LAMARCA, CARLOS

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Nome: LAMARCA, Carlos
Nome Completo: LAMARCA, CARLOS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
LAMARCA, CARLOS

LAMARCA, Carlos

*militar; líder guerrilheiro 1969-1971.

 

Carlos Lamarca nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 23 de outubro de 1937, filho de Antônio Lamarca, carpinteiro, e de Gertrudes Conceição Lamarca.

Cursou o primário na Escola Canadá e completou o ginasial no Instituto Arcoverde, colégio de padres, ambos no Rio de Janeiro. Sentou praça em abril de 1955, ingressando na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, e em 1957 transferiu-se para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ).

Declarado aspirante-a-oficial em dezembro de 1960, foi designado para o 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, no município de Osasco (SP). Em agosto do ano seguinte passou a segundo-tenente e em 1962 foi convocado para servir no contingente brasileiro integrante das forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocuparam a região de Gaza em conseqüência do conflito egípcio-israelense. Lá permaneceu 18 meses, retornando em 1963. Em dezembro desse ano foi promovido a primeiro-tenente e incorporado à 6ª Companhia de Polícia do Exército, em Porto Alegre. Servia nessa unidade quando o movimento político-militar de março de 1964 provocou a deposição do presidente João Goulart. Em dezembro facilitou a fuga do capitão-aviador Alfredo Ribeiro Daudt, preso sob a acusação de atividade subversiva, e por isso respondeu a inquérito administrativo, sem conseqüências. Em 1965 pediu transferência para voltar ao 4º Regimento de Infantaria em Quitaúna, onde afirmou-se como excelente atirador, chegando a ser campeão de tiro do II Exército. Em agosto de 1967 foi promovido a capitão.

Interessado desde 1957 por autores marxistas e responsável pela distribuição clandestina de panfletos políticos nos quartéis onde servia, somente a partir de 1968 Lamarca fez contatos importantes com as facções de esquerda que advogavam a luta armada contra o regime, como a de Carlos Marighella, egresso do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e principal dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), e a de Onofre Pinto, principal dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização surgida em 1967 da fusão dos remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e de um grupo dissidente da Política Operária (Polop), de origem universitária.

No fim de dezembro de 1968, logo após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), foi incumbido de ensinar tiro ao alvo a funcionárias do Banco Brasileiro de Descontos (Bradesco), em São Paulo, para que pudessem se defender dos assaltos a bancos que grupos armados de inspiração política praticavam com crescente freqüência naquela época. No dia 25 de janeiro de 1969, fugiu do 4º Regimento de Infantaria, levando 63 fuzis FAL, dez metralhadoras INA e munição. Acompanharam-no o sargento Darci Rodrigues, o cabo José Mariane e o soldado Carlos Roberto Zamirato, tendo todos se filiado à VPR. No mesmo dia, sua mulher, Maria Pavan Lamarca, e seus dois filhos embarcaram para a Europa e depois para Cuba, onde iriam residir até retornar ao Brasil em junho de 1979. Ainda no mesmo dia da fuga de Lamarca, um edital do Exército deu ao capitão o prazo de oito dias para comparecer ao quartel de Quitaúna, sob pena de ser considerado desertor. Setenta dias depois, o então presidente da República, Artur da Costa e Silva (1967-1969), desligou Lamarca do Exército com base no AI-5, “por ter cometido atos de natureza desonrosa à dignidade militar, sem prejuízo das sanções penais cabíveis”.

Em abril de 1969 Lamarca conheceu Iara Iavelberg, integrante da VPR, que se tornou sua companheira. No dia 9 de maio participou de sua primeira ação armada na VPR, um assalto simultâneo na rua Piratininga, em São Paulo, às agências do Banco Mercantil de São Paulo e do Banco Itaú. Na ocasião, feriu fatalmente um guarda civil e interrompeu o trânsito com rajadas de metralhadora. No dia 18 de julho participou do roubo do cofre pertencente ao ex-governador paulista Ademar de Barros, que se encontrava com Ana Capriglione no Rio de Janeiro. O cofre continha 2,5 milhões dólares e pesava duzentos quilos.

Ainda em 1969, de agosto a outubro, realizou-se um congresso clandestino da Vanguarda Armada Revolucionária — Palmares (VAR-Palmares), organização nascida da fusão da VPR com o Comando de Libertação Nacional (Colina) e outros grupos de menor expressão. No encontro foram discutidas as divergências dessas facções sobre o encaminhamento da luta armada e Lamarca destacou-se pela defesa de um foco guerrilheiro no campo, posição que provocou a cisão conhecida como “racha dos sete”. O grupo divergente reconstruiu a VPR e Lamarca passou a liderar essa organização. Já então identificado como um dos principais expoentes do movimento de luta armada no país, a partir daí ser-lhe-ia atribuída a responsabilidade pela maioria das ações armadas de grupos clandestinos. Sob seu comando instalou-se também um campo de treinamento para a guerrilha no vale do Ribeira, em São Paulo, que acabou sendo descoberto e desarticulado em uma grande operação militar em maio de 1970. Na fuga, Lamarca e seus companheiros executaram o tenente Paulo Mendes Júnior, que haviam aprisionado.

Nos primeiros dias de junho de 1970, o Conselho Permanente de Justiça da 2ª Auditoria Militar de São Paulo condenou Lamarca a 24 anos de prisão pelo roubo das armas do quartel de Quitaúna. No dia 7 de dezembro, Lamarca comandou no Rio de Janeiro o seqüestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher. Como resultado das negociações com o governo, no dia 16 de janeiro de 1971 partiram rumo ao Chile 70 presos políticos brasileiros, trocados pelo embaixador. O relato desse episódio foi registrado por Alfredo Syrkis em seu livro Os carbonários: memórias da guerrilha perdida (1980).

Em maio de 1971 Lamarca deixou a VPR e se filiou, junto com sua companheira Iara, ao Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), grupo da esquerda de origem universitária. Seu ingresso no MR-8 deveu-se à mudança de sua visão política, mais voltada para um trabalho de base junto às massas, realizado paralelamente à atuação guerrilheira. Ainda convencido da possibilidade de implantação de um foco guerrilheiro no campo, seguiu em junho para Buriti Cristalino (BA), enquanto Iara foi para Salvador.

Na operação de busca a Lamarca, as forças policiais e militares de segurança cercaram o local onde se encontrava Iara, no bairro da Pituba, na capital baiana. Para não ser presa, ela preferiu suicidar-se, no dia 20 de agosto de 1971. Posteriormente, com o avanço das investigações, foi localizada a região onde se encontrava Lamarca. Sob o comando do então major Nílton de Albuquerque Cerqueira, realizou-se a “operação Pajussara”, cerco policial e militar de grande envergadura à região de Brotas de Macaúbas, zona agreste do médio São Francisco, na Bahia.

No dia 17 de setembro de 1971, Lamarca, doente, e seu companheiro José Campos Barreto, de codinome Jessé, foram encontrados e mortos a tiros pela patrulha de busca, perto de Pintada, no município de Ipupiara (BA), quando descansavam à sombra de uma árvore.

Duas décadas após a sua morte, diante de pressões vindas de organizações não-governamentais (ONGs) de direitos humanos, de apelos e interpelações legais de grupos e comissões de familiares de desaparecidos políticos, e também em virtude da liberação de documentos oficiais até então de acesso restrito às forças armadas sobre a luta contra a guerrilha, e sobretudo em virtude da promulgação, em 1995, da Lei nº 9.140, “que reconhe(cia) os mortos em dependências do Estado e pre(via) indenizações para suas famílias”, reacendeu-se a discussão em torno de vários casos de presos políticos mortos ou desaparecidos durante o regime militar.

Em 1996, por determinação da referida lei, foi constituída pelo Ministério da Justiça a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos — formada por sete integrantes, entre os quais um representante dos familiares das vítimas, um das forças armadas, um da Câmara dos Deputados e um do Ministério Público —, encarregada de julgar a procedência de “reparos”, na forma de indenizações, às famílias das vítimas. Em abril de 1996, parentes de Lamarca e Carlos Marighella — outro importante líder guerrilheiro na luta contra o regime militar, fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN) — protocolaram seus pedidos de indenização junto à comissão. Por mais de quatro meses desenrolaram-se a elaboração de laudos, a interpretação de indícios e o recolhimento de provas necessárias ao julgamento dos processos.

As opiniões foram sempre conflitantes, entre os familiares das vítimas, governo, militares e integrantes da comissão. O cerne dos debates passava pela aplicação ou não aos dois casos da Lei nº 9.140/95, de autoria de José Gregori — advogado e chefe do gabinete do Ministério da Justiça —, que previa o pagamento de indenização às famílias de vítimas que tivessem desaparecido ou sido mortas enquanto sob a tutela do Estado. No caso específico de Lamarca, a versão oficial afirmava que ele havia sido morto depois de uma troca de tiros com militares liderados pelo então major Nílton Cerqueira, responsável por sua captura. Na ocasião, Cerqueira contou que chegara a travar um diálogo com Lamarca, após o “combate”, em que este reconhecia sua própria derrota. Baseado nessa declaração, ainda em abril, o general Osvaldo Pereira Gomes, representante das forças armadas na comissão especial, manifestou-se contrário ao pagamento das indenizações, posto que Lamarca não fora “morto em dependência qualquer do Estado”. Já os familiares e integrantes da comissão favoráveis à indenização questionavam a veracidade da versão oficial, acreditando que o ex-capitão do Exército tivesse sido executado ao invés de “morto em combate”, o que responsabilizaria diretamente o Estado, enquadrando-se perfeitamente o caso nos critérios da lei.

Nos primeiro dias de julho, a comissão votou pela não concessão da indenização. Ainda nesse mês, porém, foi encontrado, depois de 25 anos de extravio, o laudo oficial da necrópsia de Lamarca, assinado pelo legista Charles Pitex da Polícia Federal da Bahia, segundo os jornais “desmontando a versão oficial do Exército para a morte do capitão”. Conforme a apreciação do laudo pelo legista Lamartine Andrade Lima, do Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues, Lamarca, da forma como foi alvejado, não teria condições de conversar como afirmara Cerqueira, o que dava indícios da falsidade da versão oficial e reforçava a idéia da execução.

Diante dos novos fatos, a comissão especial reabriu o caso. Em 24 de julho, os peritos Nélson Massini e José Eduardo Reis, encarregados de autopsiarem a ossada de Lamarca, confirmaram o laudo original, que indicava sete perfurações à bala, e categoricamente afirmaram que “pelo menos quatro dos projéteis lhe atingiram pela frente, quando ainda estava deitado”. Novo julgamento portanto foi marcado para o dia 1º de agosto, que logo foi adiado para o mês seguinte em virtude de uma negociação entre o presidente da República Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) e o presidente da comissão especial Miguel Reale Jr., por causa das pressões que o presidente vinha sofrendo dos setores militares, descontentes com a possível concessão de indenização às famílias de Lamarca e Marighella.

Em setembro, por cinco votos a dois, a comissão especial deu ganho de causa às famílias de Lamarca e Marighella. Os representantes das forças armadas ainda tentaram, inutilmente, alguns recursos legais com o intuito de barrar o direito conquistado. Ainda em setembro, a viúva de Lamarca, Maria Lamarca, anunciou que requereria na Justiça as promoções militares, por tempo de serviço e merecimento, que ele poderia ter recebido se não tivesse desertado em 1969 e sido morto em 1971. Em resposta, o Exército anunciou que exigiria uma indenização da família de Lamarca, pelo “roubo” que ele havia cometido quando “desertou” em 1969, levando consigo armas e munição.

No final de 1996, integrantes dos movimentos de defesa dos direitos humanos exigiram a exumação do corpo de Iara Iavelberg, companheira de Lamarca, devido à desconfiança da versão oficial de sua morte, que acusava suicídio. Segundo os jornais, o laudo que confirmaria o suicídio com um tiro no peito nunca foi divulgado. Um militar, que fez parte do cerco a Iara, teria informado a familiares de desaparecidos que “ela foi vítima de uma rajada de metralhadora ao reagir à prisão”. No entanto, a iniciativa não obteve sucesso. Como era judia, os administradores do cemitério onde foi enterrada em São Paulo não permitiram a exumação de seu cadáver, por contrariar os preceitos da religião judaica.

Sobre a vida de Lamarca foi publicado o livro Lamarca, o capitão da guerrilha (1980), de Emiliano José da Silva Filho e Oldack Miranda. Em 1994, com base nessa obra, estreou nos cinemas o filme Lamarca, do cineasta Sérgio Resende.

 

 

FONTES: Coojornal (9/79 e 2/80); Estado de S. Paulo (11, 12 e 13/4/80, 15, 16, 17 e 18/9/81, 6, 17 e 23/9/96); Folha de S. Paulo (4/4, 25/7, 1/8 e 16/9/96, 31/8/97); Globo (2 e 4/4, 7 e 8/7, 18/8/96); Grande encic. Delta; IstoÉ (19/9/79); Jornal do Brasil (16/5/69, 4/11/78, 19/4/79, 26/2 e 1/3/80, 8/4/82, 24/7 e 14/9/96); MIN. GUERRA. Almanaque (1945); Pasquim; SILVA FILHO, E. Lamarca; Veja (22/9/71 e 5/9/78).

 

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