NOTICIA, A

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Nome: Notícia, A
Nome Completo: NOTICIA, A

Tipo: TEMATICO


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NOTÍCIA, A

NOTÍCIA, A

 

Jornal carioca, diário e vespertino, que circulou de 17 de setembro de 1894 a 4 de julho de 1979, sendo depois relançado em 2 de maio de 1991. Foi fundado pelo jornalista de origem portuguesa Manuel de Oliveira Rocha, provocando na época um verdadeiro impacto nos meios jornalísticos por sua forma gráfica arrojada e seu estilo inovador.

 

O jornal de elite

Oliveira Rocha, ou Rochinha, como era mais conhecido, criou A Notícia basicamente como órgão de informação. Sob esse aspecto, seu jornal se distinguia das outras folhas existentes no Rio de Janeiro, caracterizadas por exprimir uma opinião política específica, em geral partidária, de uma forma muitas vezes panfletária. Isto não significava que A Notícia não tivesse uma posição política: era um jornal decididamente republicano, que apoiou o governo militar de Floriano e os que o sucederam, sem contudo, entrar no jogo político-partidário.

A Notícia representou também uma inovação gráfica no jornalismo de sua época. Divididas em seis colunas, suas páginas apresentavam assuntos correlatos agrupados sob um mesmo tópico. Os tópicos tinham um lugar fixo dentro do jornal. Outro aspecto importante era a uniformidade da impressão. Composto todo no mesmo tipo e no mesmo corpo, o jornal não apresentava “buracos”, nem trazia anúncios em suas páginas de notícias. A publicidade concentrava-se sempre na última página.

A principal coluna de A Notícia era “O Boletim do Dia — o Caso de Ontem”. Nessa seção, num estilo bastante rebuscado, o jornal comentava os acontecimentos mais importantes — políticos, literários, policiais ou outros. O traço mais marcante da coluna — a única em que o jornal exprimia sua opinião — era a moderação. Além desta, A Notícia possuía uma excelente seção de telégrafos e uma seção literária, em que eram publicados folhetins.

O primeiro secretário de redação de A Notícia foi o jornalista português Salvador Santos. Substituiu-o mais tarde Cândido de Campos, que em 1924 assumiu a propriedade do jornal.

A Notícia de Cândido de Campos ganhou novas e importantes características. O jornal, cuja posição até então fora de simples apoio ao governo, passou a um governismo extremado, a ponto de ser considerado como “órgão oficial” do governo brasileiro. Passou também a ser impresso em papel cor-de-rosa, uma das características que mais ficou associada à sua posição política e à sua postura elitista durante a República Velha: era o “jornal cor-de-rosa”, o “jornal de punhos de renda”, o jornal que sempre apoiava a situação.

Foi portanto sob a direção de Cândido de Campos que A Notícia assumiu um papel concreto dentro da realidade política da Primeira República, caracterizando-se como porta-voz das idéias do governo e adquirindo grande audiência nos meios governamentais burocráticos e no corpo diplomático brasileiro, graças a seu ainda excelente serviço telegráfico e ao interesse de Cândido de Campos pelos serviços diplomáticos do país.

Justamente por ser o jornal “oficial” de governos impopulares, como o de Artur Bernardes e o de Washington Luís, A Notícia não tinha grande circulação. Com poucos leitores, trazia também muito poucos anúncios comerciais. Era grande, no entanto, o número de anúncios do governo federal e dos governos estaduais. Nessa fase, A Notícia circulava habitualmente com apenas quatro páginas, no máximo com seis, sendo que a contracapa continuava a ser dedicada aos anúncios e a penúltima, ao noticiário policial. Continuava, no entanto, a ser um jornal tecnicamente bem feito e bem cuidado.

Em 1929, a tônica do jornal eram os ataques aos liberais, tachados de “baderneiros, corruptos castradores da liberdade”. Era a época da campanha sucessória de Washington Luís, em que o candidato oficial, Júlio Prestes, representava a continuidade da “política do café-com-leite”. O candidato de oposição, Getúlio Vargas, era apoiado pela Aliança Liberal, movimento que reunia políticos como Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente de Minas Gerais, e João Pessoa, presidente da Paraíba. A Notícia não poupou ataques à Aliança Liberal, classificada de “uma traição em si mesma”, e, sobretudo, à figura de Antônio Carlos, “um intoxicado pelas ruins paixões”.

Sendo amigo pessoal de Washington Luís, Cândido de Campos imprimiu a seus editoriais um tom cada vez mais violento e virulentamente antialiancista. Júlio Prestes era visto pelo jornal como a única “alternativa honesta” nas eleições de 1930.

Em maio desse ano, antes das eleições, Luís Carlos Prestes, tenente revoltoso que se encontrava no exílio, lançou um manifesto colocando sua posição frente ao pleito. Nesse documento, Prestes não deu seu apoio à Aliança Liberal, alegando que os problemas brasileiros mais importantes — o latifúndio e a dominação oligárquica da sociedade — não eram combatidos pelo movimento. Esse manifesto tinha evidente conotação esquerdista, o que fez com que A Notícia proclamasse que Prestes havia aderido à “mixórdia bolchevista de Moscou” e, em editorial, negasse a existência de latifúndios no Brasil: a terra aqui, ao contrário, era muito dividida.

No plano mais estritamente econômico, o jornal se colocou contra as leis alfandegárias protecionistas, que favoreceriam a indústria nacional, defendendo sempre os pontos de vista da Associação Comercial do Rio de Janeiro, favoráveis à tese do livre comércio internacional.

Uma vez divulgado o resultado das eleições de 1930, A Notícia exultou com a vitória de Júlio Prestes, rechaçando qualquer acusação de má-fé nas apurações.

Quando João Pessoa foi assassinado em Recife, o jornal, na sua ânsia de defender o governo, chegou a atribuir o crime a Antônio Carlos, que, embora fosse na verdade correligionário de Pessoa, foi acusado de tê-lo mandado assassinar para instaurar um clima de pânico no país.

Ao se iniciar o movimento revolucionário no Sul, no dia 3 de outubro, A Notícia nada divulgou, mesmo porque a imprensa se encontrava sob forte censura. No dia 24 do mesmo mês, quando a revolução chegou ao Rio de Janeiro, Cândido de Campos se encontrava no palácio do governo junto a Washington Luís. Quando este obteve o salvo-conduto para deixar o palácio, Cândido de Campos acompanhou-o e seguiu diretamente para o exílio em Paris.

A Notícia, por demais vinculada ao governo deposto, foi empastelada e incendiada por populares.

O sensacionalismo

Cândido de Campos só retornou do exílio em 1938. Com a ajuda de Joaquim Sales, em outubro desse mesmo ano reabriu A Notícia, imprimindo-lhe, porém, um caráter completamente diferente do da antiga folha. O jornal não era mais cor-de-rosa, e toda a sua ênfase voltava-se para crimes de sangue.

O novo secretário de redação, Silva Ramos, inaugurou um novo estilo de jornalismo popular: agressivo, com grandes manchetes, um jornalismo de denúncia. Foi Silva Ramos quem criou a manchete montada em cima de um editorial, geralmente violento, em defesa das classes populares e contrário ao governo, aos comerciantes e aos proprietários. A Notícia não se transformou, porém, num jornal de esquerda. Ao contrário, suas denúncias nunca eram políticas ou baseadas em fatos políticos. Não havia uma contestação do status quo vigente — tratava-se antes de um jornalismo de denúncias sensacionalistas em linguagem popular.

As manchetes de A Notícia, conhecidas como “os zincos da Notícia”, uma alusão aos tipos enormes, de zinco, utilizados para compor as manchetes, ficaram famosas no meio jornalístico brasileiro, sendo até hoje bastante utilizadas como recurso gráfico.

Dentro dessa nova linha, A Notícia teve um desenvolvimento extraordinário, tornando-se um dos jornais mais vendidos no Rio de Janeiro.

Em outubro de 1950, após a morte de Silva Ramos, Cândido de Campos vendeu o jornal a Ademar de Barros e a Antônio de Pádua Chagas Freitas. Este último tornou-se o diretor do órgão, tendo como secretário de redação José Leão Padilha. A Notícia continuou na mesma linha inaugurada por Silva Ramos, e o único destaque foi a introdução de informações políticas: Ademar de Barros pretendia ter o jornal como base para a penetração de seu partido, o Partido Social Progressista (PSP), no Rio de Janeiro. Dentro desse novo quadro, nesse mesmo ano de 1950, o jornal iniciou uma violenta campanha contra o então prefeito nomeado do Distrito Federal, Mendes de Morais.

Em 1952, devido a um processo por malversação de fundos públicos durante seu governo em São Paulo e ao desaparecimento de uma urna marajoara que havia sido doada ao Museu Paulista, Ademar de Barros foi obrigado a se exilar no Paraguai. Enquanto se encontrava exilado, seu sócio, Chagas Freitas, convocou uma assembléia extraordinária dos acionistas do jornal para aumento de capital. Como Ademar se encontrava fora do país, as ações que lhe caberiam não foram subscritas por ninguém. Levadas a leilão, foram arrematadas a baixo preço por Chagas Freitas, que se tornou sócio-majoritário do jornal. Ademar de Barros moveu a seguir um processo contra Chagas, visando a reintegração de posse. No entanto, o STF deu ganho de causa a Chagas Freitas, obrigando a família de Ademar — já falecido — a apresentar desculpas públicas ao acusado.

Sob Chagas Freitas, o jornal continuou na mesma linha que vinha mantendo, tornando-se, no entanto, cada vez mais um par do matutino O Dia, também de propriedade de Chagas Freitas. Ambos os jornais tiveram uma importância decisiva para o controle político do MDB do estado da Guanabara por Chagas Freitas, poderio esse que se estendeu a todo o estado do Rio de Janeiro com a fusão dos dois estados em um só em 1975.

Embora fosse um jornal sensacionalista, com quase todo o seu noticiário voltado para crimes, A Notícia era também extremamente moralista. Nos últimos anos, o jornal praticamente acompanhava numa linguagem mais leve o noticiário de O Dia, que saía à uma hora da manhã.

Progressivamente A Notícia começou a antecipar seu horário de saída: no final, ainda chamada de vespertino, saía às seis horas da manhã.

Nesta primeira fase, A Notícia circulou pela última vez no dia 4 de julho de 1979. Seus diretores, Chagas Freitas e Othon Paulino, justificaram seu fechamento por motivos financeiros.

A volta de A Notícia

Após uma interrupção de 12 anos, A Notícia foi relançada no dia 2 de maio de 1991, trazendo como manchete de sua primeira edição a frase “Vagabundo dá duro no dia do trabalho: 26 presuntos!”. Nessa nova fase foram mantidas as características de um jornal popular, agora voltado para a informação em linguagem simples e coloquial.

Agora de propriedade do empresário Ari de Carvalho — responsável também pela edição do jornal O Dia, cujo editor-chefe era o jornalista Sérgio Jaguaribe (Jaguar) —, A Notícia notabilizou-se por temáticas ligadas ao cotidiano, envolvendo quase sempre sexo e violência. No seu retorno às bancas, o jornal alcançou um enorme sucesso comercial, chegando a vender 120 mil exemplares no primeiro dia de circulação.

O jornal, editado basicamente nas cores vermelho e preto, era dividido em dois cadernos, o primeiro dedicado ao noticiário, com destaque para a parte policial, e o segundo voltado para diversão e lazer, sobretudo show e esporte.

Com a proposta de fazer um jornalismo desligado das questões políticas, na retrospectiva que fez do ano de 1991, A Notícia assinalou, porém, que esse ano havia sido o pior da história do Brasil: “Mil novecentos e noventa e um não foi um ano, foi um pontapé nos bagos da população brasileira.” Na edição de 31 de dezembro, utilizando-se da figura de uma escola de samba imaginária, os Unidos do Brasil, o jornal apresentou os escândalos que envolviam o governo do então presidente Fernando Collor de Melo no decorrer do ano que se encerrava: a inflação, o valor do salário mínimo, o livro Zélia, uma paixão, escrito por Fernando Sabino — que narrava o romance entre a ministra da Economia Zélia Cardoso de Melo e o ministro da Justiça Bernardo Cabral —, a situação dos aposentados e da previdência, as irregularidades cometidas pela primeira-dama Rosane Collor na presidência da Legião Brasileira de Assistência e a compra de uniformes superfaturados pelo Exército.

Em setembro de 1992, as manifestações de rua a favor do impeachment de Fernando Collor — decorrentes da denúncia feita pelo irmão do presidente, o empresário Pedro Collor de Melo, de que o ex-tesoureiro da campanha presidencial de 1989, Paulo César Farias, seria o testa-de-ferro de um esquema de corrupção montado no interior do governo — receberam destaque na primeira página do jornal, que estampou na edição do dia 21 daquele mês a manchete “Fora Collor”, acima da foto de um manifestante com a cara pintada. Quando da aprovação pela Câmara dos Deputados, em 29 de setembro de 1992, do afastamento de Collor a fim de que este aguardasse a votação final do processo de impeachment pelo Senado, A Notícia escreveu na sua manchete principal: “Decisão soberana é isso aí.” O texto que acompanhou essa manchete foi o seguinte: “Desde a Copa de 50, o povo brasileiro não via horas tão excitantes quanto as da votação de ontem da Câmara. Agora que ela falou, tá falado!”

A votação final no Senado do impeachment de Collor também mereceu destaque por parte de A Notícia, que, entretanto, dividiu o espaço da primeira página da edição do dia 30 de dezembro de 1992 com a cobertura do caso Daniela Perez — atriz da Rede Globo de Televisão, que apareceu morta nas proximidades do estúdio de gravações da emissora, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, assassinada pelo ator Guilherme de Pádua e sua mulher Paula Tomás.

A renúncia de Fernando Collor foi tratada pelo periódico como “o ato final de uma ópera-bufa”. Recebido com alívio, o encerramento do mandato presidencial do político alagoano acabava, nas palavras de A Notícia, com o “suspense barato” provocado pela “CPI do PC” e deixava o novo presidente, Itamar Franco, sem mais “desculpas para começar a governar”.

Em meados de 1993, o jornal passou por um declínio no seu número de vendas, obrigando-o a promover algumas mudanças. A editoria executiva, antes dividida entre os jornalistas Roberto Ferreira e José Alberto Monteiro, ficou exclusivamente sob a responsabilidade do último. Foram feitas reformulações no conteúdo do jornal, com ênfase para a cobertura policial, que recebeu maior destaque. Nessa época surgiu a “Supergata d’A Notícia”, um pôster mensal, a cores, editado na última página do jornal. Iniciou-se também uma das práticas que mais marcaram a imagem do periódico: a publicação, na primeira página, de fotos de garotas de programa, com a indicação de onde encontrá-las.

Nos anos de 1994 e 1995, A Notícia iniciou seu processo de informatização. Todo o sistema gráfico passou a ser definido na redação, o que facilitou a introdução de novas formas de diagramação e a ampliação do número de fotos nas diversas seções do jornal.

A “quentíssima”

Em maio de 1997, o jornal passou por uma reforma nos aspectos gráficos e editoriais. Os dois cadernos tradicionalmente publicados foram unificados recebendo o formato tablóide. A impressão colorida foi estendida a quase todas as partes do jornal. Foram contratados novos colunistas: o humorista do grupo Casseta e Planeta Hélio de la Peña, o cantor e compositor Dicró, o artista multimídia Fausto Fawcett e o ex-craque de futebol Roberto Dinamite. Em junho, a dançarina baiana Carla Perez também estreou uma coluna nas páginas do jornal. O antigo colaborador Mário de Morais passou a assinar um novo folhetim chamado “Histórias do além” e Luzia Sacopã voltou ao jornal com o seu “O novelo das novelas”, um comentário humorístico de todas as novelas em cartaz na televisão, que havia estreado junto com o relançamento do periódico. Houve também uma ampliação no espaço dedicado à cobertura esportiva, que passou a possuir de seis a oito páginas em cada edição.

Com essas mudanças, ampliou-se o espaço para as reportagens, que ganharam seqüências especiais, abordando temas já tradicionais na história recente do jornal. A primeira delas — “Rogéria, minha vida e meus amores” — foi dedicada ao mais famoso travesti do Brasil e ocupou sete edições. Em seguida, foram feitas mais três séries: “Advogado do diabo”, sobre a ligação dos profissionais de direito com o tráfico de drogas; “Escola do crime”, sobre crianças que trabalhavam para o crime organizado — chamadas de “a geração do pó” —; e “Histórias da Vila Mimosa”, sobre a mudança de local da mais tradicional zona de prostituição da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1997, A Notícia ocupava a quarta colocação entre os jornais do Rio de Janeiro em relação ao número de vendas avulsas, atingindo em média a marca de 35 a 40 mil exemplares por dia.

Carlos Eduardo Leal/Sérgio Montalvão

 

FONTES: ENTREV. JOSÉ ALBERTO MONTEIRO; LATTMAN-WELTMAN, F. Imprensa; Notícia (2, 3, 7, 20 e 21/5, 30 e 31/12/91, 2, 7, 9, 21, 26, 27 e 30/9, 26/10, 3 e 4/11, 29, 30 e 31/12/92, 5 e 13/7, 2 e 8/9/93, 4, 6, 8, 9 e 20/1, 16/2, 10 e 14/4, 18 e 19/7/94, 30 e 31/12/95, 1/1, 2, 8, 10, 11, 12, 15, 18, 19, 20, 21, 23, 26, 27, 28, 30 e 31/10/96, 7/5, 4 e 5/7/97).

 

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