SAYAD, JOAO

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Nome: SAYAD, João
Nome Completo: SAYAD, JOAO

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

SAYAD, João

*min. Planej. 1985-1987.

 

João Sayad nasceu na cidade de São Paulo no dia 10 de outubro de 1945, filho de Luís Sayad e Iolanda Sayad.

Diretor do Centro Acadêmico Visconde de Cairu, em 1965, bacharelou-se em economia pela Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) em 1967. No ano seguinte, tornou-se professor do Departamento de Economia da FEA/USP, concluindo o curso de mestrado em economia no Instituto de Pesquisas Econômicas (IPE) da FEA/USP em 1970.

Transferindo-se em 1973 para os Estados Unidos, obteve o título de Master of Arts na Universidade de Yale, na qual completaria sua formação acadêmica com o Philosophy Doctor (PhD) em economia em 1976. Pesquisador do IPE desde 1974, tornou-se livre-docente do Departamento de Economia da FEA/USP em 1978. No mesmo ano, assumiu também o cargo de secretário-executivo da Associação Nacional de Centros de Pós-Graduação em Economia, no qual permaneceria até 1980.

Nomeado vice-diretor do IPE em 1979, nesse mesmo ano foi consultor do Banco Mundial no estudo de crédito rural. Professor-adjunto do Departamento de Economia da FEA/USP em 1980, tornou-se também editor da revista Estudos Econômicos do IPE, cargo que exerceu até 1982. Ainda no mesmo ano, passou a integrar o Sindicato dos Economistas, da Ordem dos Economistas, e foi candidato da oposição (Movimento de Renovação) a delegado eleitor.

Deixando a vice-diretoria do IPE em 1983, nesse mesmo ano afastou-se da área acadêmica para assumir a Secretaria da Fazenda de São Paulo, no governo de Franco Montoro (1983-1987). Durante sua gestão, recuperou a arrecadação do Imposto de Circulação de Mercadorias (ICM) no estado, saneou as finanças das estatais e desenvolveu o modelo de austeridade contra o empreguismo. Em 1984, tornou-se membro do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE).

Com os resultados obtidos como secretário da Fazenda, obteve o aval para o cargo de ministro do Planejamento do governo de Tancredo Neves, candidato da frente oposicionista Aliança Democrática eleito pelo Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985. Deixando a Secretaria da Fazenda de São Paulo no início de março desse ano, foi empossado no dia 15 desse mês, sucedendo na pasta Antônio Delfim Neto.

A Nova República, como foi denominado o novo governo, enfrentou várias crises, sendo a primeira e mais grave a doença do presidente eleito indiretamente, internado em março de 1985 antes mesmo de sua posse. Após a morte de Tancredo Neves, em 21 de abril, e com a posse definitiva de Sarney, João Sayad assumiu um papel de maior importância política. Representante no setor econômico do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), base de sustentação do governo, passou a dividir decisões com o ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo e representante do Partido da Frente Liberal (PFL) que, com a nova situação, perdeu força política.

Integrante do grupo novos economistas paulistas (formado por José Serra, Luciano Coutinho, Marcos Fonseca e André Franco Montoro Filho, entre outros), João Sayad era contra a política econômica de juros altos e corte nos gastos públicos defendida por Dornelles. Colocou-se abertamente a favor da baixa imediata dos juros pelo Banco Central, entre outras medidas, criando com isso duas correntes dentro do comando econômico no governo Sarney e aglutinando ao seu redor as forças que queriam afastar o ministro da Fazenda. No início de julho, enquanto Dornelles esperava que a Secretaria de Planejamento promovesse um corte de 30 a 35 trilhões de cruzeiros nas estatais para diminuir o déficit público, João Sayad admitia chegar no máximo a 24 trilhões, argumentando que não queria comprometer a saúde financeira daquelas empresas. As divergências entre eles não foram resolvidas, mas Sarney decidiu ficar com a posição do grupo de Sayad, aprovando um corte de 28,6 trilhões de cruzeiros.

Em setembro daquele ano, com o desgaste de Francisco Dornelles, o seu consequente pedido de demissão e a sua substituição na pasta da Fazenda pelo empresário Dílson Funaro, João Sayad tornou-se o principal interlocutor do novo ministro na condução da política econômica do governo.

Mas com a inflação alcançando dois dígitos em janeiro de 1986, a política econômica do governo, sustentada por controles parciais de preços com aumentos salariais, começou a dar sinais de perda de controle. Em fevereiro seguinte, o presidente Sarney promoveu uma reforma do ministério, reduzindo a participação do PMDB e dando ao PFL 70% do poder econômico do ministério. Mesmo assim, Sayad continuou no cargo e junto com Funaro, amigo do presidente Sarney, recebeu a incumbência de baixar a inflação até abril, com controle de preços e salários.

 

O Plano Cruzado

No dia 1º de março de 1986, o presidente Sarney anunciou a criação do Plano Cruzado, com a substituição do cruzeiro pela nova moeda corrente no Brasil, o cruzado (obtido com a eliminação de três zeros das notas de cruzeiros e a introdução do símbolo CZ$). O plano trazia a desindexação da economia, com a substituição da correção monetária pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e o congelamento de preços e salários. O ministro Dílson Funaro dirigiu e João Sayad acompanhou o grupo que trabalhou na elaboração do plano, composto entre outros por Pérsio Arida e Andréa Calabi, assessores do Planejamento; Luís Gonzaga Belluzzo, chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda; João Manuel Cardoso de Melo, assessor especial de Dílson Funaro; Fernão Bracher, presidente do Banco Central (BC); Edmar Bacha, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Francisco Lopes, assessor especial de Sayad, e o economista André Lara Resende, também do BC.

Diante de problemas com o abastecimento dos produtos e o crescente descumprimento das tabelas e listas de preços congeladas com a cobrança de ágio, a diferença a mais paga sobre o preço tabelado, o governo lançou em julho um novo pacote de medidas. As equipes de Sayad e Funaro apresentaram o que foi chamado de “poupança compulsória”, percentuais de 25 a 30% que passariam a incidir sobre duas categorias de produtos — gasolina e álcool e o comércio de carros — e aumentaram em 25% as passagens aéreas internacionais. O presidente Sarney anunciou as medidas explicando que as receitas geradas pelo empréstimo compulsório seriam destinadas ao recém-criado Fundo Nacional de Desenvolvimento (FND), preparado por João Sayad. O objetivo era a aplicação de cem bilhões de dólares em investimentos sociais e a fundo perdido, como a distribuição gratuita de leite a crianças carentes, e em obras de infraestrutura pública nas áreas de energia, aço, transportes e comunicações, para possibilitar o aumento na produção das indústrias.

Entretanto, com o problema de desabastecimento de carne cada vez mais grave, as primeiras desavenças entre a equipe econômica do governo começaram a surgir. Enquanto o ministro Dílson Funaro anunciava acordos feitos com os pecuaristas e até medidas drásticas para retirar o gado das fazendas, o ministro Sayad afirmava que tal procedimento seria inútil e não resolveria a questão. Os pontos de vista de Funaro e Sayad não convergiam, o que dificultava a definição das mudanças no Plano Cruzado. Em outubro, Sayad voltou a discordar da necessidade de cortes nos gastos públicos, exatamente o contrário do que o ministro Funaro afirmava.

Apesar da falta de consenso entre a equipe econômica, logo após as eleições de 15 de novembro de 1986 novas medidas foram anunciadas para conter a demanda, que continuava crescendo num ritmo maior do que a capacidade de produção das indústrias. Com a vitória do PMDB nas urnas, Funaro e Sayad anunciaram o pacote econômico que trouxe aumentos de 100% (cerveja e cigarro), 80% (carros novos) e 60% (gasolina e álcool) e um novo índice de inflação, o Índice de Preços ao Consumidor Restrito (IPCR), e no qual só seriam computadas as variações de preços nos itens de transporte, alimentação e moradia. No entanto, os entendimentos do ministro do Trabalho, Almir Pazzianotto, com os sindicalistas, em torno de um pacto social, derrubaram o novo índice defendido por Funaro e Sayad.

Acometido de meningite em fevereiro de 1987, João Sayad afastou-se por duas semanas do governo, tornando-se cada vez mais um estranho na equipe econômica. De volta ao trabalho em março, durante viagem do ministro Funaro ao exterior, Sayad apresentou ao presidente Sarney um plano de estabilização da economia propondo um novo choque, congelamento e o fim do gatilho salarial. Consultado sobre o assunto, Funaro foi contra. Desgastado, Sayad pediu demissão em março.

Ainda em 1987, retornou à função de professor da FEA/USP. Em maio de 1988, assumiu o cargo de presidente do Banco SRL S.A., instituição que fundou em São Paulo com Philippe Reichstul e Francisco Luna para financiamentos de comércio exterior, financiamento e consultoria para empresas, mercado de capitais e gerenciamento de investimentos.

No fim da década de 1980, a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (FIERGS) encomendou o Relatório Sayad, através da contratação da consultoria de João Sayad. O objetivo era de realizar um diagnóstico do setor público do Estado do Rio Grande do Sul. Em janeiro de 1989, a entidade lançou um documento baseado nesse diagnóstico, intitulado Rio Grande do Sul: eficácia na administração avaliação do setor público.

Em março de 1993, tornou-se articulista do jornal Folha de S.Paulo, escrevendo artigos na coluna “Opinião Econômica”.

Nesse mesmo mês, em seminário sobre reforma fiscal realizado em São Paulo, recomendou que o governo do presidente Itamar Franco (1992-1994) desse prioridade à redução da inflação, para então promover uma reforma fiscal. A reforma deveria definir uma forma de financiamento da previdência social, discutir os incentivos fiscais ao Nordeste para torná-los produtivos, concentrar-se nos tributos sobre o valor agregado e imposto de renda, assim como buscar “uma sociedade mais justa mediante a incorporação, dentro de alguns anos, de um imposto sobre heranças”.

Em artigo publicado em maio daquele ano, considerou serem as causas principais da espiral inflacionária o déficit público, o desequilíbrio patrimonial do setor público, ineficiências estruturais da economia, a rigidez de preços dos setores oligopolizados e a excessiva flexibilidade de preços competitivos e o conflito entre salários e lucros. Para superar esse quadro, aconselhava um acordo de preços, salários e câmbio em que o governo daria incentivos fiscais temporários para o setor empresarial aderir ou ainda prefixaria o câmbio, de forma acordada e pré-anunciada, garantindo o ritmo das exportações por incentivos fiscais temporários e a rentabilidade para os exportadores. Os trabalhadores teriam correções de salários que não trouxessem a inflação alta do passado para os meses em que ela estivesse caindo. Sayad acreditava que o ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, reunia condições de fazê-lo não apenas por sua capacidade de liderança política, mas também pela confiança nele depositada por empresários e trabalhadores.

Em julho de 1994, um mês após a implantação do chamado Plano Real, considerou positivos os números relativos ao comportamento da base monetária. Ele esperava uma inflação declinante nos meses seguintes e que a vitória de Fernando Henrique Cardoso, candidato à presidência da República pelo Partido Social Democrático Brasileiro (PSDB), trouxesse mais chances de levar adiante as reformas estruturais para reduzir a inflação.

Em janeiro de 1995, pouco depois da posse de Fernando Henrique, analisou a estratégia do Plano Real tendo como parâmetro a crise do México. Esse país, apesar de atender aos requisitos fundamentais da cartilha do Consenso de Washington (déficit público zero, privatização, desregulação e livre comércio), teve déficit comercial elevadíssimo, viu os investidores internacionais (os autores da cartilha) se assustarem e levarem os dólares para casa.

Para Sayad, o plano tivera prudência até a data das eleições, mas exagerada depois dela. Essa prudência demasiada era em relação ao controle da quantidade da moeda, o que impedia a livre entrada de dólares e aumentava o déficit público, impossibilitando que a economia usufruísse as vantagens da dolarização. Em contrapartida, era pouco prudente na sobrevalorização do real em relação ao dólar, provocando a destruição do superávit comercial.

Em fevereiro de 1996, em debate promovido pela Folha de S.Paulo, Sayad afirmava que se fizesse parte da equipe econômica do governo mudaria duas coisas na implantação e na condução do Plano Real. Não reduziria as tarifas de importação da forma drástica como fora feito, mas faria a abertura comercial de forma gradual, “à paulista”. Ele também não deixaria o câmbio valorizar-se tanto como fez a equipe econômica. O fracasso do cruzado, que ele creditava ao crescimento incontrolável da demanda agregada, servia de lição para o Plano Real. Era melhor usar reservas cambiais, mesmo que especulativas, para conter a demanda. Em sua opinião, a reforma fiscal não tinha grande importância na continuidade da estabilização econômica do país, considerando ainda o sistema tributário brasileiro muito bom, “comparável ao dos países mais desenvolvidos do mundo”.

Em janeiro de 1997, Sayad reiterou críticas a alguns aspectos da política econômica e se declarou desanimado depois de dois anos e meio de trégua inflacionária, que não teriam sido aproveitados nem para crescimento econômico, nem para investimentos sociais relevantes. Mesmo assim, declarou-se a favor da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, justificando que ele tinha conseguido assegurar um apoio majoritário para o seu governo, tarefa quase impossível no Brasil devido à inexistência de grupos de interesses de suficiente abrangência para que pudessem ser chamados de públicos. Em sua opinião, não havia outro candidato, não existiam outras ideias.

No início de setembro, a imprensa noticiou que o Banco SRL, comandado por Sayad, tivera 50% do seu capital comprado pelo American Express Bank, uma subsidiária da American Express Company, uma das maiores instituições bancárias dos Estados Unidos. Dessa operação, surgiu o Inter American Express, com um patrimônio de cem milhões de dólares. O novo banco deveria concentrar suas atividades na administração de fundos de pensão, clientes institucionais e private bank.

Em março de 1998, Sayad participou do seminário “Um projeto de desenvolvimento para o Brasil”, promovido pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em São Paulo, a convite do candidato do partido à presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva. A plateia era formada por dirigentes do PT, parlamentares e sindicalistas. A presença de Sayad, do empresário Antônio Ermírio de Morais e do senador José Serra (PSDB-SP) causou polêmica entre as facções radicais do PT.

De 2001 a 2003, foi secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da prefeitura de São Paulo durante a administração de Marta Suplicy. Em setembro de 2004, tornou-se vice-presidente de Finanças e Administração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em 2007, foi nomeado secretário da Cultura de São Paulo pelo governador José Serra.

Ao longo de sua trajetória profissional, João Sayad foi também assessor da Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), membro do Conselho Fiscal do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), vice-diretor do Departamento de Estudos Econômicos da Sociedade Rural Brasileira e representante junto ao Conselho de Orientação do Instituto Roberto Simonsen. Foi também consultor-técnico do Instituto de Pesquisas, Estudos e Assessoria do Congresso (IPEAC), membro da Comissão de Economia da CAPES/MEC para a instituição do curso de pós-graduação na Universidade de Campinas (Unicamp) e Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, participou do Conselho Editorial da Revista Econômica do Nordeste e tornou-se membro da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (ADUSP).

Casou-se com Maria Lúcia Sayad, com quem teve duas filhas.

 

Márcia Quarti/Sônia Zylberberg

 

FONTES: Estado de S. Paulo (16/3/93, 7/8/94 e 10/3/98); Folha de S. Paulo (17/12/92, 29/5/93, 28/2/96, 27/1/97 e 4/4/2009); Jornal do Brasil (9/11/92, 22/1/95 e 3/9/97); Folha Online (1/12/06); Ministério do Desenvolvimento Social; Jornal Zero Hora (11/3/04); Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (4/3/08).

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