Assembléia Constituinte de 1934 e em seguida deputado federal até o golpe do Estado Novo.

Além de discursos, relatórios, pareceres e conferências, publicou Estudos da economia pernambucana (1933), A mecanização agrícola no Brasil (1954) e Reforma agrária no Brasil (1960).

Sílvia Pantoja

FONTES: BELEZA, N. Evolução; BEZERRA, G. Memórias; Boletim Min. Trab. (5/36); CAFÉ FILHO, J. Sindicato; CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Relação dos dep.; CAVALCANTI, P. Caso; CISNEIROS, A. Parlamentares; COHN, G. Petróleo; Congresso; COSTA, M. Cronologia; Diário do Congresso Nacional; CURRIC. BIOG.; Estado de S. Paulo (18/9/87); Folha de S. Paulo (28/8/77); Globo (18/9/87); Grande encic. Delta; GUERRA FILHO, R. Ministério; HIPÓLITO, L. Campanha; Jornal do Brasil (16/10/66, 5, 9/11/77 e 18/9/87); LEITE, A. História; LEITE, A. Páginas; MIN. GUERRA. Almanaque (1954); NABUCO, C. Vida; NÉRI, S. 16; Perfil (1972); Rev. Militar Brasileira; SALES, D. Razões; SENADO. Dados; SENADO. Dados biográficos; SENADO. Endereços; SENADO. Relação; SILVA, G. Constituinte; Veja (29/7/70, 4/9/74 e 23/9/87).

 

 

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