JOSE ERMIRIO DE MORAIS

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Nome: MORAIS, Ermírio de
Nome Completo: JOSE ERMIRIO DE MORAIS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MORAIS, ERMÍRIO DE

MORAIS, Ermírio de

*min. Agric. 1963; sen. PE 1963-1971.

 

José Ermírio de Morais nasceu em Nazaré da Mata (PE) no dia 21 de janeiro de 1900, filho de Ermírio Barroso de Morais e de Francisca Jesuína Pessoa de Albuquerque Morais, senhores de engenho descendentes da aristocracia rural nordestina. Tendo-lhe o pai falecido após seu nascimento, a mãe assumiu a direção dos dois engenhos da família, em um dos quais, o engenho Santo Antônio, próximo de Upatinga (PE), passou a infância.

Cumpriu os primeiros estudos na escola primária de Upatinga, transferindo-se depois para a capital do estado, onde cursou humanidades no Colégio Alemão e no Ginásio de Recife. Após concluir esse curso, seguiu em 1916 para os Estados Unidos, ingressando na Colorado School of Mines, em Golden, no estado de Colorado. Nos EUA, ainda como estudante, trabalhou em diversas empresas a fim de garantir sua manutenção, desobrigando assim sua mãe desse encargo.

Graduou-se engenheiro de minas em 1921 e regressou então ao Brasil. Decidido a exercer sua profissão, recusou-se a assumir a gerência dos engenhos da família e transferiu-se para Minas Gerais, onde foi admitido como engenheiro de minas pela Secretaria de Agricultura daquele estado, cargo no qual permaneceu por um ano. Em 1922, ingressou na St. John del Rey Mining Co., empresa que explorava a mina de ouro de Morro Velho e à qual prestou seus serviços durante cerca de um ano.

Em junho de 1923, retornou a seu estado natal para assumir a gerência da Usina Aliança, de propriedade de seu cunhado, a qual passava então por grave crise econômico-financeira. Com o intuito de dar novo impulso ao empreendimento, realizou no ano seguinte, em companhia do cunhado, uma viagem à Europa visando à aquisição de novos equipamentos. Na Suíça, conheceu o industrial Antônio Pereira Inácio, imigrante português que, desde 1918, assumira no Brasil o controle da fábrica de tecidos Votorantim, instalada no município de mesmo nome, nas proximidades de Sorocaba (SP), e que ali se encontrava acompanhado de sua mulher e única filha, Helena. Ermírio de Morais aceitou o convite feito pelo industrial para trabalhar em sua empresa quando retornasse ao Brasil. Casou-se com Helena e em maio de 1925 assumiu a diretoria da Sociedade Anônima Votorantim, conquistando gradualmente participação de relevo na administração da empresa.

 

Líder empresarial

Ermírio de Morais iniciou suas atividades como líder empresarial ocupando cargos de direção no Centro das Indústrias de Fiação e Tecelagem de São Paulo. Em março de 1928, juntamente com outros industriais paulistas, fundou o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), integrando sua primeira diretoria ao lado de Francisco Matarazzo (presidente), Roberto Simonsen (vice-presidente), Jorge Street, Horácio Lafer, Antônio Devisate e outros. Essa diretoria foi empossada pelo então presidente do estado, Júlio Prestes.

A partir daquele ano e, mais intensamente, de 1929, o CIESP passou a manifestar-se na campanha para a sucessão presidencial a ser disputada em março de 1930. As associações patronais de classe de São Paulo deliberaram em reunião apoiar a chapa situacionista formada por Júlio Prestes e Vital Soares, candidatos, respectivamente, à presidência e à vice-presidência da República, visando com isso assegurar a continuidade da política financeira do presidente Washington Luís (1926-1930). Combatendo, portanto, o programa da Aliança Liberal, que promovia as candidaturas oposicionistas de Getúlio Vargas e de João Pessoa, o CIESP lançou, em agosto de 1929, um manifesto em que justificava sua posição. Apesar da vitória nas urnas da chapa apoiada pelo CIESP, no mês de outubro de 1930 irrompeu a revolução que colocou Vargas no poder.

Em julho de 1932, eclodiu em São Paulo a Revolução Constitucionalista, decorrente da intensificação do conflito entre as tradicionais lideranças paulistas e o Governo Provisório de Getúlio Vargas, representado naquele estado por elementos identificados com o tenentismo. Ermírio de Morais, como a grande maioria dos industriais paulistas, participou ativamente do movimento, atuando no setor da produção bélica e da propaganda, mobilizando os representantes da classe empresarial para que estes constituíssem o suporte da luta armada e exortando inúmeras vezes pelo rádio seus conterrâneos pernambucanos a aderirem à causa constitucionalista. A luta estendeu-se até 2 de outubro, quando, derrotados, os revoltosos assinaram um armistício com o governo federal.

Nos primeiros meses de 1933, já como superintendente da Votorantim, Ermírio de Morais começou a executar a estratégia de diversificação da empresa, iniciando a construção de sua primeira fábrica de cimento, que seria inaugurada em 1936. Ainda em 1933, passou também a interessar-se pelo óleo de semente de algodão, obtendo a patente para o fabrico de óleo desodorizado. Empenhou-se, ainda, na campanha de Horácio Lafer com vistas às eleições para a Assembléia Nacional Constituinte de 1934. Lafer elegeu-se como representante classista dos empregadores da indústria. Em 1935, Ermírio de Morais exerceu a presidência da Bolsa de Mercadorias de São Paulo e, no ano seguinte, integrou a Confederação Industrial do Brasil (CIB).

A partir de 1936, juntamente com seu sogro e os empresários Numa de Oliveira, Horácio Lafer e Wolf Kadeschewitz, voltou-se para a implantação de uma indústria de rayon, cuja produção no país era até então monopólio do grupo Matarazzo. Ermírio de Morais e seu grupo obtiveram de Vargas isenção de direitos alfandegários para a entrada de toda a maquinaria necessária no país. Criada em 1937, a Companhia Nitro Química Brasileira passou a produzir a partir de 1940, ano em que foi inaugurada, seda artificial, nitrocelulose, ácido sulfúrico, ácido nítrico e outros subprodutos. Tempos depois, a família Klabin, representada por Horácio Lafer, perderia a participação na Nitro Química para o grupo Votorantim, tornando-se Ermírio de Morais o principal acionista da empresa.

Com Gastão de Mesquita Filho e outros, Ermírio de Morais fundou em 1937 a Associação Brasileira de Cimento Portland, que era mantida pelas fábricas do ramo e passou a controlar a qualidade do concreto empregado em obras de certo porte. Como presidente dessa associação, Ermírio de Morais impulsionou a fundação do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento, do qual foi o primeiro presidente, e orientou a implantação no país do processo “solo-cimento” para a pavimentação de rodovias. Ingressando no setor siderúrgico, criou em abril daquele mesmo ano a Companhia Siderúrgica Barra Mansa, no mesmo pólo onde iria operar, a partir de 1946, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

Um dos precursores no campo da assistência social aos empregados, Ermírio de Morais introduziu, em 1938, o sistema de aquisição de casa própria pelos operários da Votorantim mediante adiantamentos da empresa. Ermírio de Morais diversificou ainda mais a Votorantim na linha das indústrias de base, e a produção de tecidos passou a representar no cômputo geral do grupo uma percentagem cada vez menor.

Ao constituir — em dezembro de 1941 — a Companhia Brasileira de Alumínio, Ermírio de Morais encontrou forte resistência por parte dos grandes consórcios internacionais. Entretanto, com empréstimos concedidos pelo governo de Vargas, adquiriu na Itália os equipamentos necessários. Graças à energia elétrica gerada em usina do próprio grupo, instalada no sul de São Paulo, montou aquela indústria, que, inaugurada em 1945, passou a dotar o país de alumínio industrializado, produto até então importado.

Em 1945, Ermírio de Morais comprou em São Paulo o Liceu Rio Branco, que havia sido fechado em meados do ano por seu proprietário, Antônio Sampaio Dória, devido a dificuldades financeiras. No ano seguinte, doou o colégio à Fundação dos Rotarianos de São Paulo, de cuja criação havia participado pouco antes. Eleito presidente do Rotary Clube de São Paulo em 1949, exerceu tais funções até 1951. Durante esse período, lançou a revista da agremiação e promoveu a campanha de sinalização de São Paulo, mobilizando para tanto a imprensa e várias agremiações.

Em 1951, assumiu a presidência da Fundação dos Rotarianos de São Paulo, à frente da qual permaneceria por dois biênios, até 1954. Ainda em 1951, além de dirigir a campanha de vacinação contra a tuberculose promovida pela Cruz Vermelha Brasileira, foi eleito presidente da Beneficência Portuguesa, cargo que ocuparia até 1963. Ao longo de 1951, iniciou também uma campanha interna nas empresas do grupo Votorantim, para que os empregados com certo tempo de casa pudessem tornar-se acionistas, participando dos lucros. Com a morte de Pereira Inácio naquele mesmo ano, Ermírio de Morais assumiu integralmente a direção das empresas.

Segundo Warren Dean, os filhos de Pereira Inácio, sentindo-se prejudicados por terem sido alijados do controle do grupo, recusaram a elevada oferta de Ermírio de Morais para a compra de suas ações, preferindo vendê-las a um inimigo pessoal deste. Entretanto, João de Scantimburgo, biógrafo do empresário, desmente a informação, afirmando que, entre o comprador das ações, José Kalil, e Ermírio de Morais não havia nenhuma inimizade, e que, tempos depois, o primeiro teria revendido a este as ações com grande margem de lucro.

Por ocasião das eleições para a diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) em julho de 1952, Antônio Devisate foi escolhido presidente e Ermírio de Morais tornou-se um dos vice-presidentes. Ainda em julho de 1952, este último doou à Cruz Vermelha o Pavilhão Rotary. Presidente da comissão da FIESP/CIESP encarregada de sugerir medidas para a solução da crise energética em São Paulo, Ermírio de Morais encaminhou a Vargas em 1953 uma série de estudos que propunham a constituição das Centrais Elétricas Brasileiras. Estas, entretanto, somente seriam criadas em 1962, sob a denominação de Eletrobrás.

Eleito em 1955 presidente do conselho deliberativo do Rotary Clube — função que exerceria até 1963 —, Ermírio de Morais reelegeu-se vice-presidente da FIESP em 1956. Em janeiro de 1957, foi escolhido pelo jornal Última Hora o Homem do Ano de 1956. Ainda em junho de 1957, na qualidade de presidente da Beneficência Portuguesa, inaugurou o Hospital São Joaquim, em São Paulo, à época o maior hospital particular da América Latina, a cuja solenidade de abertura esteve presente Francisco Craveiro Lopes, presidente de Portugal (1951-1958). Em fins de 1957, adquiriu o controle da Companhia Brasileira de Metais, que depois passaria a produzir zinco.

Eleito presidente do Conselho de Representantes da Escola Técnica de Recife em setembro de 1960, Ermírio de Morais proferiu na ocasião um discurso de cunho nacionalista no qual combateu, entre outras medidas governamentais, a Instrução nº 113 da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), baixada em 17 de janeiro de 1955, que facilitava a entrada de capital estrangeiro no país ao permitir às empresas internacionais a importação de equipamentos sem cobertura cambial, o que era então vetado à indústria nacional.

Entusiasmado com a política empreendida por Jânio Quadros no governo de São Paulo (1955-1959), Ermírio de Morais participou do financiamento de sua campanha para as eleições presidenciais de 1960. Jânio venceu o pleito e tomou posse em janeiro de 1961, no mesmo mês em que Ermírio de Morais se elegeu membro do conselho consultivo da FIESP e do conselho deliberativo do CIESP. Ermírio de Morais se achava no exercício dessas funções quando Jânio o convidou para assumir a embaixada brasileira em Bonn, na Alemanha Ocidental. Embora a Comissão de Relações Exteriores do Senado houvesse dado parecer favorável à sua nomeação, a 6 de junho, após submeter o pretendente a uma sabatina, representantes da casa acabaram por rejeitar o nome do industrial por pequena margem de votos.

Segundo informa o biógrafo João de Scantimburgo, a votação teria sido influenciada pelo prévio comparecimento ao Senado de Afonso Arinos de Melo Franco, então ministro das Relações Exteriores, que expusera a posição favorável de Jânio ao reatamento dos laços diplomáticos com Cuba, o que teria desagradado aos parlamentares. Ainda em junho a convite de Carvalho Pinto, governador de São Paulo (1959-1963) —, Ermírio de Morais assumiu a presidência da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Com a renúncia de Jânio em 25 de agosto de 1961, irrompeu uma aguda crise político-militar no país, provocada pelo veto dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart. A crise foi contornada com a aprovação pelo Congresso, em 2 de setembro, da emenda que instituía o regime parlamentarista. Em 7 de setembro Goulart tomou posse, tendo como primeiro-ministro Tancredo Neves.

Em fins desse mesmo ano, Ermírio de Morais encaminhou a Tancredo Neves um trabalho elaborado por uma comissão da FIESP/CIESP, por ele dirigida, no qual se propunham medidas destinadas a reduzir o impacto inflacionário. Esse trabalho incluía sugestões sobre a redução de gastos do governo, a limitação dos encargos oficiais, a abstenção de novos aumentos nos índices do salário mínimo e uma política de crédito para as atividades agropecuárias, entre outras medidas.

 

Ingresso na vida política

Por outro lado, contrariado com a recusa do Senado em aceitar sua indicação para a embaixada brasileira em Bonn, Ermírio de Morais decidiu ingressar na vida política, pleiteando uma vaga naquela casa como representante de Pernambuco nas eleições marcadas para outubro de 1962. Candidatou-se na legenda do Partido Trabalhista Nacional (PTN) em coligação com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e financiou a candidatura de Miguel Arrais ao governo de Pernambuco na legenda do Partido Social Trabalhista (PST), com o apoio do PTB e de uma ala dissidente do Partido Social Democrático (PSD), ou seja, das chamadas forças nacionalistas e de esquerda do estado. O principal opositor de Arrais, João Cleofas, representava as forças conservadoras, sendo apoiado pela União Democrática Nacional (UDN), pelo Partido Democrata Cristão (PDC) e pelo PSD.

Empenhado em preparar sua candidatura ao Senado, Ermírio de Morais recusou o convite formulado por Francisco de Paula Brochado da Rocha para ocupar a pasta da Indústria e Comércio quando este assumiu o cargo de primeiro-ministro em julho de 1962. Por essa época, afastou-se da direção das empresas do grupo Votorantim, que passaram a ser administradas por seus três filhos — José Ermírio, Antônio Ermírio e Ermírio — e por seu genro, Clóvis Seripilitti, casado com sua filha Maria Helena.

Conforme pesquisas realizadas por João de Scantimburgo, durante sua campanha eleitoral Ermírio de Morais distribuiu grande quantidade de dinheiro à população pobre de Recife e do interior do estado. Embora possuísse usinas de açúcar em Pernambuco, esse fato foi devidamente ocultado durante a campanha, sendo sua imagem projetada como a de um “industrial nacionalista e progressista”, já que um dos fatores explorados contra Cleofas era o fato de ser este um usineiro. Ainda segundo a mesma fonte, ocorreu um curioso episódio relativo às faixas de propaganda de Ermírio de Morais. É que, como fossem elas confeccionadas em São Paulo em tecido de qualidade, a população pobre de Recife as roubava para transformá-las em roupas e lençóis.

Nessa disputa eleitoral de extraordinário impacto na época devido ao clima de radicalização em que se desenrolou, constituindo elemento de peso na polarização das forças político-sociais do país, Miguel Arrais e Ermírio de Morais saíram-se vitoriosos, tendo sido este último o candidato mais votado em Pernambuco, com 329.789 votos, à frente dos 264.499 dados a Arrais.

Embora, de acordo com a emenda constitucional que instituiu no país o regime parlamentarista, apenas nove meses antes do término do mandato de Goulart, devesse ser realizado o plebiscito em que o povo decidiria sobre a manutenção ou não desse sistema, o presidente, então associado a amplas forças políticas, conseguiu que o Congresso aprovasse, em meados de setembro de 1962, a antecipação daquela consulta popular para 6 de janeiro do ano seguinte. Nessa data, foi decidida, por esmagadora maioria de votos, a volta ao regime presidencialista, sendo Goulart investido no dia 23 daquele mesmo mês de todos os poderes que lhe conferia a Carta de 1946.

 

Ministro da Agricultura

Ao constituir seu primeiro ministério presidencialista, Goulart nomeou Ermírio de Morais para a pasta da Agricultura, na qual foi ele empossado no dia 28 de janeiro de 1963 em substituição a Renato Costa Lima, deixando assim, no início do mandato, o suplente em sua cadeira no Senado. Uma das primeiras medidas adotadas pelo novo ministro foi aprovar, em 11 de fevereiro, o regulamento do Ministério da Agricultura que fora reorganizado por lei em outubro do ano anterior. Em 2 de março de 1963, pela Lei nº 4.214, Ermírio de Morais aprovou o Estatuto do Trabalhador Rural, que regulava os contratos e as relações de trabalho entre empregadores e empregados rurais, além de garantir proteção a estes últimos.

Ainda em março de 1963, o presidente Goulart encaminhou ao Congresso um projeto de emenda constitucional destinado a permitir a execução de uma reforma agrária no país.

A principal característica desse projeto era estabelecer que a desapropriação de terras não fosse indenizada em dinheiro, conforme previa a Constituição, mas em obrigações do Tesouro. O projeto, que viria a ser rejeitado pela Câmara, provocou forte reação por parte dos parlamentares, oposicionistas, fazendo com que, em 16 de maio, Ermírio de Morais comparecesse àquela casa a fim de expor sua posição.

Após esclarecer não ter colaborado com o projeto, Ermírio de Morais afirmou que, embora o considerasse necessário, a medida prioritária a ser adotada quanto à questão agrária seria, a seu ver, a implementação, por parte do governo, de uma assistência efetiva aos pequenos proprietários em termos de financiamento, cooperativismo e condições de trabalho. Na ocasião, o ministro apontou como projetos prioritários em sua gestão no Ministério da Agricultura a duplicação da produção do trigo e a adoção de medidas em favor da indústria da pesca.

Ermírio de Morais manifestou-se contra as negociações efetuadas, ainda em março de 1963, por Francisco San Tiago Dantas, então ministro da Fazenda, para a compra da American and Foreign Power (Amforp) e da subsidiária da International Telephone and Telegraph (ITT) que explorava os serviços telefônicos em Porto Alegre, como contrapartida brasileira aos empréstimos norte-americanos. O preço que o governo brasileiro cogitava pagar por essas empresas, considerado exorbitante por representantes de diversas correntes políticas de expressão nacional, gerou uma crise que enfraqueceu consideravelmente Goulart. Diante disso, este suspendeu as negociações com os norte-americanos promovendo em junho uma reforma ministerial que buscava um clima de conciliação nacional capaz de permitir a implantação pacífica das reformas de base.

 

No Senado

Substituído em 20 de junho de 1963 na pasta da Agricultura por seu conterrâneo Osvaldo Lima Filho, Ermírio de Morais assumiu sua cadeira no Senado. Acusado por Carlos Lacerda — então governador da Guanabara — de dever, enquanto empresário, vultosa soma aos institutos de previdência social, o industrial conseguiu em agosto, através de certidão obtida por mandado judicial, provar estar quite com aquelas instituições. O assunto foi amplamente explorado por O Estado de S. Paulo, que encampou as acusações do líder udenista.

Em setembro de 1963, Ermírio de Morais submeteu à Comissão de Economia do Senado um projeto de lei, por ele relatado, que dispunha sobre o Imposto de Vendas e Consignações e definia a competência dos estados no tocante à sua cobrança e arrecadação. O projeto recebeu diversas emendas, mas não chegou a ser votado.

Preocupado com a fuga de divisas na importação do papel, Ermírio de Morais tomou por base os jornais europeus, apresentando ao Senado, em outubro de 1963, um projeto de lei que limitava em 20 o número de páginas de cada um deles. Nos últimos meses do ano, jornais de prestígio, como o Jornal do Brasil, o Correio da Manhã e O Estado de S. Paulo, fizeram críticas a esse respeito, acusando Ermírio de Morais de estar a serviço dos comunistas. Através de diversas entrevistas, o industrial afirmou não ser sua intenção prejudicar os jornais, e sim conseguir que fossem canalizados para a importação de fertilizantes e inseticidas agrícolas os milhões de dólares gastos com papel de imprensa.

Após o movimento político-militar de 31 de março de 1964, que depôs o presidente João Goulart, foi editado o Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964, permitindo ao grupo revolucionário, enquanto governo constituído, punir os opositores do novo regime e cassar seus mandatos políticos. Acusado de haver gasto mais de um bilhão de cruzeiros para conquistar um assento no Senado, Ermírio de Morais correu por essa época o risco de ter seus direitos políticos cassados, o que, porém, não chegou a acontecer.

Em novembro daquele ano, quando o governo lutava contra a espiral inflacionária, Ermírio de Morais pronunciou discurso no Senado em que fazia sérias restrições à política tributária oficial. Segundo ele, essa política restringia o reinvestimento dos lucros das empresas, as quais, além de arcar com o ônus inevitável resultante do alto índice de inflação — que, naquele ano, atingira uma faixa superior a 80% —, seriam obrigadas a contribuir para os cofres públicos com mais de 4% de seu capital, representados pela reavaliação dos ativos imobilizados. Dessa forma, deduzindo-se o imposto pago, ficariam em poder da empresa apenas 61% do resultado contábil apurado. Para Ermírio de Morais, essa política revelava o deliberado propósito do governo de liquidar com os investidores e os investimentos nacionais, com o intuito de substituílos por capitais estrangeiros.

Em maio de 1965, Ermírio de Morais foi eleito para a presidência do diretório nacional do PTB. Em entrevista ao Jornal do Brasil, publicada no dia 4 do mesmo mês, afirmou sua intenção de reorganizar e fortalecer o partido, pretendendo para tanto percorrer todo o território nacional.

Animado por suas posições nacionalistas, na sessão do Senado de 22 de junho de 1965 Ermírio de Morais criticou o acordo de garantia de investimentos firmado no mesmo ano em Washington entre o Brasil e os Estados Unidos, acusando-o de lesivo aos interesses nacionais na medida em que oferecia garantias aos investidores norte-americanos jamais concedidas aos nacionais. Na ocasião, insurgiu-se contra a Instrução nº 276 da Sumoc, baixada pelo governo de Humberto Castelo Branco, que revigorava a Instrução nº 113, possibilitando às empresas estrangeiras trazer para o Brasil equipamentos obsoletos. Afirmando não ser contrário à tese da participação do capital estrangeiro na economia do país, declarou considerar crucial a defesa dos interesses nacionais mediante a aplicação de leis que impedissem os investidores internacionais de obter vantagens lesivas à nação. Combateu ainda, naquela sessão, a decisão do governo brasileiro de entregar à firma norte-americana Hanna Corporation, através de sua associada de Nova Lima (MG), o pico de Itabirito para a exploração do minério de ferro, por ser este um monumento histórico até então preservado pelo tombamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Quanto à questão dos minérios, Ermírio de Morais considerava imperativo para a defesa nacional preservar os minerais atômicos, sobretudo o urânio e o tório, que poderiam prover o país de energia nuclear, substituindo o petróleo. Chegou a sugerir um projeto de emenda à Constituição para que ficasse em mãos brasileiras a maioria do capital das empresas destinadas à exploração das riquezas minerais nacionais, à base de 51%. A proposta, entretanto, não teve acolhida no Senado.

Ermírio de Morais permaneceu na presidência do PTB até ser editado o Ato Institucional nº 2, em 27 de outubro de 1965, que extinguiu todos os partidos políticos. Com a instituição do bipartidarismo, materializado através da criação da Aliança Renovadora Nacional (Arena) e do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), filiou-se a este último, tendo sido seu primeiro tesoureiro-geral.

Pronunciando-se ainda sobre a exploração, das riquezas minerais do país após a elaboração da Constituição de 1967, Ermírio de Morais combateu no Senado os tópicos referentes ao assunto, bem como o novo Código de Minas. É que, enquanto no antigo código de 1934, o direito de pesquisa e de lavra era prerrogativa de grupos nacionais, o novo estatuto eliminava essa exigência, mencionando apenas o requisito de que as empresas se constituíssem em território brasileiro, independentemente da origem do capital. O novo código introduzia igualmente cláusulas que somente as grandes empresas poderiam satisfazer, abrindo-se assim no setor as portas do país às multinacionais.

Apesar de todas as críticas que fez aos governos emanados da revolução de 31 de março de 1964, Ermírio de Morais proferiu no Senado, em 1º de abril de 1970, um discurso em que reconhecia como satisfatórios para a nação os resultados daquele movimento revolucionário. Candidatando-se na legenda do MDB, tentou reeleger-se senador por Pernambuco no pleito de novembro de 1970, sendo entretanto derrotado pelo arenista Paulo Pessoa Guerra. Encerrou seu mandato em 31 de janeiro de 1971.

Faleceu em São Paulo em 9 de agosto de 1973.

Além de discursos, publicou as seguintes obras: Ética profissional e administrativa do engenheiro (1950), A metalurgia como fator de desenvolvimento de uma nação (1952), Situação atual da indústria do cimento (1956), Brasil atual e o seu futuro (1957) e Bases indispensáveis para a formação de uma nação brasileira economicamente independente (1958).

Sua biografia foi escrita por João de Scantimburgo, sob o título de José Ermírio de Morais: o homem, a obra (1975).

Em 1975, o grupo Votorantim atuava nos ramos da indústria química, siderúrgica, metalúrgica, petroquímica, açucareira, têxtil, de metais não-ferrosos, de cimento, de papel e celulose, congregando 46 empresas, com um total de 33 mil empregados.

Sílvia Pantoja

 

 

FONTES: BASTOS, R. Homens; DEAN, W. Industrialização; Diário Oficial do Est. MA; Encic. Mirador; Grande encic. Delta; GUERRA FILHO, R. Ministério; Jornal do Brasil (10/8/73, 6/6 e 13/12/77); Jornal do Comércio, Rio (25/1/63); LEITE, A. História; LEME, M. Ideologia; SCANTIMBURGO, J. José; SENADO. Dados; SENADO. Relação; SILVA, H. 1964; SOARES, E. Instituições; VÍTOR, M. Cinco.

 

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