Alfredo Hélio Sirkis

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Nome: SIRKIS, Alfredo
Nome Completo: Alfredo Hélio Sirkis

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

SIRKIS, Alfredo

*dep. fed. RJ 2011-

 

Alfredo Hélio Sirkis nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 08 de dezembro de 1950, filho dos imigrantes judeus-poloneses Herman Syrkis e Liliana Syrkis. 

Estudou na British School of Rio de Janeiro, no Colégio Anglo Americano e no Colégio Andrews. Aprovado em segundo lugar no concurso de admissão para o Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp/UFRJ), nele iniciou o Clássico em 1967. Fez política estudantil nessa instituição escolar, atuando na coordenação do Grêmio Livre do Aplicação, representação discente não oficial, organizada para defender as posições dos alunos após o fechamento do Grêmio Odílio Costa Neto.   

Membro da diretoria da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro (AMES/RJ), Sirkis participou das manifestações populares contra a ditadura civil-militar de 1964. Esteve na Passeata dos Cem Mil, lembrada pela participação ativa da classe média carioca e o intenso protesto de artistas e intelectuais, que cruzaram a Avenida Rio Branco, uma das principais vias do centro do estado da Guanabara, em junho de 1968.

Com o cerco autoritário provocado pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), dedicou-se a reorganizar o movimento estudantil, que perdia espaços de manifestação. Integrou o Comando Secundarista (COSEC), organismo independente que procurou difundir o movimento nas diversas regiões da cidade, em contato com os grupos foquistas Núcleo Marxista Leninista (NML) e Dissidência da Dissidência (DDD), depois agregados ao Comando de Libertação Nacional (COLINA). Nessa intenção, saiu do CAp/UFRJ e matriculou-se, em começos de 1969, no primeiro ano científico do Colégio Estadual França Júnior, localizado no bairro da Penha. No mesmo ano, o COSEC seguiria o grupo militarista no “racha” acontecido durante o congresso de consolidação da recém-criada Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), organização político-militar que congregou, em um breve lapso de tempo, o COLINA e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

O grupo que se unira em julho de 1969, logo depois esteve alinhado na ação que resultou no roubo de um cofre contendo dois milhões e meio de dólares, em uma mansão do bairro de Santa Tereza, região central da cidade do Rio de Janeiro. O dinheiro supostamente pertencente ao ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, conhecido pelo epíteto do “rouba, mas faz”, serviria para alavancar a guerrilha rural. Para Jacob Gorender, o próprio êxito da “operação-cofre” precipitou a discussão interna na VAR-Palmares, dividida entre os que defendiam o trabalho organizativo das massas e os que priorizavam a ofensiva bélica, defendida no documento redigido por Landislau Dowbor, sob o nome clandestino de Jamil, intitulado O caminho da vanguarda.

Nessa conjuntura, a presença do antigo colega de Sirkis no CAp-UFRJ e no movimento secundarista, Carlos Minc, no grupo que apoiava a militarização da luta contra o regime militar, pesou na adesão da maioria dos militantes do COSEC às teses da nova VPR, na qual a liderança de destaque passou a ser Carlos Lamarca. Sobre esse episódio, o próprio Sirkis escreveu em suas memórias: “A nossa opção em ficar com o racha se baseou mais em questões subjetivas de simpatia, de admiração romântica pelo pessoal da pesada e da amizade pelo Minc, do que por qualquer outro critério político mais profundo”. Logo em seguida, utilizando o nome clandestino de Felipe, Alfredo Sirkis passou a fazer parte de ações da guerrilha urbana. 

A queda de muitos companheiros da esquerda armada e a intensificação da tortura, denunciada pela primeira vez na “Carta de Linhares”, documento relativo aos crimes cometidos na penitenciária da cidade de Juiz de Fora, levou a VPR à prática de sequestros como moeda de troca na libertação de presos políticos. O primeiro deles foi o do cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okushi, trocado por cinco prisioneiros, dentre os quais Chizuo Ozava, o Mário Japa, principal objetivo da operação, devido ao conhecimento detalhado que possuía sobre a área de treinamento para a guerrilha rural mantida pela organização no interior paulista.  

Em junho de 1970, durante a nona edição da Copa do Mundo de Futebol, no México, a Unidade de Combate Juarez de Brito (UC/JCB), instalada pela VPR na Guanabara, partiu para o sequestro do embaixador Ehrenfried Von Holleben, representante da República Federativa da Alemanha (RFA). A operação foi apoiada pela Aliança Libertadora Nacional (ALN), que disponibilizou dinheiro, armas e recursos humanos para o comando da ação, que ficou a cargo de Eduardo Collen Leite, o Bacuri. Alfredo Sirkis atuou no sequestro com a responsabilidade de intérprete, dialogando com o embaixador em inglês. O desfecho das negociações com o governo do presidente general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) levou à soltura de quarenta presos políticos, que partiram do Brasil em exílio, metade deles da própria VPR, os demais pertencentes ao Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), Frente de Libertação Nacional (FLN) e ALN.

Apesar da repercussão internacional gerada pelas denúncias de torturas praticadas nas delegacias e centros de reclusão do regime militar brasileiro, o segundo semestre de 1970 foi marcado pelo duro combate dos órgãos de repressão aos revolucionários de esquerda. Para furar o cerco imposto às organizações mais combatentes, a VPR planejou um novo sequestro, desta vez do embaixador suíço Giovanni Enrico Burcher. O diplomata ficou quarenta dias ocultado em uma casa da rua Tacaratu, no bairro de Rocha Miranda, na cidade do Rio de Janeiro, até o término das negociações, que permitiram a soltura de setenta presos políticos, o maior número de libertações de toda a história do período ditatorial.

A ação foi executada no dia 07 de dezembro, dela participando Carlos Lamarca, que há pouco havia escapado ao cerco do Vale do Ribeira (SP), onde desenvolvia o trabalho de estímulo à guerrilha rural. Nela, Sirkis atuaria novamente como intérprete, o que não ocorreu na prática, pois o diplomata era fluente em língua portuguesa. No comunicado em que o grupo guerrilheiro assumia a autoria do ato, exigia-se do governo, além da liberdade dos companheiros presos, a veiculação nos principais meios de comunicação de um manifesto da VPR, a ser lido de quatro em quatro horas, e a passagem gratuita nos trens da Central, Leopoldina e Linha Auxiliar. Essas últimas exigências foram imediatamente descartadas, concentrando-se a Presidência da República na lista dos setenta nomes. No relato das discussões ocorridas no aparelho em que estava o embaixador suíço, encontrado em seu livro de memórias, Sirkis afirma que se posicionou pela prioridade à lista, que devido à correlação de forças existentes, importava muito mais do que qualquer embate mais aprofundado com a ditadura.

O silêncio do governo Médici e a busca incessante do local em que estava Giovanni Burcher levaram os participantes da ação a recuar das demais exigências, aceitando dar os nomes dos presos políticos a serem trocados. A primeira lista foi entregue em cópias destinadas à Agência France Press e aos principais órgãos da imprensa carioca. A reação do ministro da Justiça Alfredo Buzaid foi negar a autenticidade do documento, que seguiu com o carimbo vermelho da VPR e uma carta do embaixador, exigindo que a lista fosse entregue diretamente ao ministério. Após a chegada dos nomes aos canais competentes, passados dias, uma nota oficial do Ministério da Justiça afirmou que o governo estava disposto à troca, mas que dezoito prisioneiros listados não poderiam ser objeto dela, por terem praticado sequestro, por estarem condenados a penas elevadas, por não desejarem sair do território nacional ou por não estarem presos.

A dificuldade nas negociações levantou a hipótese do assassinato do embaixador suíço. Foi entregue um ultimato ao governo Médici, que afirmava caso não fossem libertados os setenta presos pedidos, este seria executado pelo grupo sequestrador. O documento não veio a público, deixando o assunto para depois do réveillon de 1971. Em meio à tensão provocada pela demora na decisão do caso, os participantes do sequestro dividiram-se na decisão de liquidar Burcher. Nos debates internos do aparelho de Rocha Miranda, narra Sirkis em Os Carbonários, ele e Lamarca teriam marcado posição pela preservação da vida do diplomata. Naquele momento, a repressão havia se voltado ferozmente contra a organização à qual pertenciam, restando-lhe poucos sobreviventes. Segundo Sirkis, era a hora de um balanço sério, pois: “A polêmica sobre o ‘transferir’ (matar) ou não do embaixador da Suíça tinha aberto caminho a uma outra mais profunda, que ia questionando a essência da nossa prática, desde a reorganização da VPR, em fins de 1969”. Dias depois, chegou-se ao consenso final dos libertados, após muitas recusas da ditadura, que levaram à substituição de vários nomes originalmente pleiteados, sem reduzir o quantitativo da lista. Os militantes das organizações de esquerda seguiram para o Chile, enquanto Giovanni Enrico Burcher foi solto na manhã de 16 de janeiro de 1971, próximo a Igreja da Penha.

Encerrada a operação-sequestro, ainda na clandestinidade, Sirkis viu-se desiludido quanto às perspectivas de luta da esquerda armada. Solicitou o desligamento da VPR, aceito por Lamarca sem grandes dificuldades. Deixou o Brasil de forma legal, visto que perante os órgãos de segurança somente existiam registros de suas atividades políticas dos tempos do movimento estudantil.  Em 1971, partiu em direção a um exílio de oito anos e meio. Seguiu rumo a Buenos Aires e Santiago, com destino a Paris. Na capital francesa, em contato com a intelectualidade de esquerda liderada por Jean Paul Sartre, atuou como jornalista no Liberátion. Após breve período em Estocolmo, quando foi estivador no porto da cidade, seguiu para o Chile como correspondente do jornal francês.

Responsável pela cobertura do governo Salvador Allende, devido à insegurança provocada pelo golpe direitista de 11 de setembro de 1973, refugiou-se em Buenos Aires, ainda escrevendo para a folha dirigida por Sartre, além de iniciar a colaboração com o Le Monde Diplomatique.

Retornou à Europa em agosto de 1974, fixando residência em Lisboa logo após a Revolução dos Cravos; movimento democrático que derrubou o salazarismo. Foi redator-chefe da edição portuguesa da revista Cadernos do Terceiro Mundo e editor internacional do jornal Página Um. Colaborou também com os jornais portugueses Diário Popular, Diário de Lisboa, A Luta e República; além de escrever para os semanários A Gazeta da Semana e Expresso. Estreou como escritor em 1977, ao lançar A guerra da Argentina, ensaio histórico-político sobre a falência da democracia naquele país, em função do golpe militar que derrubou Isabelita Perón, em 1976. Em seguida, assinou Chile/Setembro, relato jornalístico dos acontecimentos que cercaram a derrocada de Salvador Allende.

Devido ao processo de abertura política, Alfredo Sirkis voltou ao Brasil em 1979, após a promulgação da Lei da Anistia. No regresso ao país, publicou a autobiografia política Os Carbonários, em que narrou a sua experiência no movimento estudantil e na luta armada contra a ditadura. O livro foi agraciado com o prêmio Jabuti de 1981, na categoria memórias.

Na década de 1980, atuou na área de comunicação como repórter da revista Veja, como roteirista de TV da Rede Globo e roteirista de cinema da Embrafilme. Foi ativista do movimento Diretas Já (1983-1984), que reivindicava a aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira, favorável ao pronto reestabelecimento do sufrágio popular nas eleições para presidente da República.

Esteve entre os fundadores do Partido Verde (PV), em 1986, atuando como secretário-geral da agremiação, pela qual foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro, nas eleições municipais de 1988, com 43 mil votos. Na vereança, aprovou o tombamento do Bosque da Freguesia, em Jacarepaguá, e a lei de sinalização ecológica. Foi responsável também pela criação da Área de Proteção Ambiental (APA) da Prainha e a redação do capítulo de Meio Ambiente da Lei Orgânica Municipal. Em 1991, assumiu a presidência nacional do PV. No último ano de mandato aprovou a Lei Sirkis, de incentivos fiscais para projetos eco-culturais, que viabilizou, entre outras inciativas, o Fórum Global, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92.

Organizou a Secretaria de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro, na primeira gestão do prefeito César Maia (1993-1997). Como primeiro titular da secretaria, criou o Conselho Municipal de Meio Ambiente, o Fundo Municipal de Recuperação Ambiental, o Conselho das Águas da Baixada de Jacarepaguá, o Grupo de Trabalho de Sistemas Cicloviários e o Grupo de Trabalho de Saneamento. O principal projeto da gestão Sirkis foi o Mutirão de Reflorestamento, apoiado pelo Programa Megacidades da Organização das Nações Unidas (ONU). O projeto foi levado a quarenta e sete comunidades, em um total de 660 hectares de área reflorestada. As áreas beneficiadas tiveram acesso a ações de coleta de lixo e saneamento básico. Por indicação do secretário foram construídas, ainda, as ciclovias Mané Garrincha (Copacabana-Centro), Rubro Negra (Gávea-Leblon-Lagoa), João Saldanha (Ipanema-Copacabana), Marechal Rondon (Copacabana) e Ayrton Senna (Barra da Tijuca), todas no âmbito do Projeto Ciclovias Cariocas, responsável pela finalização de oitenta quilômetros de rede cicloviária urbana e pela instalação de quinhentos bicicletários.

 À frente da Secretaria de Meio Ambiente, Sirkis aprovou a criação das APAs do Leme e da Babilônia e implantou novas unidades de conservação no Bosque da Freguesia (Jacarepaguá) e no Parque Marcelo de Ipanema (Ilha do Governador).  Reformou o equipamento urbano do Parque Guinle e das APAs da Prainha e Grumari.  Reflorestou os morros da Urca, da Formiga e a Pedra do Leme, em parceria com o Grupo de Ação Ecológica (GAE).  Para reprimir agressões ambientais e proteger unidades de conservação municipais, criou o Grupo de Defesa Ambiental (GDA) da Guarda Municipal. 

Deixou o cargo de secretário em abril de 1996. Candidatou-se novamente a vereador, na cidade do Rio de Janeiro, não obtendo votos suficientes para ingressar na Câmara, restando-lhe a primeira suplência. No ano seguinte, durante a administração Marcello Alencar, assumiu a secretaria-executiva da Fundação Onda Azul, ligada ao governo do estado do Rio de Janeiro. Foi candidato à presidência da República nas eleições de 1998, com a proposta de divulgar as ideias do PV. Em 1999, reassumiu o mandato de vereador na Câmara do Rio de Janeiro, em uma legislatura que aprovou a criação das APAs da Capoeira Grande e do Morro do Silvério, ambas na zona oeste. 

Disputou as eleições para prefeito da cidade do Rio de Janeiro, em 2000, na legenda do PV, recebendo 38.239 votos, que representaram 1,2% do eleitorado. Foi convidado pelo vencedor do pleito, César Maia, com que havia trabalhado anteriormente, para gerir a Secretaria Municipal de Urbanismo e presidir o Instituto Pereira Passos (IPP).

Em 2006, candidato do PV, concorreu a uma das vagas no Senado Federal pelo estado do Rio de Janeiro, sem lograr sucesso. Nas eleições municipais de 2008, coordenou a campanha de Fernando Gabeira à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e foi reeleito vereador.

No ano de 2010, Sirkis coordenou a campanha de Marina Silva à Presidência da República pelo PV e concorreu ao mandato de deputado federal pelo Rio de Janeiro, eleito com 72 mil votos. Na Câmara Federal, participou como titular da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, nela presidindo a subcomissão Rio + 20. Atuou também como vice-presidente da Comissão de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional. Foi um dos organizadores da conferência Rio Clima - The Rio Climate Challenge, evento paralelo ao Rio + 20, com a participação de representantes de 14 países.

Em 2013, o deputado empenhou-se no tema da reforma política, com uma proposta sobre a reforma do sistema de financiamento das campanhas eleitorais. Apoiou a organização da Rede Sustentabilidade, nova sigla partidária, encabeçada por Marina Silva. Deixou o PV e ingressou no Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Escreveu também os seguintes livros: Roleta chilena (1981), Corredor polonês (1983), Silicone XXI (1985), Verde carioca (1996), Ecologia urbana e poder local (1999), O efeito Marina (2011) e Megalópolis (2012).

 

Sérgio Montalvão

 

FONTES: ABREU, Alzira. Intelectuais e guerreiros; GORENDER, Jacob. Combate nas trevas; ROLLEMBERG, Denise. Exílio. Entre raízes e radares; SIRKIS, Alfredo, Os carbonários. Memórias da guerrilha perdida; Portal pessoal de Alfredo Sirkis. Disponível em: <http://www.sirkis.com.br>. Acesso em 01/10/2014

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