ROSSI, AGNELO

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Nome: ROSSI, Agnelo
Nome Completo: ROSSI, AGNELO

Tipo: BIOGRAFICO


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ROSSI, AGNELO

ROSSI, Agnelo

*religioso; arceb. São Paulo 1964-1970; pres. CNBB 1964-1970.

 

Agnelo Rossi nasceu em Joaquim Egídio, município de Campinas (SP), em 4 de maio de 1913, filho de Vicente Rossi e de Vitória Colombo Rossi.

Iniciou o curso primário em sua cidade natal, vindo a terminá-lo em Valinhos (SP), para onde sua família se transferira. Ingressou em janeiro de 1926 no Seminário Diocesano de Campinas (SP), onde fez o curso ginasial, estudou filosofia e iniciou o aprendizado de teologia. Em 1934 transferiu-se para o Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma, recebendo a matrícula nº 1 no novo colégio. Em 1935 entrou para a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, pela qual se licenciou em filosofia e teologia. Em março de 1937 foi ordenado sacerdote na basílica de São João de Latrão, ainda em Roma.

De volta ao Brasil no fim desse ano, iniciou a carreira eclesiástica como secretário particular do bispo diocesano de Campinas, dom Francisco de Campos Barreto. Em 1939 participou do Concílio Plenário Brasileiro como consultor em assuntos de fé, liderando em Campinas o movimento de formação de meditantes da Ação Católica Brasileira (ACB).

Lecionou no Seminário Central Imaculada Conceição de São Paulo de 1940 a 1944, atuando ainda como professor e diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e diretor da Faculdade de Odontologia de Campinas. Foi um dos fundadores e vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas. Ao mesmo tempo em que dirigia o jornal diocesano A Tribuna, dava assistência eclesiástica à Juventude Universitária Católica (JUC) e à Juventude Independente Católica (JIC).

Em maio de 1947 recebeu na catedral de Campinas a investidura canonical, tornando-se cônego. Em junho de 1953, o papa Pio XII conferiu-lhe o título de monsenhor. Eleito bispo diocesano de Barra do Piraí (RJ) em março de 1956, recebeu a sagração na catedral de Campinas, tendo como sagrante dom Paulo de Tarso Campos e co-sagrantes dom Hélder Câmara e dom Vicente Marchetti Zioni. Tomou posse em sua diocese em maio do mesmo ano.

Como bispo de Barra do Piraí, empenhou-se na construção de um seminário interdiocesano para a região da Baixada Fluminense, na organização da diocese de Nova Iguaçu (RJ) e na dinamização da catequese popular, trabalhando ainda pela renovação e o aumento do clero de congregações religiosas e de líderes leigos. Pioneiro na experiência em âmbito diocesiano de pequenas comunidades cristãs voltadas para o binômio fé e política, que se tornariam posteriormente as comunidades eclesiais de base (CEBs), afirmava que foi a carência originada na falta de sacerdotes que o levou a considerar oportuno o melhor aproveitamento dos leigos. Em 1960 foi designado delegado do Episcopado brasileiro no Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), tendo atuado de junho desse ano a abril de 1961 como administrador apostólico da diocese de Valença (RJ).

Em setembro de 1962 substituiu dom Luís do Amaral Mousinho, assumindo a arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), onde implantou o Plano de Emergência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Plano da Pastoral de Conjunto, dessa mesma entidade. Foi incentivador e fundador da Cooperativa Popular de Consumo de Ribeirão Preto e deu novo impulso à Federação Mariana, unificando numa só entidade coordenadora os congregados marianos e as filhas de Maria.

Em 1963, a maioria da hierarquia eclesiástica parecia estar convencida de que a agitação que se fazia para a aprovação das reformas sociais favorecia, inevitavelmente, a implantação do comunismo. Nesse sentido, um grupo de bispos e arcebispos, entre os quais dom Jaime de Barros Câmara, dom Vicente Scherer e dom Eugênio Sales, além de dom Agnelo, enviou uma carta a dom Cândido Padim, que, desde 1962, vinha substituindo dom Hélder Câmara no cargo de assistente nacional da ACB, solicitando que seus assistentes eclesiásticos “formassem a consciência dos militantes no ensino autêntico da Igreja e de sua doutrina social”, conservando-se afastados de “certas correntes ideológicas em voga nos meios do laicato”. A mensagem revelava, por fim, o temor da Igreja ante a radicalização do movimento católico. A crise política que engolfava o país culminou no movimento de 31 de março de 1964, que provocou a deposição do presidente João Goulart.

 

Arcebispo de São Paulo e presidente da CNBB

Em novembro de 1964, durante a terceira sessão do Concílio Vaticano II, em Roma, pouco depois de Agnelo Rossi ter sido eleito presidente da CNBB, o papa Paulo VI designou-o para o arcebispado de São Paulo, vago pela transferência do cardeal dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota para a nova arquidiocese de Aparecida do Norte (SP).

Na arquidiocese de São Paulo, criou o Centro Rural Boi Mirim, atual Centro Rural Agnelo Rossi, o Centro de Assistência Integrada às Comunidades Estrangeiras de São Paulo, o Instituto Paulo VI, para a formação de bispos auxiliares e diáconos, o Instituto Mater Ecclesiae, para estudo e desenvolvimento da estrutura paroquial da arquidiocese, e o Centro de Informações Ecclesia. Criou ainda regiões episcopais, entre as quais o bispado de Jundiaí (1964), e cerca de 90 paróquias. Orientou também a aplicação das diretrizes renovadoras do Concílio Ecumênico Vaticano II. Em fevereiro de 1965, no consistório presidido pelo papa Paulo VI, foi elevado ao cardinalato.

Em 1968 acentuou-se o conflito entre a Igreja e o governo, que se vinha desenvolvendo desde a implantação do novo regime em 1964. Em janeiro, dom Jorge Marcos de Oliveira, bispo de Santo André, uma das cidades da zona industrial paulista, declarou publicamente que uma revolução armada “pode ser lícita quando reina a opressão e quando vigoram salários de fome”. O governo, a despeito dos protestos, iniciou uma série de medidas repressivas contra o clero e movimentou, através da imprensa, intensa campanha, procurando apresentar os prelados progressistas como elementos mais preocupados em desenvolver atividades políticas do que propriamente religiosas.

Com o encerramento da IX Assembléia da CNBB em julho de 1968, para cuja presidência fora reeleito sucessivas vezes até 1970, foi divulgado um documento em que se analisava a situação brasileira, sugerindo-se reformas, apelando-se à não-violência e denunciando-se a falta de liberdade. Nesse período multiplicavam-se as manifestações de protesto contra o governo, especialmente por parte de estudantes e setores de classe média, registrando-se também a presença de sacerdotes.

Em outubro de 1968 foi lançado por dom Hélder Câmara, em Recife, o movimento Ação, Justiça e Paz, que pregava a luta contra as estruturas agrária e educacional e a legislação trabalhista. Agnelo Rossi recusou a medalha da Ordem Nacional do Mérito, que receberia do presidente Artur da Costa e Silva (1967-1969). Uma nota oficial da Igreja explicou que o cardeal agiu por razões pastorais, já que “setores católicos” davam à distinção um sentido mais político e partidário do que cívico e patriótico. O advogado Mário Carvalho de Jesus, líder sindical, fundador da Ação Coletiva pela Justiça, similar paulista do movimento Ação, Justiça e Paz, interpretou o gesto como uma pressão moral sobre o governo, de forma a “demonstrar que o cardeal não está de acordo com a atual estrutura brasileira e com a expulsão do país do padre operário francês Pierre Vauthier, por ter participado de uma greve numa fábrica de Osasco”.

Em novembro, a comissão central da CNBB publicou um manifesto em que, ao mesmo tempo que condenava a subversão, solidarizava-se com “nossos irmãos bispos, padres e leigos, no momento em que são vítimas da incompreensão e da injustiça no cumprimento de um trabalho apostólico autêntico”. Em 13 de dezembro de 1968, o governo, pressionado por suas alas radicais, reagiu de modo fulminante ao assédio da oposição ao editar o Ato Institucional nº 5 (AI-5), juntamente com o Ato Complementar nº 38, que decretou o recesso do Congresso. O AI-5 conferia poderes quase totais e absolutos ao Poder Executivo.         

Em maio de 1969 foi lançado em São Paulo, com o apoio de Agnelo Rossi, um movimento contra os padres que “voluntária ou involuntariamente estão indo de encontro à ordem vigente”. O movimento lançou um manifesto que ressaltava a necessidade de obediência à hierarquia da Igreja.

Estava marcada para junho a X Assembléia-Geral dos Bispos do Brasil, que incluiu em sua pauta, por sugestão dos integrantes da comissão central, os seguintes itens, além dos fixados pela assembléia anterior: o Congresso Eucarístico Nacional, a realizar-se em Brasília em maio de 1970, as relações entre Igreja e Estado no Brasil, a reforma agrária, os atentados terroristas e o esquadrão da morte. Às vésperas do início do conclave, Agnelo Rossi explicou que não houve ligação entre uma visita que os cardeais haviam feito ao presidente Costa e Silva e a inclusão do segundo tema — relações entre Igreja e Estado no Brasil —, ressaltando que os cardeais levaram ao presidente as preocupações pelo respeito à Declaração dos Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas (ONU), e aos postulados cristãos.

Em 30 de julho de 1969 encerrou-se em São Paulo a X Assembléia da CNBB, rejeitando por 135 votos contra 60 um documento básico sobre a relação entre a Igreja e o Estado no Brasil. Na opinião dos observadores, o resultado representou uma vitória da ala conservadora da Igreja, com adesão de parte do episcopado considerado moderado. No fim da reunião, o episcopado não emitiu documento oficial sobre o encontro, limitando-se a distribuir à imprensa um comunicado sobre os problemas debatidos, entre os quais foi salientada a questão da vida e do ministério dos presbíteros.

Em 28 de agosto de 1969, o presidente Costa e Silva foi acometido de uma trombose cerebral que o deixou hemiplégico. Na tarde do dia seguinte os ministros militares decidiram que a substituição normal pelo vice-presidente Pedro Aleixo “não parecia conveniente, uma vez que ele se havia incompatibilizado com as forças armadas, ao se pronunciar contra o AI-5”. O general Aurélio de Lira Tavares, o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Márcio de Sousa Melo comunicaram à nação no dia 31 o impedimento do presidente e formaram, através do AI-12, uma junta militar.

Como o estado de saúde de Costa e Silva não apresentasse sinais visíveis de melhora, em 16 de setembro a junta emitiu uma nota oficial comunicando que a substituição definitiva do presidente enfermo era inevitável e que já havia sido constituída uma comissão de três generais para encaminhar a questão sucessória.

A comissão efetuou uma consulta entre os oficiais superiores das três forças. Em 7 de outubro, a Secretaria de Imprensa da Presidência da República anunciou que o general Emílio Garrastazu Médici, comandante do III Exército, fora escolhido por seus pares. A 25 de outubro de 1969, o Congresso — reaberto três dias antes sem 93 de seus integrantes, cassados nos dez meses em que permanecera fechado — elegeu, por 239 votos contra 76 abstenções, o general Médici para a presidência e o almirante Augusto Rademaker para a vice-presidência da República.

Pouco depois, a reunião ordinária da comissão central da CNBB aprovou, por unanimidade, um documento que manifestava preocupação pelo alargamento dos conflitos ideológicos no seio da família brasileira e definia a pena de morte, instituída em setembro pelo AI-14, como fruto trágico desse clima. Segundo o documento, “ninguém contesta que o Brasil está em regime de exceção circunstancial e transitório”, achando, porém, “indispensável que o Brasil retorne à normalidade jurídica, mediante uma constituição capaz de consultar os reais interesses e anseios nacionais”. O documento sublinhava ainda a necessidade do funcionamento dos poderes Legislativo e Judiciário.

 

No Vaticano

Em 22 de outubro de 1970, foi nomeado prefeito da Sagrada Congregação para Evangelização dos Povos, órgão com sede no Vaticano e responsável pelo programa de evangelização de 106 países da África, Ásia e Oceania, bem como de 58 dioceses da América Latina, tornando-se o primeiro bispo sul-americano a exercer essa função. Na mesma ocasião foi aclamado grande chanceler da Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, onde são formados missionários do mundo inteiro.

Para seu lugar como arcebispo de São Paulo foi nomeado dom Paulo Evaristo Arns. Para a presidência da CNBB foi eleito em fevereiro de 1971 dom Aluísio Lorscheider. Interinamente o cargo foi ocupado por dom Vicente Scherer. Em junho de 1971, foi nomeado pelo papa Paulo VI membro da Congregação da Causa dos Santos, onde correm os processos de canonização, sem prejuízo das demais funções que exercia.

Com a morte do papa Paulo VI em novembro de 1978, os cardeais reunidos em conclave elegeram o cardeal italiano Albino Luciani, que adotou o nome de João Paulo I. No trigésimo terceiro dia após a investidura, João Paulo I faleceu. Agnelo Rossi foi cogitado para substituí-lo, mas, em conclave realizado em 14 de outubro de 1978, foi escolhido o cardeal polonês Karol Woytila, que adotou o nome de João Paulo II.

Em maio de 1979, chegou ao Brasil para recuperar-se de um edema pulmonar. Em entrevista à imprensa apoiou o encontro do presidente da CNBB, dom Ivo Lorscheiter, com o presidente João Figueiredo, declarando que a Igreja deve prestar-se “ao diálogo e colaboração com as autoridades do país para que se resolvam os ingentes problemas do povo brasileiro”. Sobre a anistia, que vinha sendo discutida em todo o país e seria afinal decretada em agosto, declarou que ela “significa perdão e, portanto, o perdão somente pode ser concedido se houver a conversão do infrator, não se pode perdoar criminosos e terroristas, sem que se saiba se, ao serem anistiados, não retornarão ao crime para abalar a paz”.

Em abril de 1981 comemorou o 25º aniversário de seu episcopado com nova visita ao Brasil, recebendo homenagens em todas as localidades onde serviu como bispo. Declarou através da imprensa que as relações entre a Igreja e o Estado no Brasil se encontravam num estágio novo e promissor, advertindo ainda que estava para ser lançada em fitas cassete uma campanha de conteúdo marxista para a politização das comunidades eclesiais de base (CEBs), feita por alguns teólogos da libertação da América Latina. Essa advertência estava contida numa carta em forma de mensagem dirigida “aos amigos do Brasil”, na qual se dizia conservador e progressista no bom sentido: “Não posso ser progressista a tal ponto de substituir teologia por antropologia, salvação integral por libertação política e escravidão ideológica, Igreja de Cristo por uma miserável organização humana que relativiza a verdade e a justiça, devendo marchar inexoravelmente segundo os ditames da praxis marxista.” Enalteceu o trabalho das CEBs, que, “bem entendidas, são verdadeiras sementeiras de cristãos que exigem união e submissão ao pároco, ao bispo, ao papa”. Acrescentou afinal que, sem essa submissão, as comunidades são utilizadas para “fomentar discriminações, lutas de classe, nacionalismos e o comunismo”. Em Belo Horizonte, o bispo de Vitória, dom Luís Fernandes, falando em nome de 25 bispos da Regional Leste da CNBB, declarou que o episcopado desconhecia a existência das fitas cassete que dom Agnelo denunciara. Em 31 de maio de 1981, em comunicado de Roma, Agnelo Rossi confirmou e documentou a denúncia. A campanha fora gravada em fitas cassete pela Rádio Dienst Vox Chistina, de Munique, na Alemanha Ocidental. Segundo dom Agnelo, o conteúdo da campanha envolvia “uma proposta pastoral avançada do Serviço Radiofônico para a América Latina (Serpal)”.

Em abril de 1984, dom Agnelo deixou a Congregação para a Evangelização dos Povos para assumir a Administração do Patrimônio da Sede Apostólica. Seus dotes de grande organizador, revelados no cargo anterior, habilitaram-no a administrar o patrimônio da Santa Sé, tornando-se, assim, uma espécie de ministro da Fazenda do Vaticano. A mudança de atribuições ocorreu no bojo de uma profunda reforma promovida por João Paulo II no governo central da Igreja Católica. A reforma, esperada desde 1978, quando João Paulo II iniciou seu pontificado, se processou na Cúria Romana, entidade encarregada dos assuntos religiosos da Santa Sé, e na estrutura administrativa do Vaticano, responsável pela gerência das questões temporais. O papa trocou os ocupantes desses cargos, redefiniu algumas funções, além de ter renunciado oficialmente ao governo civil do Vaticano, passando-o a um cardeal.

 Em agosto de 1984, o Vaticano divulgou um documento oficial no qual a Teologia da Libertação foi duramente criticada. De autoria do cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé e aprovado pelo papa João Paulo II, o extenso documento, intitulado Instruções sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, foi o primeiro a abordar o polêmico tema nas hostes religiosas, embora não se restringisse à sua análise. Em essência, examinava as relações entre injustiça social, pecado, libertação do homem e teologia, chegando a reconhecer a necessidade de uma autêntica teologia da libertação, desde que voltada preferencialmente para a libertação do homem do pecado, que seria o verdadeiro opressor do homem. Criticava ainda a “nova hermenêutica” da Teologia da Libertação, ou seja, a releitura essencialmente política que seus teólogos faziam dos textos sagrados, utilizando-se do arsenal teórico marxista. As divergências entre a Teologia da Libertação e as idéias de João Paulo II eram antigas, sendo o centro da questão muito mais a militância política da Igreja no que diz respeito à questão social do que as opções teológicas. O documento foi interpretado como uma firme disposição do papa João Paulo II em enquadrar parte do clero latino-americano, no qual há 20 anos se formava uma geração de religiosos dedicados à militância política e social. Seu conteúdo, que provocou reações negativas no clero do mundo inteiro, foi apoiado por dom Agnelo. Crítico contumaz da Teologia da Libertação, afirmou ser o documento “uma advertência, não uma condenação. A Igreja considera que a análise marxista é a antítese do espírito evangélico”.

Durante a visita do presidente José Sarney ao papa João Paulo II, em julho de 1986, dom Agnelo foi um de seus interlocutores mais freqüentes, para falar dos problemas nacionais e em particular dos atritos de seu governo com a cúpula da CNBB. O tema dominante na conversa com o papa foi a reforma agrária, que a entidade criticava por considerá-la lenta e tímida. Sarney comentou ainda a preocupação com a crescente politização do ensino religioso no Brasil e com a pregação sectária de cunho ideológico que vinha predominando nas escolas católicas. Falou-se também das dificuldades da Cúria Romana com a crescente radicalização esquerdista de alguns bispos brasileiros. Ao fim do encontro, dom Agnelo expôs suas posições e as da Cúria Romana, afirmando “ser um dever da Igreja trabalhar na promoção dos direitos humanos e defender a reforma agrária. Mas temos de vencer o mal pelo bem. A fórmula cristã é amar uns aos outros. O perdão, a reconciliação devem ser práticas usuais, não a luta de classes, a invasão de terras...”    

Ainda em 1986, dom Agnelo foi eleito decano do Sacro Colégio de Cardeais, um dos postos mais elevados na hierarquia da Igreja, que o autorizava a desempenhar várias funções administrativas no Vaticano. Em abril de 1987, durante as comemorações pelos seus 50 anos de sacerdócio, defendeu um novo trabalho de evangelização no mundo, a ser conduzido e desenvolvido pelos bispos de cada país, diante da multiplicação de seitas religiosas que difundem idéias falsas acerca da fé. Como integrante da Comissão de Negócios Extraordinários do Vaticano, reiterou o apelo feito pelo papa João Paulo II aos católicos de todo o mundo para que aumentassem suas contribuições à Igreja, visando a atenuar o enorme déficit orçamentário da Santa Sé. Dom Agnelo negou que em seu encontro com o arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, tenha feito uma advertência pela participação da arquidiocese no episódio de uma invasão de terras na zona leste da cidade.

Por ocasião de uma visita ao Brasil, em abril de 1988, dom Agnelo encontrou-se com o presidente José Sarney. À saída da audiência, afirmou que missionários estrangeiros estavam prejudicando as relações entre o Brasil e o Vaticano com a divulgação de notícias, exageradas na sua opinião, sobre o genocídio de índios no Norte do país. Via nesse caso a razão da desconfiança do governo brasileiro na concessão de vistos para entrada de missionários, que desde então passaram a ser criteriosamente selecionados.

No início de 1989, as revistas italianas Panorama e L’Expresso acusaram dom Agnelo de envolvimento no escândalo do Banco Ambrosiano-Instituto para as Obras Religiosas. De acordo com essas publicações, ele teria participado das negociações da compra de documentos secretos do banqueiro Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano — que mantinha estreitas relações com o IOR, conhecido como o Banco do Vaticano — responsável pelo desvio de um bilhão e quatrocentos mil dólares. Da direção do banco participava minoritariamente o IOR, através do seu então presidente, o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, amigo de Calvi. O banqueiro fora encontrado enforcado sob uma ponte de Londres, em junho de 1982. Nessa época, dom Agnelo teria mantido contato com o comerciante italiano Flávio Carboni para obter documentos secretos comprometedores para a Santa Sé. A intrincada trama envolvia ainda o bispo Pavel Hnlika, intermediador do encontro entre dom Agnelo e Carboni, e o especulador Giulio Lena, ambos empenhados na negociação de tais documentos, que Calvi trazia consigo quando morreu e que demonstravam sua dívida com o IOR. Segundo L’Expresso, Lena estava convencido de que o Vaticano se interessaria pela compra dos documentos e pagaria um milhão de dólares para adquiri-los. Dom Agnelo negou seu envolvimento no escândalo, admitindo, contudo, seu encontro com Carboni, mas afirmou que advertira o bispo Pavel para que evitasse prosseguir com os entendimentos e que ainda havia sugerido a Marcinkus sua demissão do IOR, para não envolver a Santa Sé num caso que ela ignorava.

Em entrevista ao Jornal do Brasil em março do mesmo ano, externou sua opinião sobre os teólogos progressistas, criticando-os por não terem seguido “a via da evangelização, mas o caminho político-partidário, emocional, faccioso, mais ou menos materialista, de inspiração e prática marxista”. Disse preferir a expressão “amor preferencial pelos pobres” em vez de opção, por esta ser uma expressão sociológica e não evangélica, sendo ainda exclusivista e restritiva. Na sua opinião, o comunismo era o grande inimigo da Igreja.

Em julho de 1989, em plena campanha presidencial para a primeira eleição direta em quase 30 anos, alertou o episcopado brasileiro para não influenciar o povo em favor de um candidato específico, lembrando que “a Igreja está fora e acima dos partidos”. Sua advertência foi uma clara alusão à manifestação de apoio do bispo de Duque de Caxias, dom Mauro Morelli, ao candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luís Inácio da Silva, comentando ainda que “não é uma declaração de um bispo que responde pelo episcopado brasileiro, mas sim uma declaração oficial da CNBB, que já informou não ter preferências por esse ou aquele candidato”, numa referência a dom Luciano Mendes de Almeida, presidente da entidade, que defendia a liberdade de manifestação dos religiosos. Dom Agnelo declarou que esperava do sucessor de Sarney o respeito aos direitos civis e religiosos do povo, defendendo eleições simultâneas para a presidência da República e o Congresso.

Em dezembro de 1989, o papa João Paulo II aceitou o pedido de renúncia de dom Agnelo da presidência da Administração do Patrimônio da Sede Apostólica. Permaneceu, no entanto, como decano do Colégio Cardinalício, do Conselho para os Negócios Públicos da Igreja, da Congregação para a Doutrina da Fé, para os Bispos, para as igrejas Orientais, para o Clero, Religiosos e Institutos Seculares, para a Causa dos Santos e para a Educação Católica. Na verdade, seu pedido de renúncia à presidência da administração já havia sido apresentado ao papa desde maio do ano anterior, quando completara 75 anos, conforme determina o Código de Direito Canônico. Mas, por solicitação do papa, permaneceria excepcionalmente até o ano seguinte, para ajudar com sua experiência na reforma do Banco do Vaticano.

Em virtude de seu delicado estado de saúde, solicitou ao papa João Paulo II em 1993 permissão para retornar ao Brasil. De volta ao país, onde estivera no ano anterior para submeter-se a um tratamento médico, passou a morar no distrito de Helvétia, município de Indaiatuba (SP).

Faleceu em 21 de maio de 1995, sendo sepultado na basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, que ajudara a erguer desde seu retorno ao Brasil. Em nota divulgada pelo Vaticano, o papa João Paulo II disse que “agradecia a Deus por ter entregue à Igreja uma figura tão eminente”.

Dom Agnelo foi ainda membro do Instituto Histórico de São Paulo, do Conselho Episcopal Latino-Americano e do Comitê Latino-Americano da Fé.

Publicou Diretório protestante no Brasil (1938), Formação de estagiários da Ação Católica (1944), Filosofia do comunismo (1947), Preparação para o casamento (1952), Diretri-zes pastorais (1969) e Brasil: integração de raças e nacionalidade (1991).

 

FONTES: CONFERÊNCIA NAC. BISPOS DO BRASIL; COUTINHO, A. Brasil; Efemérides paulistas; Estado de S. Paulo (1, 3, 10, 12, 14, 15 e 24/5 e 20/6/81, 7 e 8/4/87, 22/4/88, 31/10, 8/12/89, 23/5/95); Folha de S. Paulo (10 e 16/5/81); GARDEL, L. Armoiries; Globo (10/6/79, 2, 4, 12, 16 e 21/5/81, 29/7/89); Grande encic. Delta; Jornal do Brasil (8/4/ 77, 5/10 e 1/11/78, 23/1 e 6/6/79, 2, 4, 11, 15, 16 e 18/5/81, 26/3 e 15/8/89); MAGALHÃES, I. Segundo; Veja (20/4/77, 18/4 e 5/9/84).

 

 

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