RESENHAS

The good soldier: a tale of passion

Roberto Venosa

Engenheiro, Mestre em Administração Pública pela Universidade de Pittsburgh, Doutor em Sociologia pela EHESS. Paris, Professor Titular do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da EAESP/FGV e Professor Visitante da University of St. Andrews, Escócia

 

 

FORO MADOX FORD
Londres, Penguin Books, 1946.

Cambridge reinicia seu ano letivo. Lembra um pouco algumas cenas do filme "A Sociedade dos Poetas Mortos", Pais orgulhosos carregam os apetrechos de seus filhos para os diversos colleges. É muito bonito poder ver e sentir a dose de emoção que cada novo aluno traz junto com sua bagagem. Enquanto me dirigia para a Faculdade de Ciências Sociais e Políticas, observando este luía-lufa, reparei que dois carros estacionados em frente ao Clare College tinham chapas de diferentes países. Um era francês e o outro era inglês. No francês havia um adesivo escrito em francês que dizia o seguinte: Se você bater no meu carro eu amasso a sua cara! No carro inglês estava escrito no pára-choque; Nós provavelmente nos encontraremos por acidente.

É exatamente esta pretensa descontração do inglês que Ford derruba, página após página. O estilo de Ford tem um quê de preguiçoso e bastante lento, porém corta como bisturí. Seria muito querer compará-lo a um Proust. Certamente não o é. Mas, através da lentidão com que conta a saga de Edward Ashburnham, vamos penetrando a alma britânica. O que mais impressiona é a lucidez de Ford. Neste ponto, chega muito próximo do proustiano mergulho na alma humana. Ao longo da narrativa, o autor mostra que a saída está aí; mesmo assim, as personagens optam pelo convencional. Sob este aspecto, lembra um pouco Foster, principalmente o Foster de A room with a view pessimamente traduzido como: Uma janela para o amor, Ford não é o que de mais recente se publicou no Reino Unido porém, para se entender organizações brasileiras, pode-se dispensar a leitura de um Machado de Assis?

Em alguns cursos que conduzi na HAFSF/FGV introduzi a leitura de romances. Existe melhor aula de sucessão em pequenas empresas que Os Buddenbrook de Thomas Mann? O Mundo se despedaça do nigeriano Chinua Achebe não pode ser lido como um dos melhores ensaios sobre processo de modernização? E o olhar antropológico de Yvonne Maggie em Guerra de Orixá não é uma excelente metáfora da luta pelo poder nas organizações? The Good Soldier é uma maravilhosa análise da solidão nas classes altas. Lido em inglês, requer um bom domínio da língua. Ford não faz concessões. Mas, ainda que se tenha que ler com o dicionário do lado, é uma aula magna sobre o comportamento humano. Imperdível para um bom administrador que queira compreender o profundamente humano.

Ford é um pescador de almas. Como termina Ford; "Foi uma história muito interessante: poderia ter sido ainda mais interessante se eles tivessem cavado sem olhos com facas pontiagudas; mas eles eram 'such a good people'". Ford pode não ter produzido uma obra proustiana, mas certamente o leitor que se delicia com a leitura de Machado, lerá com prazer The Good Soldier. Afinal, gerir organizações não nos obriga a entender as razões humanas?

 

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