NOITE, A

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Nome: NOITE, A
Nome Completo: NOITE, A

Tipo: TEMATICO


Texto Completo:
NOITE, A

NOITE, A

 

Jornal carioca diário e vespertino, fundado em 18 de junho de 1911 e extinto em 27 de dezembro de 1957.

 

Primeira fase: 1911-1925

Em virtude de desentendimentos com a direção da Gazeta de Notícias, da qual era secretário-geral, Irineu Marinho decidiu abandonar seu cargo e, juntamente com mais 13 companheiros, fundar um novo jornal.

A Noite, como foi chamado o novo periódico, definiu desde o início uma linha política oposicionista, declarando-se um crítico severo do recém-constituído governo do marechal Hermes da Fonseca. Sua posição era de apoio ao grupo civilista derrotado, que havia encampado a candidatura de Rui Barbosa à presidência da República. Apontando as falhas do governo e denunciando o autoritarismo do presidente, o jornal combatia sobretudo a política de “salvações” de Hermes da Fonseca, que promovia a substituição forçada dos grupos oligárquicos no poder. Essa postura custou aliás a A Noite uma suspensão e a prisão de seus diretores.

O contato com a repressão não mudou entretanto a linha do jornal, que, ao longo de quase todo o período em que esteve ligado a Irineu Marinho, se distinguiria como órgão de oposição.

Em 1918, quando da disputa eleitoral entre Epitácio Pessoa e Rui Barbosa, A Noite manteve seu empenho em favor do antigo candidato civilista. Com a vitória de Epitácio, o jornal conservou sua posição crítica frente à situação.

Em 1921, ao se iniciar a campanha sucessória, A Noite apoiou Nilo Peçanha, candidato da Reação Republicana, em oposição ao candidato situacionista Artur Bernardes. A vitória deste último colocou o jornal em posição incômoda, pois o governo desencadeou forte repressão às oposições.

De modo geral, todos os movimentos tenentistas da década de 1920 também foram apoiados por A Noite.

Em sua primeira fase, portanto, gozando de grande prestígio nos meios oposicionistas, o jornal aproximou-se das propostas levantadas pelos grupos urbanos e pelas oligarquias dissidentes que em alguns momentos questionavam as regras do jogo político.

Em 1925, contudo, grandes transformações alteraram a linha do vespertino. Seu proprietário, Irineu Marinho, achando-se doente e de partida para a Europa, foi obrigado a caucionar a maioria de suas ações em favor de Geraldo Rocha. Este último realizou logo depois uma assembléia rompendo os vínculos que ainda prendiam o jornal a seu fundador, e elegeu nova diretoria.

 

Segunda fase: 1925-1931

Com a transferência de propriedade para Geraldo Rocha, A Noite iniciou uma nova fase, marcada por modificações substanciais.

A primeira alteração ocorreu na linha política do jornal, que passou da oposição ao mais irrestrito apoio às oligarquias dominantes.

Do ponto de vista material, sob a direção de Diniz Júnior foi iniciada a construção de uma nova sede, um edifício de 23 andares na praça Mauá, para o qual seria transferida a redação em 1929. Novas máquinas e linotipos foram adquiridos e o próprio aspecto gráfico do jornal mudou. Ao mesmo tempo, em setembro de 1930 seria lançada a revista Noite Ilustrada, semanário impresso em rotogravura.

A despeito dessa grande prosperidade, contudo, A Noite enfrentou alguns problemas administrativos internos. A autoridade dos que por direito eram responsáveis pelo jornal era constantemente contestada por um afilhado de Geraldo Rocha, que detinha o poder de fato. Essa coexistência de poderes paralelos criava grandes dificuldades, mas não chegou a comprometer o bom desempenho do vespertino.

Embora tivesse dado total apoio ao governo de Washington Luís, ao se iniciar a campanha sucessória para o período 1930-1934, A Noite procurou manter uma posição de neutralidade frente às articulações de uma dissidência oligárquica. Eram dois os candidatos à presidência da República: de um lado o candidato oficial Júlio Prestes, indicado por Washington Luís e lançado pelo Partido Republicano Paulista, e de outro o candidato de oposição Getúlio Vargas, apoiado pelos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, que, unidos, constituíram a Aliança Liberal.

O não-envolvimento do jornal foi possível devido à ausência de Geraldo Rocha do país. Seu regresso da Europa alterou porém a situação. A Noite lançou-se numa campanha violenta em favor de Júlio Prestes, campanha essa que se prolongou mesmo após sua vitória nas eleições, qualificadas de fraudulentas pela oposição. Recomendando a seus jornalistas o máximo vigor no combate aos opositores do candidato eleito, Geraldo Rocha levou seu jornal a um radicalismo inusitado.

Por outro lado, inconformada com a eleição de Júlio Prestes, a oposição deu início aos preparativos para a revolução. Sem perceber a extensão das articulações, Geraldo Rocha passou a combater a idéia revolucionária, designando um de seus redatores experimentados em entrevistas políticas para ouvir os líderes que, mesmo ligados à Aliança Liberal, eram contra a solução armada.

Entre os escolhidos para as entrevistas figurava Antônio Augusto Borges de Medeiros, antigo chefe do Partido Republicano Rio-Grandense e ex-presidente do Rio Grande do Sul. Seu pronunciamento “Pela ordem”, conclamando o povo a acatar os resultados eleitorais, teve o efeito de uma bomba mas não conseguiu conter o rumo dos acontecimentos.

Em 3 de outubro de 1930, eclodiu finalmente a revolução. Não acreditando em seu sucesso, Geraldo Rocha continuou a publicar artigos contra os insurgentes civis e militares. Essa campanha despertou o ódio dos revolucionários, que após a vitória do movimento acabaram por empastelar o jornal e prender seu proprietário.

Os estragos resultantes do incêndio e da depredação de A Noite paralisaram o jornal por alguns dias. Impossibilitado de reassumir suas funções, Geraldo Rocha pediu por sua vez a Artur Bernardes que indicasse um de seus correligionários para dirigir o vespertino. Sua intenção era também proteger o jornal das dificuldades que provavelmente se criariam no novo governo. O indicado foi Augusto Lima, que, ao lado da antiga equipe, iniciou os preparativos para o relançamento de A Noite.

Voltando a circular, o jornal defrontou-se porém com inúmeras dificuldades: paralelamente aos danos sofridos, havia dívidas antigas acumuladas, referentes à sede e ao equipamento gráfico recém-instalados. Além disso, algum tempo depois Geraldo Rocha retomou a direção e passou a pôr em prática uma série de medidas aleatórias de redução de despesas, como cortes nos salários e no pessoal, não se preocupando em estruturar uma política coerente de recuperação.

Entretanto, um fato novo veio alterar essa situação.

Durante muitos anos, Geraldo Rocha fora representante no Brasil de um grupo estrangeiro proprietário da companhia Brasil Railway, da qual era subsidiária a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande.

Tendo sido informada da existência de irregularidades na São Paulo-Rio Grande, a direção geral da Brasil Railway na Europa mandara proceder a uma verificação através da qual fora comprovado um débito de Geraldo Rocha. Obrigado a assinar uma escritura de confissão de dívida, este empenhara em garantia todos os seus bens.

Como Geraldo Rocha não conseguiu saldar seus compromissos, em 1931 a São Paulo-Rio Grande entrou na posse de todos os bens de seu ex-presidente, inclusive a totalidade das ações de A Noite.

A propriedade do jornal passou assim a um grupo estrangeiro, representado por Guilherme Guinle, seu presidente no Brasil. Preocupado em recuperar o vespertino, o novo proprietário escolheu para diretor o jornalista Carvalho Neto, que já pertencia ao quadro da casa.

 

Terceira fase: 1931-1940

Nas mãos da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, A Noite iniciou uma fase de recuperação e de expansão. Uma vez adotada uma linha política comedida e afastadas as campanhas de agressões pessoais, o jornal começou a dar mostras de revitalização, equilibrando-se totalmente até o final da década de 1930.

Noite Ilustrada, que caíra em estagnação devido à má direção, ganhou novo alento e se expandiu. Por iniciativa de Vasco Lima, duas outras revistas foram criadas: Carioca e Vamos Ler. Raimundo Magalhães Júnior foi escolhido para dirigi-las e o êxito foi completo. Dedicada ao teatro, ao cinema e ao rádio, com ilustrações abundantes e textos sugestivos, Carioca alcançou uma tiragem de mais de 150 mil exemplares semanais. Vamos Ler, de gênero mais literário do que jornalístico, embora não tenha obtido um sucesso tão grande e tão rápido, teve também boa aceitação.

Ainda durante essa fase — no ano de 1936 — A Noite inaugurou uma emissora de radiodifusão, a Rádio Nacional, destinada a complementar as tarefas informativas do jornal.

Esse período de grande progresso foi marcado por outro lado pelo temor de um ato governamental de encampação ou de desapropriação do jornal. Essa expectativa se justificava na medida em que desde 1930 a São Paulo-Rio Grande se encontrava sob o controle do governo federal. Ocupada pelos revolucionários em outubro de 1930 por razões estratégicas, a ferrovia fora mantida incorporada ao governo, sem nunca ter sua situação regularizada.

 

Quarta fase: 1940-1957

O temor da encampação concretizou-se finalmente em 8 de março de 1940, quando o Decreto-Lei nº 2.073 legalizou a ocupação pelo governo da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e de todas as empresas a ela filiadas, incluindo A Noite e a Rádio Nacional. Integrado ao patrimônio da União, o jornal viveria sua última fase, segundo Carvalho Neto, em “crise permanente”.

Passando a fazer parte das Empresas Incorporadas do Patrimônio Nacional, a administração de A Noite ficou a cargo do superintendente do órgão, coronel Luís Carlos da Costa Neto. A direção propriamente do jornal foi entregue ao jornalista André Carrazzoni.

O novo estágio foi marcado por inúmeras dificuldades administrativas, centradas em dois problemas básicos: o empreguismo e o desperdício de recursos. Além de ter seu custo elevado e sua receita diminuída, o jornal viu-se tolhido por seu compromisso com o governo como órgão de informação e de opinião, perdendo continuamente seus leitores.

Segundo Carvalho Neto, “a independência de A Noite incomodava o governo, e a alternativa era transformá-lo num ‘diário oficial’... Assim, A Noite, no decorrer dos 17 anos de encampação, transformou-se por decreto em órgão de elogio obrigatório a todos os governos”.

A despeito de todos esses problemas, em 1945 ocorreu a primeira tentativa séria de compra do jornal pela iniciativa privada. O empresário paulista Samuel Ribeiro apresentou uma proposta, mas as delongas do governo levaram-no a desistir da idéia.

Ao mesmo tempo, a deposição de Getúlio Vargas em 1945, seguida do curto governo de José Linhares e de todo o processo de reorganização política do país, desencadeou um movimento de rodízio permanente nos quadros administrativos de A Noite, agravando a situação do jornal. Aguardada com expectativa, a posse do marechal Eurico Gaspar Dutra na presidência da República em 1946 trouxe algumas definições.

Para a presidência das Empresas Incorporadas foi escolhido Leoni Machado, cuja primeira providência foi adotar um regime de economia destinado a restabelecer as finanças do jornal. A seguir, iniciaram-se conversações visando à entrega da administração do jornal a seus próprios funcionários.

Assim, em 19 de agosto de 1946, o presidente Dutra promulgou o Decreto-Lei nº 9.610 autorizando o Ministério da Fazenda a arrendar A Noite por um prazo de 15 anos à sociedade anônima a, ser constituída pelos funcionários do vespertino. Essa medida foi muito bem recebida, não só pela equipe de A Noite como pela imprensa em geral, mas sua execução enfrentou várias dificuldades. A direção do jornal foi entregue em princípio a uma comissão administrativa nomeada por Leoni Machado.

A vitória de Getúlio Vargas nas eleições presidenciais de 1950 provocou entretanto novas mudanças administrativas, que resultaram no afastamento de Leoni Machado e na dissolução da comissão administrativa de A Noite. Nomeado superintendente das Empresas Incorporadas, André Carrazzoni não conseguiu deter a avalanche de problemas que caiu sobre o jornal durante todo o segundo governo Vargas (1951-1954).

Após o suicídio de Getúlio, em agosto de 1954, as novas e sucessivas substituições nos quadros administrativos representaram o golpe final nas Empresas Incorporadas e, em particular, em A Noite. Segundo Carvalho Neto, a inviabilidade do jornal deveu-se também ao fato de ser ele um órgão do governo: “O povo não admite, com toda razão, que o governo seja dono de jornal para ele ler. E deixou de ler A Noite... Jornal do governo é o Diário Oficial.”

Cerca de dois anos depois da posse de Juscelino Kubitschek, ocorrida em janeiro de 1956, A Noite saiu de circulação.

Marieta de Morais Ferreira

 

 

FONTES: CARVALHO NETO. Norte; ENTREV. CARVALHO NETO; ENTREV. MAGALHÃES, M.; Noite; SKIDMORE, T. Brasil.

 

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