RESENHAS

Keynes: uma introdução

Flávio Vilela Vieira

Professor do Departamento de Economia da Universidade Mackenzie e Mestre em Economia pela EAESP/FGV

 

 

 

de RAÚL PREBISCH
Traduzido por Otacílio Fernando Nunes Jr. São Paulo:
Brasiliense, 1991. 1. ed., 148 p.

O trabalho de Prebisch pode ser melhor compreendido tendo-se como referencial sua relevância à formulação de uma análise à Teoria Ricardiana das Vantagens Comparativas, com repercussões diretas sobre as estratégias de desenvolvimento das economias latino-americanas.

Raúl Prebisch, enquanto integrante da Teoria do Subdesenvolvimento da CEPAL, tinha os olhos voltados à compreensão da importância do Estado na formulação das políticas de desenvolvimento econômico, sendo este o elo central entre suas idéias e a obra de Keynes. Evidentemente, há por trás desta questão a própria necessidade da superação do problema do desemprego, comum aos contextos históricos de ambos.

A idéia keynesiana de que o combate ao desemprego crônico nos momentos de crise exige a adoção de medidas fiscais (gastos) contundentes, Mo podendo ser equacionada meramente através do livre jogo das forças de mercado, fundamenta a necessidade das economias subdesenvolvidas terem uma inserção no comércio internacional que não seja pautada pela deterioração dos termos de troca, aspecto este enfatizado pelo pensamento Estruturalista latino-americano.

A polarização entre nações ricas exportadoras de bens industrializados e nações pobres exportadoras de bens primários, guardadas as ressalvas que diferenciam a época da formulação da Teoria do Subdesenvolvimento e o contexto internacional recente, revela a imperiosa necessidade de se solucionar os chamados desequilíbrios estruturais existentes nm economias capitalistas, que em última instância estão intimamente ligados à preocupação de Keynes em formular uma Teoria do Emprego no intuito de se entender como superar os limites ao crescimento econômico impostos pela escassez de demanda agregada.

Raúl Prebisch, ao elaborar esta obra, pretende antes de mais nada desmistificar alguns dogmas convencionais vinculados à própria Teoria das Vantagens Comparativas e ao pensamento Clássico, principalmente no que diz respeito à relação entre poupança e investimento, utilizando-se para isso de uma subdivisão literária que sistematiza as principais contribuições de Keynes em cinco partes.

A parte introdutória procura destacar a importância dos problemas de insuficiência da demanda agregada, onde faz a distinção das abordagens de Keynes e dos Clássicos para explicar os momentos de desequilíbrio das economias capitalistas. A segunda parte concentra-se na discussão do papel dinâmico da variável investimento, e portanto na explicação da idéia do multiplicador. Na seqüência, a análise é voltada para o estudo da relação entre a taxa de juros e o rendimento provável do capital (eficiência marginal). Á penúltima parte aborda o papel que a variação na taxa de juros exerce sobre o nível agregado de investimentos, e a repercussão dos fatores psicológicos sobre a eficiência marginal. A quinta e última parte tem por objetivo integrar os elementos anteriores dentro de uma perspectiva geral envolvendo a determinação do nível de emprego agregado com base na magnitude e no efeito multiplicador do investimento.

O eixo direcíonador da argumentação de Prebisch, no esclarecimento da Teoria do Emprego de Keynes, concentra-se na questão de como os níveis de investimentos são sistematicamente insuficientes para exaurir toda a poupança (isso não deve ser visto como a antecedência da poupança sobre o investimento), especialmente quando se trata de países com reduzido grau de desenvolvimento das forças produtivas, como é o caso da América Latina.

A publicação de um trabalho, como este de Prebisch, pode ser vista, a priori, como tendo uma pequena relevância dentro do cenário atual das economias capitalistas, marcadas essencialmente por medidas liberalizantes visando a uma maior integração do comércio mundial, mas esta visão miope se desfaz quando da percepção de que qualquer estratégia de desenvolvimento econômico auto sustentado só terá sucesso caso não adote uma perspectiva minimalista do Estado. Tal argumento não deve, no entanto, ser confundido com discursos contrários à racionalização do aparelho estatal.

Finalizando, o que se pode dizer é que Raúl Prebisch consegue com relativa maestria elaborar uma análise introdutória da Teoria Geral de Keynes, tendo como mérito principal a clarividência em estabelecer pontos de ligação entre uma obra de reconhecido fôlego dentro da Teoria Econômica e a realidade das economias em desenvolvimento, fazendo uso inclusive de fatos históricos com intuito ilustrativo do grau de adequação das proposições de Keynes para as economias capitalistas, Há que se ressaltar que o presente trabalho de Raúl Prebisch deve ser visto como um referencial ímpar para a divulgação das origens da economia keynesiana de uma maneira adequada aos leitores que necessitam dos conhecimentos básicos do pensamento econômico.

 

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