LIMA, RENATO COSTA

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Nome: LIMA, Renato Costa
Nome Completo: LIMA, RENATO COSTA

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
LIMA, RENATO COSTA

LIMA, Renato Costa

* pres. IBC 1958-1960; min. Agric. 1962-1963.

 

Renato da Costa Lima nasceu no dia 4 de dezembro de 1916 em Mococa (SP), na fazenda Pessegueiro, de propriedade de seus pais, Pacífico da Costa Lima e Clotilde de Meireles Lima.

Iniciou seus estudos na escola rural da fazenda, cursando depois o Ginásio Municipal de Mococa e o Colégio Arquidiocesano em São Paulo. Seguiu depois para Piracicaba (SP), ingressando na Escola Superior de Agricultura Luís de Queirós, que freqüentou durante dois anos. Abandonou o curso para dedicar-se aos negócios na fazenda da família, onde seu pai lhe transmitiu os conhecimentos necessários a essa atividade, doando-lhe em 1937 a fazenda São Sebastião, também em São Paulo.

Nessa propriedade, dedicou-se inicialmente ao plantio de café e algodão e, depois, ao cultivo de fumo da Virgínia, em folha, dentro de estufas, tornando-se pioneiro no estado na produção de tabaco para cigarros de papel. Permaneceu nesse atividade até 1940, quando vendeu a fazenda e, a convite do usineiro de açúcar João Batista de Lima Figueiredo, assumiu a gerência da usina Itaiquara, localizada em Tapiratiba (SP). A partir dessa época, desenvolveu interesse pela agroindústria e adquiriu grande experiência nas técnicas de conservação do solo. Além de elevar significativamente a produção média de açúcar, plantou eucaliptos cuja madeira era utilizada para gerar energia elétrica em uma usina que construiu para aquecer o aviário, acionar máquinas e garantir o funcionamento da indústria de fermentos que ali instalou.

Renato Costa Lima encontrava-se no exercício dessas funções quando a usina foi visitada pelo empresário norte-americano Nelson Rockefeller, futuro vice-presidente dos Estados Unidos (1974-1977), que, entusiasmado com o ritmo dos trabalhos e com as modernas técnicas utilizadas, confiou-lhe a direção da Empresa de Mecanização Agrícola (EMA), a primeira do gênero implantada no Brasil, com capitais norte-americanos. Além desses dois encargos, Renato da Costa Lima envolveu-se nesse período em outros empreendimentos, como a instalação de fazendas de café, cana-de-açúcar e gado no Paraná e a recuperação de outras em São Paulo.

Desligou-se da usina Itaiquara em 1953, quando foi convidado pelo governador paulista Lucas Nogueira Garcez (1951-1955) para ocupar a direção da Carteira de Crédito Agrícola do Banco do Estado de São Paulo. Pouco depois foi nomeado secretário de Agricultura, cargo em que permaneceu durante os últimos cinco meses do mandato do governador Garcez. Nesse curto período, tomou medidas para a defesa dos recursos florestais, deu autonomia ao Instituto Agronômico de Campinas e procurou localizar e neutralizar os pontos de estrangulamento do desenvolvimento agropecuário de São Paulo, além de desburocratizar os serviços da secretaria. Viabilizou ainda a reabertura da imigração japonesa para melhorar a produção de frutas e verduras no estado.

Assumiu em 1957 a presidência da Sociedade Rural Brasileira, e procurou despertar o interesse de empresários nacionais e estrangeiros para a instalação de fábricas de café solúvel no país, já que a única unidade existente — inaugurada em 1953 pela empresa suíça Nestlé — não visava aos mercados externos e nem apresentava capacidade produtiva suficiente para vir a fazê-lo.

Em 1958, a situação econômica do país estava gravemente abalada pela queda dos preços internacionais do café e uma diminuição no volume das exportações brasileiras. A posição do governo de Juscelino Kubitschek era a de manter um dispendioso programa de compra de excedentes do produto para sustentar seu preço no mercado internacional através do controle do volume das exportações que, com efeito, apesar da farta safra desse ano, haviam atingido até setembro uma quantidade relativamente pequena, em torno de cinco milhões de sacas.

Os enormes gastos do Estado decorrentes dessa orientação eram contrabalançados pelo chamado confisco cambial, através do qual o governo se apropriava de uma parte das rendas geradas em moeda estrangeira pelos exportadores. Essa política produziu grande insatisfação entre os cafeicultores de São Paulo e Paraná que, desde o ano anterior, ameaçavam realizar a “Marcha da Produção”, deslocamento de grande quantidade de veículos das regiões produtoras em direção ao Rio de Janeiro, então Distrito Federal, como forma de protesto.

 

Presidente do IBC

Alertando o presidente da República para a gravidade da situação, que, a exemplo do que ocorrera com Getúlio Vargas e Washington Luís, poderia pôr em risco toda a sua administração, Costa Lima teve marcante influência na mudança da política oficial, sendo então convidado para assumir a presidência do Instituto Brasileiro do Café (IBC). Tomou posse no dia 3 de setembro 1958, logo após ser firmado o Convênio Latino-Americano do Café que, sob o patrocínio e a orientação dos Estados Unidos, buscava a estabilidade dos preços através de um acordo entre países produtores e consumidores.

Ainda em setembro, quando o governo substituiu a política protecionista de compra de excedentes por um programa mais restrito de apoio ao café, ocorreu nova reação por parte dos cafeicultores paulistas e paranaenses, tornando-se necessária no mês seguinte a intervenção do Exército para impedir a realização da “Marcha da Produção”. Diante dessa situação, Costa Lima, à frente do IBC, implementou desde logo uma agressiva política de vendas do café, baixando seu preço no mercado internacional, combatendo a especulação e a retenção do produto, e conseguindo exportar nos três últimos meses de 1958 mais de sete milhões de sacas.

Quando, em 1959, começou a ser colhida a “safra-monstro” calculada em 44 milhões de sacas, o IBC não contava com nenhum armazém e sua contabilidade se encontrava em completa desordem. O governador de São Paulo, Jânio Quadros, cedeu temporariamente dez contadores do banco do estado para organizar as contas do instituto, ao mesmo tempo que Costa Lima ordenou a construção, em Jacarezinho (SP), das primeiras unidades de armazenamento, dando início ao cumprimento de um plano que previa a edificação de um milhão de metros quadrados para esse fim. A situação econômica do país agravava-se com o esgotamento de prazos para o pagamento de compromissos externos — em moeda forte — e, de outro lado, com a deterioração das relações comerciais, na qual a queda dos preços do café desempenhava importante papel. A saca já estava sendo vendida a menos da metade do preço conseguido em 1954. Forçado então a buscar a sustentação dos preços, o IBC passou a financiar compras por intermédio de empresas do ramo, o que possibilitou a aquisição e comercialização de toda a safra.

Ainda em 1959, Costa Lima viajou aos Estados Unidos a fim de estabelecer negociações com o secretário de Estado, Thomas Mann, que presidia o grupo de trabalho incumbido de elaborar o Acordo Internacional do Café. Embora ambos concordassem com a necessidade de estabilizar os preços, na medida em que as oscilações a limites máximos e mínimos eram prejudiciais para vendedores e compradores, Costa Lima negou-se a assinar o acordo por discordar da cota de 37% de participação reservada ao Brasil no fornecimento ao mercado mundial. Segundo ele, nessa divisão deveriam caber ao país 60% do mercado.

Em 28 de abril de 1960, Costa Lima baixou a Resolução nº 161, criando as primeiras normas de incentivo à implantação de indústrias de café solúvel. Durante os quatro primeiros anos de funcionamento dessas fábricas, o IBC se comprometia a destinar-lhes uma quantidade de um milhão de sacas do café verde beneficiado, além de garantir a aquisição de até 80% do produto produzido no primeiro ano, até 60% no segundo, até 40% no terceiro e, finalmente, até 20% no quarto ano. Apesar de terem sido apresentadas ao IBC 11 propostas dentro do prazo previsto, a comissão encarregada do estudo da viabilidade técnica e econômica dos projetos considerou que nenhum deles reunia as condições necessárias para a implantação das indústrias. Por esse motivo, somente em 1961 o plano voltaria a ser discutido e implementado.

Costa Lima prosseguiu em 1960 a agressiva política de vendas de café brasileiro no exterior, visitando vários países. Nos Estados Unidos, negociou 60% da safra desse ano. Na Itália, assumiu, em nome do IBC, o patrocínio do grande circuito ciclístico desse país e conseguiu reativar o mercado consumidor local, cuja demanda passou de 40 mil sacas em 1958 para um milhão em 1960. Devido a seu desempenho no sentido de transformar Trieste em próspero entreposto de distribuição de café à Europa, recebeu o título de cidadão honorário dessa cidade italiana, o qual, até então, só havia sido outorgado ao rei Vítor Emanuel II e ao professor Augusto Piccard. No Japão, suas gestões tiveram grande influência para que o Brasil se tornasse o principal fornecedor das três milhões e quinhentas mil sacas compradas por esse país anualmente. Defensor da normalização das relações comerciais com a União Soviética e demais países da Europa Oriental, que considerava importantes mercados para produtos brasileiros, visitou Moscou — depois de passar pelo Vaticano, onde expôs seus motivos ao papa João XXIII — sendo recebido por Andrei Gromyko, ministro das Relações Exteriores da URSS, que aceitou negociar três milhões de sacas de café em troca de petróleo.

Costa Lima permaneceu à frente do IBC até 30 de junho de 1960, conseguindo comercializar durante sua gestão de menos de dois anos cerca de 120 milhões de sacas de café. Nesse período, presidiu também a Organização Internacional do Café e a VII Conferência Regional da Food and Agriculture Organization (FAO) para América Latina.

Ao deixar o IBC, retornou à iniciativa privada, assumindo o cargo de diretor da Companhia Agrícola Usina Jacarezinho, instalada no município paranaense do mesmo nome e voltada para a produção de açúcar. Presidiu também a Avisco — Avicultura Comércio e Indústria S.A. e dedicou-se à produção de café e gado nas suas propriedades rurais em Mococa, São Paulo e Jacarezinho.

 

Ministro da Agricultura

Em 13 de julho de 1962, durante o período parlamentarista do governo de João Goulart, foi nomeado ministro da Agricultura, em substituição a Armando Monteiro Filho. Integrava o gabinete formado pelo recém-escolhido primeiro-ministro Francisco de Paula Brochado da Rocha, que renunciou em 14 de setembro desse mesmo ano. Costa Lima, entretanto, permaneceu em seu cargo compondo o gabinete de Hermes Lima, escolhido primeiro-ministro quatro dias depois.

Durante sua gestão, o ministério foi reorganizado para atender às necessidades econômicas e sociais da sociedade brasileira em meio à difícil conjuntura que então atravessava. Em 26 de setembro de 1962, criou a Superintendência Nacional do Abastecimento (Sunab), órgão coordenador do abastecimento, e a Companhia Brasileira de Armazenamento (Cibrazem), que passou a atuar com produtos agropecuários e de pesca. No mês seguinte, baixou os decretos de criação do Fundo Federal Agropecuário, da Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) e da Superintendência de Política Agrária (Supra), encarregada de formular a executar o processo de reforma agrária preconizado pelo governo de João Goulart. Pouco depois, criou a Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) para executar os planos governamentais relativos à produção, industrialização e comercialização dos gêneros alimentícios. Promoveu também a melhoria do zebu brasileiro através do cruzamento com espécimes importadas da Índia.

Depois do plebiscito que restabeleceu (6/1/1963) o regime presidencialista, Goulart passou a deter todos os poderes atribuídos ao presidente pela Constituição de 1946. Como decorrência, recompôs seu ministério, no qual Costa Lima foi substituído, em 23 de janeiro, por José Ermírio de Morais.

 

Na iniciativa privada

Ainda em 1963, Costa Lima afastou-se também da presidência da Sociedade Rural Brasileira e retornou à iniciativa privada, reassumindo a presidência da Avisco. Contando com assessoramento técnico do grupo norte-americano John W. Eshelman, no decorrer de sua longa gestão essa empresa tornou-se uma das pioneiras do desenvolvimento avícola do país. Simultaneamente, diversificou suas atividades empresariais, passando a administrar as fazendas São Bento e da Serra (herdada do pai) em Mococa, União e Flora, no Paraná, e Água do Papagaio, no Pará. Membro do conselho fiscal do Unibanco (União de Bancos Brasileiros S.A.) e do conselho consultivo do Fundo Crescinco 157 (administrado por essa empresa bancária), tornou-se vice-presidente da Cooperativa Central dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar) e presidente da Makro Atacadista S.A., empresa comercial que, formada por capitais holandeses, alemães e norte-americanos, funciona com centrais de compra para os atacadistas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Em virtude de seu desempenho no âmbito empresarial, Costa Lima foi escolhido pela revista Visão, de São Paulo, como o “Homem de Visão de 1975”, ano em que elaborou um plano de integração total da Avisco, que seria executado em São Paulo e no Paraná. Ao receber essa homenagem, fez um apelo aos empresários brasileiros no sentido de que voltassem seus interesses para o setor agropecuário, afirmando que, diante da crise mundial de abastecimento de petróleo iniciada em 1973, configurava-se uma oportunidade histórica para o Brasil se tornar uma grande potência através da produção em larga escala de energia proveniente do álcool e de alimentos.

Reafirmando seus pontos de vista em entrevista ao Jornal do Brasil de 24 de dezembro de 1978, declarou discordar da política de exportação de manufaturados a preços subsidiados, que classificou de utópica. Destacando a importância da agricultura no país, afirmou que deveria ser buscado um novo modelo econômico, baseado na agropecuária e no fortalecimento do setor rural. Uma política que remunerasse convenientemente os produtos desse setor e transferisse os frutos desse trabalho para o interior resultaria, segundo ele, em grandes benefícios para a indústria, com a incorporação, em curto prazo de tempo, de grandes contingentes populacionais ao mercado consumidor. Por outro lado, a expansão das empresas ligadas à agropecuária e agroindústria poderia promover a fixação do homem no campo e a criação de uma classe média rural, pois essas empresas, suplantando a agricultura de pequenas dimensões, seriam capazes de retirar o trabalhador rural do seu estágio primário, especializando-o, pagando-lhe salários mais altos e chegando até a propiciar participação nos lucros.

Defendendo a necessidade do aumento das importações para garantir o desenvolvimento do país, propunha como compensação o crescimento das exportações de produtos geradores de altos lucros e a redução das exportações subsidiadas, citando, em entrevista a Visão, o exemplo dos Estados Unidos, “país que mais importa do mundo e nem por isso deixa de colocar 93% de sua produção industrial no mercado interno”. O desenvolvimento da agroindústria poderia garantir a colocação progressiva no mercado externo de produtos brasileiros dotados de maior valor agregado que, junto com a exportação de produtos primários, gerariam uma receita substancial para o país, desde que não se insistisse na política de elevação contínua dos preços. Defensor da iniciativa privada, cuja motivação para produzir, segundo ele, dificilmente poderia ser encontrada na empresa estatal, considerou frustradas as experiências estatizantes no setor agropecuário realizadas nos países socialistas.

Renato Costa Lima tornou-se um dos mais prósperos empresários dos setores da agropecuária e agroindústria do país.

No início da década de 1980, acometido pela doença de Alzheimer, foi obrigado a se afastar de suas atividades profissionais. Retornando à sua cidade natal, ali viveu até o fim da vida.

Faleceu em Mococa no dia 19 de março de 1993.

Era casado com Ester Ribeiro do Vale da Costa Lima, com quem teve cinco filhos.

Sílvia Pantoja

 

FONTES: CONSULT. MAGALHÃES, B.; DUQUE, H. Luta; Encic. Mirador; Grande encic. Delta; GUERRA FILHO, R. Ministério; INF. FAM. Lineu Carlos da Costa Lima; Jornal do Brasil (26/3 e 6/12/75, 25 e 27/7/76 e 24/12/78); SILVEIRA, C. Café; SOARES, E. Instituições; Visão (8/12/75); VÍTOR, M. Cinco.

 

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