Revista Conjuntura Econômica - Abril 2020

ENTREVISTA MAURO BENEVIDES FILHO Abril 2020 | Conjuntura Econômica 13 dência, não existirá Estado. Ele vai viver para pagar pessoal e Pre- vidência. E o atendimento da saú- de? Temos que encontrar um teto crível, mas não podemos abrir mão de que nosso foco como gestor público é ter dinheiro. Ninguém pode gastar aqui no estado R$ 150 mil com pessoal ativo, inativos e pensionistas e esquecer dos 9 mi- lhões de cearenses que precisam do setor público. Mas o governo e vários economis- tas defendem que o país está cum- prindo o teto. Isso não é verdade. O teto de gas- tos diz que só posso aumentar mi- nha despesa primária até o limite da inflação. Então se a inflação foi de 4,31%, só posso aumentar minha despesa em 4,31%. O que aconte- ceu? 2017, 2018 e 2019: o gasto não tem dinheiro suficiente para pagar pessoal, Previdência, custeio e investimento, que são as quatro categorias de despesa. Lembre-se que não estou falando de dívida pública, porque no passado o Bra- sil tinha superávit financeiro, mas não tinha dinheiro para pagar os juros, portanto a dívida cresceu aceleradamente, principalmente na relação dívida/PIB, que hoje che- gou a 77%, o que para os países em desenvolvimento é um percen- tual elevado. Para os desenvolvidos não. Nos EUA eles devem 120% da sua dívida bruta como percentual do PIB. Japão 200%. Nos países que estão em processo de desen- volvimento esse percentual gira em torno de 50% a 70%. Então o Brasil tem que se comparar não somente com os emergentes, mas também com os avançados, e isso muitas vezes o mercado financeiro não compreende. O que acontece é que, com o passar dos anos, essa dívida foi crescendo velozmente. Esse é o problema. E isso assustou tanto investidores privados nacio- nais quanto internacionais, gerou desconfiança de que o Brasil po- deria gerar default , fazendo o que a Argentina fez, não conseguindo honrar o pagamento de sua dívida pública. E aí o Brasil precisou to- mar algumas medidas incluindo o teto de gastos em 2016. Hoje dos 26 estados e Distrito Federal, diria que 21 estão em si- tuação difícil. Agora é o seguinte: se não controlar pessoal e Previ- com pessoal aumentando em ter- mos reais. Previdência continua au- mentando em termos reais. O cus- teio constante ou caindo um pouco. Mas se pessoal e Previdência con- tinuam crescendo em termos reais, como o Brasil está dizendo que está cumprindo o teto? Ele está indo lá no investimento, que é a mola pro- pulsora para o crescimento econô- mico, para a expansão do PIB, para a geração de emprego, vai lá e cor- ta. Então cresce pessoal, Previdên- cia, mantém o custeio constante, e aí, para dizer que está cumprindo o teto, corta o investimento. Sem investimento não se consegue sair desse marasmo em que nos en- contramos na atividade econômica... Logico. O governo federal já chegou a investir R$ 104 bilhões ao ano. Vocês sabem quanto o governo fe- deral vai investir este ano? R$ 19 bilhões. Não pode. O investimen- to público promove um efeito que nós economistas chamamos de cro- wding in , ele traz investimento pri- vado para dentro. O Ceará investiu R$ 1,5 bilhão no Porto de Pecém, mas conseguimos trazer um inves- timento da siderúrgica de Pecém de R$ 20 bilhões. Esse efeito não pode ser esquecido, por isso defendo ter o controle efetivo do teto do gasto da despesa corrente para que sobre dinheiro sem descumprir o teto para fazer investimento. No Brasil temos vários problemas. Um deles é a falta de avaliação do Não é verdade que o teto dos gastos está sendo cumprido. O que o governo está fazendo é cortar os investimentos

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