Vicente Cervi Chelotti

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Nome: CHELOTTI, Vicente
Nome Completo: Vicente Cervi Chelotti

Tipo: BIOGRAFICO


Texto Completo:

CHELOTTI, Vicente

*dir.-ger. DPF 1995-1999; dep. fed. DF 2006-2007

 


Vicente Cervi Chelotti nasceu em Faxinal do Soturno (RS) no dia 27 de setembro de 1950, filho de Alexio Chelotti e de Dileta Maria Cervi Chelotti.

Fez o curso primário no Colégio São Domingos Sávio (1958-1961) e os cursos ginasial e clássico no Colégio Dom Antônio Reis (1962-1970), em sua cidade natal. Ingressou no Departamento de Polícia Federal (DPF) em 1972, concluindo no ano seguinte o curso de formação de agente na Academia Nacional de Polícia, em Brasília. Em 1974, em Recife, participou de um curso de combate a entorpecentes, ministrado pela agência governamental norte-americana Drug Enforcement Administration (DEA) e chefiou a seção de operações da Delegacia de Entorpecentes do DPF no estado de Pernambuco. Em 1976 bacharelou-se pela Faculdade de Direito de Cruz Alta (RS) e passou a ocupar o posto de delegado-executivo da Divisão da Polícia Federal em Santa Maria (RS). No ano seguinte, ainda na divisão de Santa Maria, foi designado chefe do Serviço de Informações.

Em 1979, em Brasília, participou do curso de segurança de dignitários ministrado pela Escola Nacional de Informações do Serviço Nacional de Informações (Esni/SNI) e tornou-se encarregado de segurança da Presidência da República. Fez também os cursos de formação de delegado de Polícia Federal, oferecidos pela Academia Nacional de Polícia, em 1980, e o de busca e informação ministrado pela Esni/SNI, em 1981. A partir daí estabeleceu-se em Brasília, ocupando sucessivos cargos de chefia na Superintendência Regional do DPF, especialmente nas atividades de polícia fazendária, chefiando a Seção de Operações em 1980, o Serviço de Segurança de Dignitários, em 1981 e 1982, a Delegacia de Polícia Fazendária, em 1983, e o Serviço de Polícia Fazendária da Coordenação Central de Polícia, em 1984 e 1985.

Em 1985 foi eleito, para um mandato de dois anos, presidente da Associação Nacional dos Servidores do Departamento de Polícia Federal (Ansef). Em 1986 participou da Comissão de Combate ao Contrabando do Ministério da Fazenda. Reelegeu-se presidente da Ansef, e entre 1987 e 1990 voltou a responder por algumas chefias que já exercera anteriormente, todas em Brasília. De 1991 a 1993 esteve a serviço do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dirigiu a Subsecretaria de Segurança e Transporte desse órgão. Em 1992 participou dos cursos de chefia e liderança e de gerenciamento empresarial, ambos promovidos pelo STJ. No biênio 1993-1994, foi presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) e vice-presidente da Confederação Nacional dos Delegados de Polícia.

À frente da ADPF, em julho de 1993 posicionou-se contra o ministro da Justiça, Maurício Correia, no episódio da demissão do diretor-geral do DPF, Amauri Galdino, acusado de omissão na vigilância a Paulo César Farias, principal responsável pelo esquema de corrupção montado em torno do ex-presidente Fernando Collor de Melo (1990-1992). Pronunciou-se também contra a nomeação de um militar, o coronel Wilson Romão, para substituir Galdino. Ainda no segundo semestre de 1993, liderou greve nacional da categoria, reivindicando reposição de perdas salariais. A greve foi encerrada com a intervenção do Exército na sede e nas superintendências regionais do DPF.

Sua nomeação como diretor do Departamento de Polícia Federal foi conturbada. Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fora eleito presidente da República em outubro de 1994, tendo como principal oponente Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). Ao instalar seu ministério, deu a pasta da Justiça ao jurista e ex-deputado federal gaúcho Nélson Jobim, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Jobim indicou Vicente Chelotti, seu amigo desde os tempos de Santa Maria, para diretor-geral do DPF, esbarrando na resistência do presidente Fernando Henrique e da área militar, que não queriam no cargo um líder sindical. Aroldo Boschetti Soster, anunciado como titular pelo presidente eleito, viu-se na contingência de recusar o convite, pressionado pelos superintendentes regionais e pelo diretor-geral em exercício, coronel Wilson Romão.

Por fim, Chelotti foi nomeado em 15 de fevereiro de 1995. Em abril veio a público a denominada Operação Poeira, de combate ao tráfico de drogas, inaugurando procedimentos que iriam ser recorrentes durante toda a sua gestão: identificação de suspeitos, grampeamento de telefones com ou sem ordem judicial, gravação de fitas, descobertas de fatos comprometedores extrapolando os objetivos das investigações, elaboração de dossiês públicos e secretos sobre personalidades do governo. Em maio, defrontou-se com o primeiro grande desafio à frente do DPF: no dia 3 a Federação Única dos Petroleiros (FUP) liderou greve nacional que prejudicou substancialmente a produção e a distribuição de derivados de petróleo no país. A greve foi julgada abusiva pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), e os petroleiros sofreram severas represálias. Com o fim do movimento, adotou mais um procedimento que se tornaria usual em sua gestão: determinou a abertura de inquérito policial, atendendo a pedido do ministro da Justiça, para apurar responsabilidades relativas a ações consideradas prejudiciais ao Estado.

Em outubro participou da 64ª Reunião da Assembleia Geral da OIPC-Interpol, realizada em Pequim. Ao regressar da China, encontrou a Polícia Federal atacada pela imprensa por seus equívocos no inquérito sobre a explosão de um livro-bomba no palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Sua atitude foi substituir imediatamente os investigadores por uma equipe trazida do Rio de Janeiro.

De novembro de 1995 a fevereiro de 1996 envolveu-se em um episódio policial e político, cuja origem foi a divulgação, pela revista IstoÉ, de trechos de fitas gravadas por meio de escuta ilegal de telefone do chefe do Cerimonial da Presidência da República, embaixador Júlio César Gomes dos Santos. As fitas revelavam a atuação do dono da empresa Líder Táxi Aéreo, José Afonso Assunção, junto a Júlio César e ao ministro da Aeronáutica, brigadeiro Mauro Gandra, para tratar dos interesses da empresa norte-americana Raytheon. Essa empresa disputava com um grupo francês o contrato para a implantação do projeto de monitoramento do espaço aéreo da Amazônia, denominado Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), de grande significado econômico, estratégico e militar não só para o Brasil, mas também para as grandes potências mundiais. Com o escândalo, Gandra foi exonerado, e o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Francisco Graziano, acusado de ser o autor intelectual do “grampo”, foi instado a se demitir. Quanto a Chelotti, foi acusado de ter autorizado escuta telefônica sem ordem judicial e de não ter comunicado o fato ao ministro da Justiça, seu superior imediato. Ainda em dezembro, empenhou-se na exoneração dos quadros da Polícia Federal do delegado Edson Antônio de Oliveira, ex-superintendente regional do Rio de Janeiro e ex-chefe da Interpol do Brasil, acusado de enriquecimento ilícito. O fato provocou desgaste para o senador e ex-diretor-geral do DPF Romeu Tuma, que tinha Edson como estreito colaborador, e para o PSDB, partido em cuja legenda Tuma se candidatara a deputado federal.

Em janeiro de 1996 a Polícia Federal prendeu seis militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região do Pontal do Paranapanema (SP), entre eles Diolinda Alves de Sousa, esposa de um dos líderes do movimento, José Rainha, então foragido. O fato provocou protestos em todo o país e no exterior, e os detidos foram libertados em março. No dia 17 de abril, a Polícia Militar do Pará atirou contra trabalhadores sem-terra que tinham bloqueado uma estrada em Eldorado dos Carajás (PA), assassinando 19 pessoas. O massacre causou comoção nacional e repercussão internacional. Coube a Chelotti determinar, a pedido do procurador-geral da República, a reconstituição do inquérito conduzido pela Polícia Civil do Pará, cujo relatório final incriminava três líderes do MST por incitamento à violência contra a Polícia Militar. O novo relatório, concluído no final do ano, indiciou todos os policiais que participaram do massacre, inclusive o coronel Mário Pantoja, comandante da operação.

Paralelamente ao monitoramento do MST, Chelotti anunciou a criação de grupos especiais de combate ao crime organizado, à lavagem de dinheiro, ao narcotráfico, à pedofilia, a crimes ambientais, à violação dos direitos humanos, ao contrabando etc. Viajou para intercâmbio à Hungria, Uruguai, Argentina, Taiwan e Estados Unidos, onde fez o curso de gerenciamento de crises ministrado pelo Federal Bureau of Investigation (FBI). Em outubro, participou da 65ª Reunião da OIPC-Interpol, na Turquia.

No início de 1997 deflagrou operação para desarmar a população civil do sul do estado do Pará, onde eram frequentes os conflitos armados motivados por questões de terra. Em março viajou à Itália para implementar um acordo de cooperação contra o crime organizado e o tráfico de drogas. Em abril participou da Reunião dos Chefes Nacionais de Polícia do Mercosul, Chile e Bolívia realizada no Uruguai, tendo sido eleito vice-presidente do conselho representativo dessas autoridades.

Em maio, Nélson Jobim deixou o Ministério da Justiça para se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), sendo substituído pelo ex-senador Íris Resende (PMDB). Apesar das pressões, Chelotti foi mantido no cargo. Em junho, ao voltar do Canadá, onde participara de mais uma reunião da OIPC-Interpol, tomou conhecimento de documento confidencial do Centro de Informações do Exército (CIE) no qual era acusado de ineficiente no combate ao narcotráfico e de não aceitar o comando dos militares em operações conjuntas.

Em abril de 1998, o Ministério da Justiça mudou uma vez mais de comando. O novo titular, o senador alagoano Renan Calheiros, também o manteve em seu posto. No mesmo mês a imprensa denunciou a existência de contrato de compra de equipamentos franceses para a Polícia Federal, assinado sem licitação em 31 de março pelo então ministro Íris Resende. O contrato era no valor de 454,6 milhões de dólares, financiados pela França. O fato trouxe à tona o caso Sivam, pois os equipamentos seriam utilizados no programa de modernização do DPF e no projeto Pró-Amazônia, destinado a monitorar todo o espaço terrestre da Amazônia, complementando o projeto Sivam. Esmiuçando o assunto, a imprensa descobriu que, enquanto o projeto de controle aéreo ficara a cargo da Raytheon Co., o projeto relativo à parte terrestre fora confiado à empresa governamental francesa Atech. Na ocasião, Chelotti manifestou-se enfaticamente em defesa do contrato, no que foi apoiado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e pelos ministérios da Aeronáutica e da Justiça.

Em maio, a Polícia Federal identificou e denunciou 17 líderes do MST e pediu a prisão preventiva do coordenador nacional do movimento, João Pedro Stédile, acusando-os de incitar pessoas a saquear depósitos e caminhões de mantimentos do governo, no Nordeste. No mesmo mês, Calheiros articulou a criação de uma comissão com representantes do DPF, do Ministério da Justiça, da Procuradoria Geral da República e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para, em 15 dias, proceder a uma devassa saneadora na Polícia Federal. No episódio Chelotti contestou o procurador-geral, Geraldo Brindeiro, que denunciara corrupção generalizada no interior do órgão.

Em novembro houve mais um escândalo envolvendo escuta telefônica ilegal: o caso dos “grampos” no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Um dos resultados do episódio foi a exoneração do ministro das Comunicações, Luís Carlos Mendonça de Barros, e do presidente do banco, André Lara Resende, acusados de comportamento antiético durante o processo de privatização da Telebrás. Outra consequência foi o acirramento da disputa entre as áreas de inteligência do DPF e da Casa Militar da Presidência da República, empenhada na criação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Chelotti reuniu indícios que apontavam como autores do “grampo” agentes vinculados à Casa Militar, causando embaraços a seu chefe, o general Alberto Cardoso. Ainda no final do ano, o DPF perdeu espaço no governo com a criação da Secretaria Nacional Antidrogas, diretamente vinculada à Presidência da República.

Em dezembro surgiram denúncias da existência de empresa receptora de capitais sem origem declarada sediada nas ilhas Cayman, supostamente pertencente ao presidente Fernando Henrique, ao falecido ministro das Comunicações Sérgio Mota, ao ministro da Saúde, José Serra, e ao governador de São Paulo, Mário Covas, todos do PSDB. Chelotti viajou ao local para investigações e ao retornar declarou que o presidente, empossado para um segundo mandato em 1º de janeiro de 1999, seria chamado a depor sobre o assunto. Em 3 de março a revista Carta Capital publicou reportagem, reproduzida posteriormente pela imprensa em geral, revelando trechos de 38 fitas gravadas por meio de escuta telefônica ilegal, em que Chelotti teria feito comentários ofensivos ao presidente e a outras altas autoridades da República. Dias depois, Chelotti foi exonerado da direção-geral do DPF.

Relatórios do DPF creditam à sua gestão, entre outras iniciativas, a criação do Fundo de Aparelhamento e Modernização (Funapol), a exigência de curso superior para ingresso no órgão, a reabertura da Academia Nacional de Polícia, a nomeação de 3.500 novos policiais federais, a instalação de adidos policiais na Argentina, Paraguai e Colômbia, a prisão dos assassinos do líder seringueiro ecologista Chico Mendes, da fraudadora do INSS Jorgina de Freitas e de 39 mafiosos, o desbaratamento da denominada “gangue fardada” composta por policiais de Alagoas, além da apreensão de 118 toneladas de drogas.

Em outubro de 1999 Chelotti foi transferido, como delegado, para a Superintendência Regional do DPF no estado de Goiás. Dois anos depois, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). No pleito de 2002 candidatou-se a deputado federal pelo Distrito Federal na legenda peemedebista e obteve uma suplência. De 2003 a 2006, trabalhou como advogado no grupo Lemos e Miranda, em Brasília. Nesse ínterim, em 2004 foi nomeado secretário adjunto do Trabalho do Distrito Federal, cargo que ocupou até 2005. Nesse ano tornou-se assessor jurídico da Câmara Distrital.

Como suplente, assumiu o mandato na Câmara dos Deputados entre 7 de março e 5 de abril de 2006, e mais uma vez no dia 7 de abril, permanecendo até o final da legislatura em janeiro de 2007. Na Câmara dos Deputados, participou como membro titular da Comissão Permanente de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado.

Ao deixar a Câmara, retornou para Polícia Federal, na qual permaneceu atuando em defesa dos servidores da mesma como categoria.

 

Casou-se com Carmita Brugnara Chelotti, com quem teve dois filhos.

 

Sinclair Cechine/Sabrina Guerghe

 

FONTES: Almanaque Abril (1997); Câmara dos Deputados. Repertório (2003-2007); CURRIC. BIOG.; Jornal do Brasil (18/02/1995, 23/11/1995, 24/11/1995, 28/11/1995, 01/11/1995, 07/12/1995, 27/08/1997, 18/06/1998 e 23/06/1998); Jornal Folha de São Paulo (03/06/1995, 03/03/1998, 18/04/1998, 10/05/1998, 13/05/1998 e 23/06/1998); Revista Carta Capital (03/03/1999); Revista Isto É (24/01/1996, 18/06/1997, 04/02/1999 e 03/03/1999); Revista Veja (25/10/1995 e 23/12/1998); Tribunal Superior Eleitoral (resultados eleitorais 2002); Portal da Associação Nacional dos Delegados da Policia Federal. Disponível em: <http://www.adpf.org.br>. Acesso em 28/08/2013.

 

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