MARIO DE SOUSA MARTINS

Ajuda
Busca

Acervos
Tipo
Verbete

Detalhes

Nome: MARTINS, Mário (2-RJ)
Nome Completo: MARIO DE SOUSA MARTINS

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
MARTINS, MÁRIO (2-RJ)

MARTINS, Mário (2-RJ)

*jornalista; dep. fed. DF 1955-1960; dep. fed. GB 1961; sen. GB 1967-1969.

 

Mário de Sousa Martins nasceu em Petrópolis (RJ) no dia 22 de maio de 1913, filho de Rozendo de Sousa Martins e de Hormezinda Almeida de Sousa Martins. Na época, seu pai, de nacionalidade portuguesa, estava estabelecido como farmacêutico naquela cidade fluminense.

Cursou o primário no Colégio Hilda Maduro e no Grupo Escolar Pedro II em sua cidade natal. Em 1925 matriculou-se no primeiro ano ginasial no Colégio Luso-Brasileiro, mas logo depois interrompeu os estudos para começar a trabalhar como vendedor numa agência de automóveis ainda em Petrópolis. Em 1929 tornou-se o gerente da loja, mas, nesse mesmo ano, seu pai vendeu a farmácia em Petrópolis e transferiu-se com toda a família para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, onde abriu uma drogaria. No Rio, Mário Martins empregou-se novamente numa agência de automóveis, porém, pouco tempo depois, como seu irmão que trabalhava com o pai ingressou na Faculdade de Medicina, viu-se obrigado a deixar seu emprego para auxiliar o pai na drogaria. Paralelamente recomeçou a estudar à noite com o objetivo de concluir o curso secundário.

 

No jornalismo

Em 1930 ingressou na Escola de Direito do Rio de Janeiro, onde esteve apenas um ano, abandonando em seguida o curso. Durante seu tempo de estudante universitário teve seu primeiro contato com o jornalismo, escrevendo artigos sobre pugilismo para o Diário Carioca e para o jornal A Crítica, de Mário Rodrigues. Partindo dessa experiência inicial, em 1932 fundou com Mário Filho o diário O Mundo Esportivo, dedicando-se desde então integralmente ao jornalismo. Esse período teve a duração aproximada de 18 meses e contou com a colaboração de expressivas figuras, entre elas Nélson Rodrigues. Segundo o depoimento do próprio Mário Martins, com a eclosão da Revolução Constitucionalista de São Paulo em julho de 1932, o interesse pelo esporte declinou, e o jornal passou a sofrer aguda crise, que culminou com seu fechamento em meados de 1933.

Ainda nesse mesmo ano, viajou para Nova Friburgo (RJ) com o objetivo de passar uns dias na fazenda de seu amigo Válter Ataíde. Naquela cidade tomou conhecimento de problemas que afetavam a população local, como um tímido movimento reivindicatório dos operários da Fábrica de Rendas Arp e a existência de um chefe de polícia que praticava extorsão. Nessas circunstâncias, Mário Martins e seu amigo resolveram denunciar a situação reinante na cidade e fundaram um jornal que recebeu o nome de A Esquerda e que abriu seu primeiro número com a seguinte manchete: “A polícia de Friburgo está cheia de gatunos.” As autoridades locais passaram então a fazer todo tipo de ameaças ao recém-criado periódico, chegando inclusive a um atentado contra Mário Martins. As denúncias de A Esquerda conseguiram promover a substituição do delegado, mas em contrapartida algumas semanas mais tarde o jornal foi definitivamente impedido de circular.

Mário Martins regressou então ao Rio, onde recomeçou a escrever como colaborador artigos para diversos jornais. Em abril de 1936 foi convidado para trabalhar no jornal carioca O Radical. Na ocasião, praticamente toda a equipe desse periódico encontrava-se presa por estar identificada com o ex-prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto Batista, que havia sido deposto, acusado de cumplicidade no levante comunista de novembro de 1935. Mário Martins foi chamado para tentar suprir as lacunas existentes e assim impedir que fosse suspensa a circulação do jornal. Depois da normalização de O Radical, Mário Martins foi contratado como seu secretário. Nessa função, acompanhando a linha do jornal, manifestou-se contra o endurecimento político do governo, combatendo o estado de guerra que havia sido decretado em março de 1936 e a prisão dos parlamentares oposicionistas que denunciavam as violências praticadas pelo governo.

A partir do início de 1937 desencadeou-se a campanha eleitoral com vistas às eleições presidenciais previstas para o ano seguinte. No mês de fevereiro foi lançada a candidatura oposicionista de Armando Sales, líder do Partido Constitucionalista de São Paulo, que acabara de deixar o governo paulista a fim de se desincompatibilizar para concorrer às eleições. Em maio foi lançada a candidatura de José Américo de Almeida, considerado o candidato do governo e apoiado pela maior parte dos governos estaduais e por membros dos principais grupos de esquerda que não se encontravam presos. Mário Martins apoiou José Américo e moveu intensa campanha jornalística contra Armando Sales, denunciando suas ligações com a empresa norte-americana Bond and Share. Ao lado de suas atividades em O Radical, participou amplamente da campanha, comparecendo a inúmeros comícios.

Em outubro de 1937, com a reinstauração do estado de guerra, que fora suspenso em julho daquele ano, Mário Martins iniciou uma campanha de denúncias em praça pública dos preparativos de um golpe que viria impedir a realização do pleito do ano seguinte. Essa atitude resultou na sua prisão em outubro na Vila Militar. Quando em 10 de novembro suas previsões se efetivaram com o fechamento do Congresso Nacional, a abolição dos partidos políticos e a instauração do Estado Novo, Mário Martins ainda se encontrava detido. Poucos dias mais tarde, porém, foi posto em liberdade, reassumindo em seguida suas atividades jornalísticas como redator-chefe de O Radical. Nessa função, ainda que sofrendo a rígida censura imposta pelo novo regime, moveu intensa campanha contra o integralismo e procurou brechas para fazer algumas críticas ao governo, o que lhe valeu várias prisões.

Em 1941, paralelamente às suas atividades jornalísticas, prestou concurso para o serviço público, sendo aprovado e passando a ocupar o cargo de chefe da Seção de Pesquisas e Estatística do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), órgão vinculado ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. No final desse ano, com o agravamento da Segunda Guerra Mundial, incorporou-se através de O Radical à luta pelo rompimento das relações do Brasil com as potências do Eixo, o que se efetivaria em janeiro de 1942. Participou também das campanhas populares que reivindicavam a entrada do Brasil na guerra, concretizada em agosto de 1942. Como resultado dessa sua atuação, ainda nesse ano foi convidado pelo governo inglês para visitar a frente de guerra naquele país, juntamente com uma delegação de jornalistas brasileiros, ocasião em que participou de uma entrevista com o primeiro-ministro Winston Churchill.

De regresso ao Brasil no início de 1943, ao lado de suas atividades jornalísticas, Mário Martins passou a chefiar o recém-criado Serviço de Fiscalização dos Preços e Estoques, órgão vinculado à Coordenação da Mobilização Econômica, entidade governamental destinada a direcionar as medidas econômicas voltadas para o esforço de guerra.

Quando começaram a aparecer os primeiros sintomas de crise do Estado Novo, Mário Martins engajou-se na luta em defesa da reconstitucionalização do país. Em 1944 deixou O Radical para fundar, juntamente com Vítor do Espírito Santo Cardoso, o jornal Resistência, diário que tinha como objetivo combater o Estado Novo. Como diretor desse periódico, cargo que exerceria até 1947, lutou abertamente a partir de 1945 pela destituição de Vargas e a convocação de uma assembléia nacional constituinte. Ainda em 1945 engajou-se na União Democrática Nacional (UDN), tornando-se um dos articuladores da seção carioca dessa agremiação, que foi constituída em torno da candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República. Nesse ano candidatou-se a deputado à Assembléia Nacional Constituinte, mas não se elegeu, tendo obtido 3.700 votos. Eduardo Gomes também foi derrotado nesse mesmo pleito pelo candidato Eurico Gaspar Dutra, apoiado pelo Partido Social Democrático (PSD).

Em 1947, com o fechamento do Resistência, Mário Martins abandonou temporariamente as atividades jornalísticas, sendo no ano seguinte indicado para assumir o cargo de adjunto do adido comercial do Brasil na Argentina, coronel Manuel Parreiras. Em Buenos Aires dedicou-se também a investigar informações relativas a supostas intenções argentinas de promover uma guerra contra o Brasil. De posse de relatos desse teor, decidiu-se escrever um livro sobre o assunto e para tal renunciou a seu cargo em 1950, visto que a publicação dessa obra por um funcionário da embaixada traria certamente dificuldades diplomáticas para o governo brasileiro. De volta ao Rio lançou o livro, que recebeu o título de Perón — um confronto entre o Brasil e a Argentina, e reassumiu depois o serviço público, tornando-se economista do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.

Vereador no Distrito Federal

Com a proximidade do pleito de outubro de 1950, candidatou-se a vereador no Distrito Federal na legenda da UDN, participando também da campanha do candidato de seu partido à presidência da República, brigadeiro Eduardo Gomes. O brigadeiro foi derrotado por Getúlio Vargas, lançado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas Mário Martins conseguiu eleger-se com pouco mais de três mil votos. Empossado vereador em janeiro de 1951, foi escolhido logo depois líder da bancada udenista e líder da oposição na Câmara de Vereadores, marcando sua conduta desde o início do mandato pelo combate ao governo de Vargas. Durante essa legislatura apresentou vários projetos, entre eles um para controlar o Imposto sobre Vendas e Consignações — atual Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM) — no comércio varejista, que deu origem à criação, em novembro de 1957, do concurso “Seus talões valem milhões” (na época, “Seu talão vale um milhão”), possibilitando através da fiscalização popular o crescimento da arrecadação e, adicionalmente, a supressão de uma série de pequenos impostos. Em 1953 foi também eleito subsecretário nacional da UDN.

Em janeiro de 1954, com o objetivo de incrementar a oposição a Vargas, foi formada no Rio de Janeiro a Aliança Popular contra o Roubo e o Golpe, coligação partidária constituída pela UDN, o Partido Libertador (PL) e o Partido Republicano (PR), destinada a disputar as eleições legislativas e para o governo de 11 estados brasileiros fixadas para outubro de 1954. Mário Martins não só participou ativamente desse movimento como também teve seu nome incluído na sua lista de candidatos para concorrer à Câmara dos Deputados.

Nos meses seguintes, a campanha de oposição ao governo intensificou-se, atingindo seu auge em agosto com a ocorrência do atentado da Toneleros que, tendo como objetivo eliminar o líder oposicionista Carlos Lacerda, provocou a morte do major-aviador Rubens Vaz. Desde então aumentaram as pressões sobre o governo, e as soluções apontadas nos meios políticos para contornar a crise giravam em torno de uma licença de Vargas ou de sua renúncia. Durante todo esse período Mário Martins participou ativamente das lutas de seu partido para obter o afastamento do presidente. Isolado politicamente e diante da iminência de sua deposição, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954, tomando posse na chefia do governo o vice-presidente João Café Filho.

Com o desaparecimento de Vargas do cenário político, a UDN passou a tentar adiar as eleições legislativas previstas para outubro, ao mesmo tempo em que buscava um candidato de união nacional para a presidência da República no pleito previsto para o ano seguinte, como forma de impedir que os getulistas voltassem ao poder através do voto popular. A pregação favorável ao golpe militar para instituir um governo de emergência, enquanto o país se “reorganizasse”, foi a tônica de Lacerda e de alguns setores da UDN. O partido, entretanto, estava dividido a esse respeito, e Mário Martins, juntamente com outros líderes expressivos, assumiu posição menos radical. Finalmente, apesar de todas as pressões, as eleições foram realizadas na data marcada e apresentaram um resultado que não alterou de forma significativa a composição do Congresso. A Aliança Popular contra o Roubo e o Golpe conseguiu eleger seis dos seus candidatos, entre eles Mário Martins, que, empossado em fevereiro de 1955, um mês mais tarde foi indicado para vice-líder da UDN na Câmara Federal.

Deputado federal

A sucessão presidencial tornara-se o tema central dos debates políticos no país desde novembro de 1954, com o lançamento da candidatura de Juscelino Kubitschek à presidência da República, que encontrava fortes resistências nos meios militares e udenistas. A UDN, dadas as dificuldades de encontrar um candidato de união nacional que tivesse ressonância junto ao eleitorado, acabou apoiando a candidatura de Juarez Távora, já homologada pelo Partido Democrata Cristão (PDC) e pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Mário Martins acompanhou essas posições, apoiando a candidatura de Juarez e engajando-se em sua campanha.

As eleições foram realizadas no dia 3 de outubro de 1955 e deram a vitória à chapa de Juscelino e João Goulart. Divulgados os resultados eleitorais, imediatamente setores importantes da UDN liderados por Carlos Lacerda deram início a uma luta judicial, visando anular o pleito e impedir a posse dos candidatos eleitos. Sua argumentação respaldava-se na pretensa corrupção eleitoral, no apoio comunista aos candidatos vitoriosos e no fato de os mesmos não terem obtido maioria absoluta de votos. Mário Martins, entretanto, juntamente com uma ala mais liberal do partido, não aderiu a essa posição. Mais tarde, quando se diluíram as perspectivas de uma vitória judiciária, a ala golpista da UDN apelou para uma intervenção direta das forças armadas, de forma a impedir de qualquer maneira a posse dos candidatos eleitos. Mais uma vez Mário Martins se pronunciaria contra essa proposta, defendendo a manutenção da legalidade.

Contudo, quando em novembro de 1955 o ministro da Guerra, general Henrique Lott, chefiou um movimento militar que depôs o presidente em exercício Carlos Luz, com o objetivo de neutralizar uma suposta conspiração contra a posse dos eleitos, tramada no interior do próprio governo, Mário Martins opôs-se a ele, unindo-se à bancada udenista que se negou a votar o impedimento do presidente no Congresso. Apesar disso, a medida foi aprovada pela maioria. Quando alguns dias mais tarde Café Filho, então licenciado da presidência da República por motivo de doença, decidiu reassumir o cargo, foi obstado pelas tropas do general Lott e teve seu impedimento votado pelo Congresso, que o considerou envolvido com setores golpistas. Mário Martins mais uma vez votou contra, ao lado da bancada da UDN.

Em dezembro de 1955 foi escolhido líder do Bloco Parlamentar de Oposição na Câmara dos Deputados e em maio do ano seguinte teve destacada atuação nas lutas contra a elevação dos preços das passagens de transportes coletivos no Distrito Federal. Nessa ocasião, o governo concedeu um aumento de 100% nos preços das passagens de bonde, suscitando com isso grande descontentamento popular, uma vez que o funcionalismo público tinha sido aumentado em apenas 22%. Em vários pontos da cidade, especialmente nos bairros do Flamengo, Copacabana e Penha, os estudantes organizaram manifestações para protestar contra aquela medida, promovendo a depredação de grande número de bondes. O movimento sofreu repressão policial, tendo sido a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) cercada pelo Polícia Militar. Mário Martins, que lá se encontrava, tentou, juntamente com outro deputado da UDN, Adauto Lúcio Cardoso, impedir a entrada da polícia no prédio. Como conseqüência desse incidente, sofreu ferimentos, tendo a mão fraturada.

Em março de 1957 foi reeleito líder do Bloco Parlamentar de Oposição e, logo a seguir, fez parte de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), para apurar as denúncias feitas por Lacerda sobre um suposto envolvimento do vice-presidente João Goulart numa negociata de exportação de pinho para a Argentina. A comissão concluiu que a denúncia não procedia, contrariamente à posição de Mário Martins. Logo depois, em contrapartida, o governo passou a acusar Lacerda de ter fornecido elementos para a decifração do código secreto do Itamarati ao publicar o conteúdo do telegrama que acusava Goulart. O ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares, enviou então à Câmara dos Deputados uma mensagem acompanhada de um ofício da Procuradoria Geral da Justiça Militar pedindo licença para processar Lacerda por crime contra a segurança nacional. O “caso Lacerda” ganhou intensa repercussão, e Mário Martins, como vice-líder do Bloco Parlamentar de Oposição, articulou a votação do pedido de licença de maneira a apressá-la e assim excluir os votos dos deputados situacionistas que estavam fora do Rio. Essa manobra deu resultados, e em 16 de maio a Câmara negou a licença para que Lacerda fosse processado, por uma diferença de 12 votos.

Em 1958, Mário Martins integrou as chamadas Caravanas da Liberdade, criadas por iniciativa do presidente da UDN, Juraci Magalhães, e compostas por líderes udenistas que percorriam os diversos estados do país realizando comícios com vistas a popularizar o partido. Nas eleições realizadas em outubro desse mesmo ano, a UDN obteve grande êxito no Distrito Federal, e Mário Martins reelegeu-se deputado federal com cerca de 7.400 votos. Durante essa legislatura, fez parte das comissões de Relações Exteriores e de Segurança Nacional da Câmara.

No início de 1959, Lacerda começou a articular a candidatura de Jânio Quadros para concorrer às eleições presidenciais fixadas para outubro do ano seguinte. Mário Martins, na época presidente da seção carioca da UDN, manifestou-se contrário por considerar que Jânio não inspirava confiança e que, uma vez eleito, não iria governar com seu partido. Com essa justificativa foi favorável à candidatura do líder udenista Juraci Magalhães, que acabou, entretanto, sendo derrotado por Jânio Quadros na convenção nacional da UDN realizada em 8 de novembro de 1959.

Ainda nesse mesmo ano apresentou, juntamente com o deputado Luís Fernando Bocaiúva Cunha, do PTB, um projeto para a fusão da cidade do Rio de Janeiro com o estado do mesmo nome, uma vez que o Rio iria proximamente deixar de ser Distrito Federal, em função da transferência da capital para Brasília, recém-construída. Esse projeto obteve certa repercussão, mas acabou sendo preterido diante de outra alternativa, a de transformar o município do Rio de Janeiro no novo estado da Guanabara.

O rompimento com a UDN

A partir do final de 1959 as divergências entre Mário Martins, Carlos Lacerda e a UDN — cujos representantes do Distrito Federal na Câmara privilegiavam o ataque às iniciativas do governo federal no tocante à política econômica e à transferência da capital para Brasília — aprofundaram-se cada vez mais. Segundo Isabel Picaluga, nesse momento a UDN em nível nacional apoiou a bancada carioca na luta contra a mudança da capital. Mário Martins foi, no entanto, uma voz discordante, pois acreditava que a interiorização da capital “era um caminho para incorporar a Amazônia economicamente e manter uma soberania que era alvo da cobiça internacional”.

Em 1960, ainda que divergindo em alguns pontos da corrente lacerdista no Distrito Federal, foi um dos articuladores da candidatura de Lacerda ao governo do recém-criado estado da Guanabara, lançando seu nome na convenção estadual do partido em oposição ao outro pretendente, Geraldo Meneses Cortes. Nessa ocasião teve também importante papel na articulação da candidatura de Tenório Cavalcanti ao governo do estado, apoiada pelo Partido Social Trabalhista (PST), com o objetivo de retirar votos do candidato petebista Sérgio Magalhães, que disputava a mesma faixa eleitoral de Tenório. As eleições, de fato, proporcionaram a vitória a Lacerda com pequena diferença de votos sobre Sérgio Magalhães.

Ainda segundo Isabel Picaluga, a partir de 1961 delinearam-se na UDN carioca duas correntes diferentes. De um lado pronunciaram-se os liberais, tendendo a acompanhar as medidas políticas e econômicas do presidente Jânio Quadros, e, de outro, o governador Lacerda e seus simpatizantes, que tenderam a radicalizar cada vez mais para a direita, dando início a um processo de desagregação no interior do partido. Nesse contexto de crise, em maio de 1961 Mário Martins renunciou ao seu mandato de deputado federal por discordâncias políticas com o partido.

De volta ao jornalismo, foi trabalhar como diretor do jornal A Noite. Nessa função teve que enfrentar mais uma vez seu antigo amigo Carlos Lacerda. Por ocasião da renúncia de Jânio em agosto de 1961, A Noite foi a favor da posse do vice-presidente João Goulart como sucessor legal. Lacerda, então governador da Guanabara, era um dos líderes da tentativa de veto à posse de Goulart, tendo sido responsável por intensa repressão às forças legalistas e ordenado inclusive a invasão e ocupação de A Noite pelas tropas da Polícia Militar. Nessa ocasião deu-se o rompimento entre Mário Martins e Carlos Lacerda. Instituído o regime parlamentarista, João Goulart foi empossado na presidência da República em 7 de setembro de 1961.

No governo Goulart

Pouco tempo depois Mário Martins saiu de A Noite e tornou-se redator do Jornal do Brasil e da revista Manchete, escrevendo duas colunas semanais até 1966, e semanalmente daí até 1969. Ao mesmo tempo foi redator especial da revista Manchete.

Paralelamente, a convite de Evandro Lins e Silva, então chefe do Gabinete Civil do presidente João Goulart, passou a participar do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), órgão governamental criado para lutar contra a ação dos trustes internacionais e nacionais na economia brasileira. Ainda que sempre tivesse sido um opositor de Goulart, Mário Martins apoiou a fase parlamentarista de seu governo, pois acreditava que naquela conjuntura era importante dar sustentação ao presidente, que se achava constantemente ameaçado. Nessa época, através de suas colunas no Jornal do Brasil (JB) e na Manchete, defendeu em tese as reformas de base propostas, considerando porém que Goulart estava “queimando etapas” e que o processo de reforma deveria ser conduzido gradualmente.

Com a renúncia de Tancredo Neves ao cargo de primeiro-ministro em junho de 1962, evidenciou-se a crise do regime parlamentarista, e Goulart e as forças que o apoiavam desencadearam uma campanha pela antecipação do plebiscito que decidiria acerca da manutenção do regime, originalmente previsto para ser realizado em 1965. Mário Martins pronunciou-se contra a antecipação do plebiscito e favoravelmente à permanência do regime parlamentarista. No seu entender, se o parlamentarismo tivesse sido mantido, Goulart “teria pacificado o Brasil e teria sido encontrada a saída histórica para o país”. Nos anos seguintes, com a radicalização do governo Goulart, Mário Martins assumiu cada vez mais uma posição de crítica às medidas governamentais, chegando em março de 1964 a apoiar o movimento político-militar que depôs o presidente, por acreditar que essa era “a forma de manter a ordem no país”. Empossado o marechal Humberto Castelo Branco na presidência da República, deu seu apoio ao novo regime. Contudo, assumiu uma postura crítica, principalmente através de sua coluna no JB, em relação às cassações e prisões que vários opositores sofreram neste período.

Senador

Já em julho de 1964, com a prorrogação do mandato de Castelo Branco e o conseqüente adiamento das eleições presidenciais para outubro de 1966, o que no seu entender configurava a intenção dos militares de se manterem no poder, Mário Martins passou para a oposição. A partir de então começou a denunciar através de sua coluna no Jornal do Brasil que os militares estavam entregando o Brasil a potências estrangeiras e que a quebra da estabilidade dos trabalhadores com a criação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) atendia a interesses externos. Com essa perspectiva, em meados de 1966 ingressou no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), sendo posteriormente lançado candidato a senador pelo estado da Guanabara nas eleições de novembro desse ano. Nessa ocasião, já tendo se reaproximado de Carlos Lacerda, participou a seu lado da articulação da Frente Ampla, movimento político lançado oficialmente em outubro de 1966 que contou com a participação inclusive de antigos adversários de Lacerda, como os ex-presidentes Goulart e Kubitschek, e que tinha como objetivo lutar pela pacificação política do país através da plena restauração do regime democrático. Os resultados eleitorais de novembro deram ampla vitória aos candidatos do governo. Na Guanabara, no entanto, a oposição foi vitoriosa, e Mário Martins elegeu-se com mais de 360 mil votos, tendo para isso decisivo apoio de João Goulart e de Carlos Lacerda. Empossado em fevereiro de 1967, marcou sua atuação por denúncias de corrupção e de perseguições políticas praticadas pelo regime.

Em novembro de 1968 denunciou a sonegação de impostos por parte da firma Sudam Cigarros de São Paulo, da qual o então ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva era advogado e acionista. Com a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, foi preso na Vila Militar, no Rio de Janeiro. Em fevereiro de 1969 seu mandato foi cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Em 1970, depois de deixar suas atividades jornalísticas, afastou-se do Rio de Janeiro para dedicar-se a atividades agropecuárias em Vitória.

Com a abertura política já no governo do presidente João Batista Figueiredo e a criação dos novos partidos a partir de dezembro de 1979, Mário Martins retornou à vida política, regressando ao Rio em 1981. A partir de então começou a trabalhar pela unidade das oposições com vistas a organizar uma frente ampla contra o governo. Não tendo conseguido atingir esse objetivo em virtude da decretação do “pacote eleitoral” de novembro de 1981, que impedia coligações partidárias, decidiu ingressar no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), de cuja seção fluminense logo depois foi eleito vice-presidente e a seguir, com a saída de Nélson Carneiro, presidente. Com as perspectivas de incorporação do Partido Popular (PP) ao PMDB, trabalhou ativamente para que ela chegasse a bom termo no Rio de Janeiro, estado que apresentava maiores dificuldades para a fusão partidária. Na época esteve à frente do PMDB nas negociações com o grupo do governador Antônio de Pádua Chagas Freitas, do PP, visando à incorporação. Efetuada esta última, o deputado Miro Teixeira assumiu a presidência do PMDB no estado, cabendo a Mário Martins a vice-presidência.

No pleito de novembro de 1982 foi candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, concorrendo numa sublegenda do PMDB, mas não conseguiu se eleger. Na ocasião foi escolhido o senador Roberto Saturnino Braga, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que disputava a reeleição.

No ano seguinte Mário Martins foi eleito presidente do conselho da Associação Brasileira de Imprensa. Juntamente com Barbosa Lima Sobrinho, presidente da entidade, integrou a ABI em diversas campanhas políticas, notadamente a das diretas, em 1984. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, Mário Martins apoiou a candidatura do ex-governador de Minas Gerais Tancredo Neves, em oposição ao candidato do Partido Democrático Social (PDS), Paulo Maluf.

Eleito pela Aliança Democrática, uma união do PMDB com a dissidência do PDS abrigada na Frente Liberal, no Colégio Eleitoral reunido em 15 de janeiro de 1985, Tancredo não chegou a assumir a presidência. Doente, faleceu em 21 de abril, sendo substituído pelo vice José Sarney, que já vinha exercendo interinamente o cargo desde 15 de março.

Com a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, Mário Martins foi indicado para participar da Comissão de Estudos Constitucionais, conhecida como Comissão Afonso Arinos. Em fevereiro de 1987, com o início dos trabalhos constitucionais, tornou-se assessor de Afonso Arinos, em Brasília. Mais tarde, integrou o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, vinculado ao Ministério da Justiça, como representante da ABI.

Reeleito diversas vezes presidente do conselho da ABI, deixou o cargo por motivos de saúde em 1992, vindo a falecer em Vila Velha (ES), no dia 13 de dezembro de 1994.

Casado com Diná Almeida de Sousa Martins, teve nove filhos, entre os quais a escritora Ana Maria Machado e o jornalista Franklin Martins. Em segundas núpcias desposou Jane Rodrigues Rios, com quem teve mais dois filhos.

Além da obra citada, Mário Martins publicou Há dez anos Hitler guerreia o Brasil (durante a Segunda Guerra), Nos dias de intolerância (1964) e Valeu a pena — memórias de um jornalista e político de oposição que nunca foi do contra (obra póstuma, em co-autoria com Franklin Martins).

Marieta de Morais Ferreira

 

FONTES: CÂM. DEP. Anais (1960-2); CÂM. DEP. Deputados; CÂM. DEP. Relação dos deputados; BENEVIDES, M. UDN; ENTREV. BIOG.; Globo (1/12/96); Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (16/10/66); MENESES, R. Dicionário; NÉRI, S. 16; PICALUGA, I. Partidos; SEGANFREDO, S. UNE; SENADO. Dados; SENADO. Relação; SILVA, H. 1935; TAVARES. J. Radicalização; Tribuna da Imprensa (16/7/54).

 

Para enviar uma colaboração ou guardar este conteúdo em suas pesquisas clique aqui para fazer o login.

CPDOC | FGV • Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
Praia de Botafogo, 190, Rio de Janeiro - RJ - 22253-900 • Tels. (21) 3799.5676 / 3799.5677
Horário da sala de consulta: de segunda a sexta, de 9h às 16h30
© Copyright Fundação Getulio Vargas 2009. Todos os direitos reservados