ARTHUR ERNST EWERT

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Nome: BERGER, Harry
Nome Completo: ARTHUR ERNST EWERT

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
BERGER, HARRY

BERGER, Harry

*mov. comunista; rev. 1935.

 

Arthur Ernst Ewert, que ficou conhecido no Brasil pelo pseudônimo de Harry Berger, nasceu na Prússia Oriental (então parte integrante da Alemanha e, a partir de 1945, dividida entre a URSS e a Polônia) em 1890.

Membro do Partido Comunista Alemão em 1921, em 1923, segundo o relatório do delegado Eurico Bellens Porto, foi eleito chefe do bureau político do partido. Segundo o historiador alemão Hermann Weber, naquele ano elegeu-se membro de seu comitê central, deixou o comitê no ano seguinte, e só tornou a integrá-lo em 1926.

Em 1928, na discussão do chamado “Caso Wittorf” (nome de um cunhado do secretário-geral do partido, Ernst Thälmann, acusado de corrupção), votou pelo afastamento de Thälmann. Este, contudo, foi mantido no cargo de secretário-geral com decidido apoio de Stalin, e Ewert viu sua posição no partido consideravelmente enfraquecida. Não obstante, segundo o delegado Bellens Porto, Ewert foi eleito membro do comitê executivo da Internacional Comunista no 6º congresso da organização, realizado ainda em 1928. Weber, por sua vez, conta que Ewert foi excluído do comitê central do Partido Comunista Alemão em 1929.

Em julho de 1931, Ewert participou de uma reunião do secretariado sul-americano da Internacional Comunista realizada em Montevidéu. No encontro, o representante brasileiro, Leôncio Basbaum, fez uma exposição sobre a situação do Partido Comunista Brasileiro, então denominado Partido Comunista do Brasil (PCB), e foi informado de que a presença do representante da Internacional na capital uruguaia se devia à intenção de convidar Luís Carlos Prestes a visitar Moscou. Desde então, Ewert e Prestes ficaram amigos.

Segundo José Nilo Tavares, a experiência internacional de Ewert incluía ainda a militância nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial e um período de atuação na China, onde inclusive teria escapado por pouco do fuzilamento.

Com a tomada do poder por Hitler em 1933, Ewert viu-se forçado a deixar a Alemanha, refugiando-se na União Soviética. Após um congresso latino-americano realizado em Moscou no final de 1934, a Internacional Comunista, baseando-se nas informações apresentadas no encontro pelo representante brasileiro, decidiu enviar Ewert ao Brasil com a missão de orientar a atuação do PCB no sentido de formar uma ampla frente de massas ligada à classe operária.

Desse modo, no dia 6 de março de 1935 Arthur Ernst Ewert chegou ao Brasil procedente de Buenos Aires, munido de um passaporte norte-americano que o identificava como Harry Berger, nascido em Nova Iorque no ano de 1892. Cinco dias mais tarde, chegava ao Brasil Elise (ou Elsa) Saborowski, sua esposa desde 1922, também protegida por um passaporte norte-americano em nome de Machla Lenczycki.

Através do Intelligence Service inglês, o ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares, e o chefe de polícia Filinto Müller tomaram conhecimento de sua presença no Brasil, não conseguindo contudo localizá-lo.

Em contato com os dirigentes do PCB e vivendo no país clandestinamente, Berger contribuiu para a formação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), fundada três semanas após sua chegada, no dia 30 de março de 1935.

Possuindo vários estudos sobre a situação brasileira e o papel da ANL, e usando o pseudônimo de Negro em sua correspondência, Berger enviou algumas cartas a dirigentes do PCB expondo suas opiniões. Acreditava que o país deveria caminhar inicialmente para a formação de um governo popular nacional revolucionário, que só mais tarde seria transformado em governo soviético dos operários e dos camponeses. A organização imediata de sovietes estreitaria a frente popular que se fazia necessária naquele momento.

Por essa sua perspectiva política de formação de uma “frente nacional-democrática”, Berger já fora criticado pelo próprio Stalin em uma assembléia do comitê central do Partido Comunista da União Soviética realizada em abril de 1929. Stalin afirmara que sua concepção era um “desvio de direita”.

A radicalização da ANL, contudo, modificou o curso dos planos traçados por Berger.

Seis dias após a divulgação, em 5 de julho de 1935, do manifesto em que Prestes pregava a insurreição, a ANL foi fechada por decreto do presidente Getúlio Vargas.

Reduzida a poucos membros dispostos a continuar a militância depois de ter chegado a ser uma vasta organização de massas, a ANL, atuando junto com o PCB na clandestinidade, passou a se preparar para depor Vargas pela força. Na cúpula de sua direção, figuravam Harry Berger, Prestes, Antônio Maciel Bonfim, conhecido como Miranda, secretário-geral do PCB, e o comunista argentino Rodolfo Ghioldi, que cumpria no Brasil o mesmo papel de Berger.

O movimento foi deflagrado em Natal no dia 23 de novembro de 1935, e ocupou o governo do Rio Grande do Norte por quatro dias. No dia 24, eclodiu em Pernambuco.

Na noite do dia 25, realizou-se no Rio uma reunião entre Berger, Prestes e Maciel Bonfim, em que se decidiu a deflagração do movimento armado nas unidades militares da capital do país na madrugada de 27 de novembro. Enquanto em Pernambuco a luta durou quatro dias, no Rio os levantes do 3º Regimento de Infantaria e da Escola de Aviação Militar foram sufocados ao cabo de algumas horas de combate.

No dia 26 de dezembro de 1935, Harry Berger foi preso, juntamente com sua esposa, na casa alugada que ocupava à rua Paul Red- fern nº 33, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Na casa, foram apreendidos também inúmeros documentos. No dia 28 de janeiro de 1936, foi detido o norte-americano Victor Allan Barron, também acusado de ser militante comunista internacional. Dois meses mais tarde, Barron morreu na prisão. Segundo o comunicado oficial, suicidou-se, mas o advogado norte-americano Joseph Brodsky, que esteve no Brasil apurando os fatos, retornou aos EUA afirmando que fora assassinado no cárcere.

No dia 2 de março de 1936, Berger e sua esposa, que haviam sido submetidos a intensas torturas, tiveram habeas-corpus impetrado em seu favor por Abel Chermont, senador pelo Pará. O recurso foi negado, mas Berger foi visitado na prisão pelo juiz Edgar Ribas Carneiro, que se fez acompanhar do senador Chermont. Berger, que não falava português, queixou-se, através de um intérprete, de torturas brutais. Em decorrência dessa iniciativa, o senador Chermont foi, por sua vez, preso ainda em março. No dia 5 de março, Luís Carlos Prestes fora capturado pela polícia, e desse modo era liquidado o comando da tentativa de insurreição.

Tal como a mulher de Prestes, Olga Benário, a esposa de Berger, Elise Saborowski, foi expulsa do país, no dia 25 de agosto de 1936. Deportada para a Alemanha, ficou presa em campo de concentração naquele país. Segundo Hermann Weber, morreu, doente, no segundo semestre de 1939. Segundo Joseph Levine, conseguiu escapar para a França antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Tomando a defesa de Berger como advogado de ofício designado pela Ordem dos Advogados do Brasil, Heráclito Fontoura Sobral Pinto travou no primeiro semestre de 1937 uma intensa luta com o então ministro da Justiça, Agamenon Magalhães, e com o chefe de polícia, o capitão Filinto Müller, para conseguir amenizar o tratamento que lhe vinha sendo dispensado na prisão. Sem luz, ar, cama ou cadeira, com um único macacão a lhe servir de roupa, Berger viveu, até meados de 1937, no socavão de uma escada que dava acesso ao pavimento superior do quartel da Polícia Especial.

Em março de 1937, o advogado norte-americano David Levinson, que estivera no Brasil no ano anterior tentando em vão assumir a defesa de Berger e Prestes, dizendo-se representante da Cruz Vermelha Internacional, denunciou perante um comitê de defesa do povo brasileiro, em Nova Iorque, as condições precárias a que estavam submetidos os presos políticos no país.

Quando José Carlos de Macedo Soares assumiu a pasta da Justiça (3/6/1937), Berger foi transferido para a Casa de Correção e o tratamento melhorou. Entretanto, quando Macedo Soares foi substituído por Francisco Campos no final do ano, após o golpe que deu início ao Estado Novo, as condições de sua detenção tornaram a piorar.

Julgado no dia 7 de maio de 1937 pelo Tribunal de Segurança Nacional, Berger foi condenado a 16 anos de prisão. Em 13 de setembro, o Superior — então Supremo — Tribunal Militar (STM), confirmou a sentença. Em seu depoimento perante o STM, prestado no dia 7 de setembro, declarou-se francamente comunista e não negou a missão que o trouxera ao Brasil. Declarou ainda que não tinha a menor esperança de vir a ser solto, e que ali estava apenas para dizer alguma coisa e afiançar que nem tudo estava terminado.

Anistiado em 1945, Arthur Ewert saiu completamente louco da prisão, devido aos maus- tratos sofridos. O PCB, então na legalidade, providenciou sua internação em uma casa de saúde do Rio de Janeiro.

Em 1946, a pedido de Prestes, Ewert deixou o país em um navio soviético que viera ao Brasil trazendo cientistas para estudos durante um eclipse solar. Foi levado para a zona de ocupação soviética na Alemanha.

Morreu na República Democrática Alemã, sem ter recuperado a razão, no ano de 1959.

Amélia Coutinho

 

FONTES: ARQ. GETÚLIO VARGAS; CARNEIRO, G. História; CARONE, E. República nova; CHACON, V. História; DULLES, J. Anarquistas; LEVINE, R. Vargas; PINTO, H. Porque; PORTO, E. Insurreição; SILVA, H. 1935; SILVA, H. 1937; TAVARES, J. Radicalização; WEBER, H. Rosa.

 

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