Roberto Pinto Ferreira Mameri Abdenur

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Nome: ABDENUR, Roberto
Nome Completo: Roberto Pinto Ferreira Mameri Abdenur

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:
ABDENUR, Roberto

*diplomata; emb. Bras. Alemanha 1995-2002; emb. Bras. Estados Unidos 2004-2007.

 

Roberto Pinto Ferreira Mameri Abdenur nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 5 de maio de 1942, filho de Assad Mameri Abdenur e de Vera Albertina Abdenur.

Diplomado em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e mestre em economia pela London School of Economics and Political Science, ingressou diretamente na carreira de diplomata, por concurso, sendo nomeado terceiro-secretário em janeiro de 1964. Segundo-secretário em dezembro de 1966, foi, no ano seguinte, membro do XII Período de Sessões da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina (CEPAL) em Caracas, Venezuela, e da V Sessão da Junta de Comércio e Desenvolvimento da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, Suíça.

Cônsul-adjunto em Londres entre 1969 e 1973, foi promovido a primeiro-secretário em janeiro desse último ano e removido ainda em 1973 da capital inglesa para Washington. Membro de reuniões do grupo de trabalho especial América Latina-EUA na capital norte-americana entre 1974 e 1975, integrou a delegação brasileira em diversas sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas de 1974 a 1983. A partir de 1975, e até 1979, exerceu, entre outras, a função de coordenador de assuntos econômicos e comerciais da Secretaria Geral das Relações Exteriores, e de 1979 a 1984 exerceu a mesma tarefa no gabinete do ministro das Relações Exteriores, Ramiro Saraiva Guerreiro.

Promovido a conselheiro em setembro de 1977 e a ministro de segunda classe em dezembro de 1979, participou da comissão da Comunidade Econômica Europeia e Canadá (1980), da reunião das equipes de planejamento político, em Londres (1981) e da conferência sobre questão Norte-Sul e cooperação Sul-Sul, em Nova Délhi, Índia, em 1982. Neste último ano, foi delegado na reunião de consulta Brasil-EUA sobre questões de policy-planning, em Brasília, e na XXXVIII reunião ministerial do General Agreement on Tariff and Trade (GATT).

Em dezembro de 1983, alcançou o posto de ministro de primeira classe, chefiando, no ano seguinte, a delegação brasileira nas reuniões de entendimento sobre cooperação nuclear Brasil-China, em Pequim, capital deste último país. No ano de 1985, foi nomeado embaixador em Quito, Equador, tendo lá permanecido até 1988. No ano seguinte, assumiu a embaixada brasileira em Pequim, onde permaneceu por três anos e meio. Foi um período difícil porque, logo no início da sua gestão, ocorreu o movimento estudantil da Praça da Paz Celestial, resultando em um período de maior isolamento da China pelos países ocidentais.   Ao fim da missão, retornou ao Brasil, tornando-se, em setembro de 1993, secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores (MRE).

Em 1995, quando se iniciava o primeiro período de governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), assumiu o posto de embaixador do Brasil na Alemanha, substituindo Francisco Thompson Flores Neto, cargo que ocupou até fevereiro de 2002, quando foi substituído por José Artur Denot Medeiros. Como embaixador em Berlim, promoveu a aproximação nas relações entre Alemanha e Brasil, que foram marcadas, nesse período, por quatro viagens do presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, à Alemanha e três visitas de chanceleres alemães ao Brasil, além da formalização de documentos que articulavam todas as principais iniciativas nas relações bilaterais, com a diversificação dos investimentos alemães no Brasil nas áreas de infraestrutura e energia, assim como o incremento de um diálogo entre as sociedades, com o fim de aproximar ainda mais os dois povos e as duas culturas. Os dois países também se juntaram em busca de mandatos permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Ainda em 2002, foi nomeado embaixador em Viena, Áustria, onde chefiou a missão diplomática brasileira não só junto àquele país, mas também à Croácia, à Eslovênia e à Eslováquia. Nessa condição, foi embaixador perante a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e, em 2003, presidente do chamado “Grupo dos 77 e China”, grupo responsável pela defesa dos interesses dos países em desenvolvimento no plano econômico. Foi nessa época que se tornou público o programa nuclear do Irã, que durante 18 anos seguidos vinha conduzindo atividades nucleares de forma clandestina, sem conhecimento da AIEA, como exigem as obrigações assumidas perante essa agência pelos países que aderem ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Foi nomeado embaixador em Washington, em abril de 2004, em substituição a Rubens Barbosa, no que foi o último posto de sua carreira. Durante o exercício do cargo, participou da retomada do processo de negociação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e buscou intensificar o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos, principalmente no que diz respeito às exportações brasileiras para o mercado norte-americano, assim como criticou o protecionismo de Washington. Em fevereiro de 2007, se aposentou aos 64 anos, depois de 44 anos de serviços diplomáticos, sendo substituído na embaixada americana por Antônio de Aguiar Patriota. Após sua aposentadoria, fez severas críticas à ênfase na cooperação Sul-Sul promovida pela política externa do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010), que considerou uma barreira aos avanços na balança comercial com os Estados Unidos.

Num artigo que escreveu para o jornal Folha de S. Paulo de 25 de julho de 2010, sob o título “Brasil-Irã: como fazer amigos e dar-se mal”, Roberto Abdenur abordou a questão do programa nuclear iraniano. Destacou que, embora tenha havido muitos contatos entre Teerã e a AIEA, entretanto, não foram suficientes “para dirimir as desconfianças sobre as verdadeiras intenções do programa iraniano. Até o final de 2009 o secretariado da AIEA afirmava não ter indícios de desígnios malévolos, mas esclarecia não haver obtido das autoridades iranianas esclarecimentos capazes de afastar as suspeitas de intenções ocultas. Em fevereiro do ano em curso [2010], novo relatório da AIEA elevou o tom: afirmou categoricamente, sim, haver fundadas razões para suspeitas de propósitos militares nas atividades nucleares iranianas”. Em seguida, sentenciou que “o governo brasileiro cometeu grave erro diplomático, ao buscar, de modo arrojado e irrefletido, excessiva aproximação com o Irã, sem ter em mente a extrema complexidade e delicadeza da questão”. Justificou sua posição destacando a incômoda posição provocada pelo voto contrário do Brasil a uma nova rodada de sanções ao Irã, apoiadas até mesmo por Pequim e Moscou, discordando assim de ampla maioria do Conselho de Segurança da ONU, exatamente no momento em que o Brasil acabava de ser reconduzido à condição de membro temporário desse organismo para o biênio 2010-2011. Finalizando o artigo, Abdenur concluiu que “esses passos em falso - a indevida, quase entusiástica identificação com o Irã, e o voto negativo - lesionam seriamente a imagem de equilíbrio, objetividade e imparcialidade que tradicionalmente fundamenta nosso pleito por lugar permanente no Conselho de Segurança, a instância decisória suprema em questões de ameaças à paz e à segurança internacionais”.

Em entrevista à revista Veja publicada em setembro de 2010, criticou a política externa brasileira do governo Lula pela “visão de que no mundo ainda há claramente uma contraposição entre ricos e pobres, norte e sul. Isso não faz mais sentido em um mundo globalizado (…) Apesar dessa nova realidade, a política externa de Lula tem procurado apresentar o Brasil como líder dos países pobres. É preciso abandonar essa visão”. Aumentou suas críticas ao contestar uma expressão do chanceler Celso Amorim, então ministro das Relações Exteriores, ao dizer que “negócios são negócios” para justificar a visita do Presidente Lula a uma ditadura africana. Para Roberto Abdenur, “há limites para a diplomacia presidencial. Quando o presidente entra em cena, atribui-se à relação com determinado país um peso político muito maior. O presidente é a instância mais elevada da diplomacia, e é preciso dosar a sua exposição, pois ela traz consigo o endosso e a imagem de todo o país.” E continuou suas observações criticando as relações do Brasil com o Irã com o seguinte argumento: “O problema é que o Itamaraty não sabe dizer ‘não’ a Lula, e isso cria situações como as que envolveram recentemente o Brasil e o Irã. (…) Não há benefício algum, no entanto, em aproximar-se do Irã, muito menos em nível presidencial. Ahmadinejad é o líder de um regime teocrático, violento e isolado internacionalmente. Apesar disso, Lula diz que tem uma relação de carinho com o iraniano. O brasileiro entrou nisso movido pelo seu instinto positivo de projetar o país no cenário internacional. Faltou alguém dizer a ele: ‘Presidente, atenção, veja as circunstâncias: o que está acontecendo no Irã é muito sério’.”

Para justificar sua opinião, Abdenur disse que “há um palanquismo na política externa, algo que reflete muito a natureza pessoal de Lula. A preocupação maior do Itamaraty tem sido armar palanques para o presidente. Essa diplomacia cenográfica tinha até pouco tempo atrás um bom público lá fora. Até a eleição de Barack Obama, nos Estados Unidos, em 2008, Lula era o governante mais respeitado e estimado no exterior. Ele acumulou um bom capital político, principalmente pela conjuntura econômica favorável”. Segundo Abdenur, Lula perdeu parte considerável desse capital político que conseguiu para si e para o Brasil “por sua sofreguidão em ser popular com todo o mundo e por ignorar as circunstâncias das situações em que se meteu”. O apoio do presidente iraniano Ahmadinejad, manifestado quando de sua visita ao Brasil, à candidatura brasileira a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, fez com que o país perdesse muitos votos. Para o diplomata, todos esses erros da política externa brasileira prejudicaram essa candidatura para alcançar o seu objetivo.

Para concluir, Roberto Abdenur criticou as relações do governo brasileiro com a Venezuela, Bolívia e Equador. Definiu essas relações com a seguinte argumentação: “É uma aberração diplomática. O Brasil é condescendente com Chávez, com Evo Morales, da Bolívia, e com Rafael Corrêa, do Equador, apenas por representarem regimes identificados como de esquerda. Isso é um erro. Porque não existe política externa de esquerda. A diplomacia tem de refletir os interesses do estado, não de um partido. O governo brasileiro é ativamente solidário e conivente com Chávez, um líder que está em etapa adiantada na consolidação de uma ditadura (…)”

Em maio de 2011, Roberto Abdenur definiu como “uma medalha a mais no peito” a eleição de Roberto Azevedo, então embaixador do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), para a direção-geral desse organismo internacional. Na sua opinião, ao mesmo tempo em que é um reconhecimento do papel do Brasil em Genebra, na Suíça, e no G-20, grupo que reúne as principais economias do mundo, a vitória do candidato brasileiro também ajuda a levantar ainda mais o nome do Brasil no cenário internacional. O diplomata destacou ainda que “o Brasil sempre foi um dos ‘players’ na OMC. Vejo a eleição como um reconhecimento do papel histórico do Brasil para formar um sistema de comércio multilateral verdadeiramente sólido”. E completou enfatizando a nova posição do Brasil no cenário mundial: “Agora o país está numa situação privilegiada de ter dois diretores-gerais de grandes organizações internacionais: o [José] Graziano na FAO [Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação] e o Azevedo na OMC. Só está faltando um laurel em nossa coroa, que é entrar para o Conselho de Segurança da ONU”.

Em entrevista ao site da Amcham (American Chamber of Commerce) ou Câmara Americana de Comércio, Roberto Abdenur avaliou que o Brasil tem muitas oportunidades a explorar com a China, desde a atração de investimentos até a inserção de produtos manufaturados naquele mercado. Destacou aspectos da história chinesa, de seu trabalho como diplomata naquele país e a evolução da relação bilateral. Participou de momentos fundamentais dessa relação. O primeiro se deu em 1982, pelo então chanceler brasileiro Ramiro Saraiva Guerreiro, de quem era colaborador, responsável por assuntos comerciais. Este foi o primeiro contato depois do reconhecimento da China comunista pelo Brasil, o que ocorreu em meados da década de 1970, no governo de Ernesto Geisel (1974-1979), de modo que essa visita do chanceler brasileiro consistiu no lançamento do diálogo político com os chineses. Depois, em 1984, participou de outro momento histórico, a visita do presidente João Baptista Figueiredo (1979-1985) à China, a primeira de um presidente brasileiro ao país.

Durante a carreira diplomática, e mesmo depois da aposentadoria, publicou diversos artigos sobre relações internacionais em periódicos de grande veiculação e em revistas especializadas. Entre outras atividades, integrou também o quadro de conselheiros do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), do Conselho Empresarial de Políticas Econômicas da Associação Comercial do Rio de Janeiro, da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e da empresa Prospectiva – Negócios Internacionais e Políticas Públicas. Foi ainda Presidente Executivo do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial.

Casou-se com Maria Isabel Erthal Abdenur, com quem teve três filhos.

 

Alan Carneiro

 

FONTES: INF. BIOG.; MIN. REL. EXT. Anuário (1992); Agência Brasil (27/02/2007); Folha de S. Paulo (27/02/2007 e 29/04/2005); Entrevista Veja Roberto Abdenur (07/02/2007); DW-WORLD.DE (27/02/2002 e 17/03/2002); http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/roberto-abdenur/ (acesso em 05/04/2014); http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/05/1275160-para-ex-embaixador-vitoria-de-azevedo-na-omc-e-medalha-no-peito.shtml (acesso em 05/04/2014); http://www.amcham.com.br/brasil-eua-e-outros-mercados/noticias/roberto-abdenur-brasil-ganha-ao-explorar-mais-negocios-com-china (acesso em 05/04/2014); http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2507201007.htm (acesso em 05/04/2014).

 

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