RESENHAS

 

Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal

 

Ana Paula Paes de Paula

Mestre em Administração de Empresas pela FGV-EAESP, Doutoranda no IFCH-Unicamp e Pesquisadora da Fapesp. E-mail: appaula@uol.com.br

 

 

 

MUNDO EM DESCONTROLE: o que a globalização está fazendo de nós
De Anthony Giddens Rio de Janeiro: Record, 2000. 108 p.

POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO: do pensamento único à consciência universal
De Milton Santos Rio de Janeiro: Record, 2000. 174 p.

Assunto polêmico e relevante, a globalização vem desafiando os intelectuais contemporâneos. Octavio Ianni, David Held e Anthony McGrew, Zygmunt Bauman, Paul Hirst e Grahame Thompson figuram entre os que se aventuraram a escrever sobre o assunto contribuindo para o aquecimento do debate que já dura mais de uma década. Entre os lançamentos, as obras de Milton Santos e de Anthony Giddens destacam-se, pois expressam visões instigantes e contrapostas do fenômeno globalizante, fornecendo ao leitor elementos para constituir um posicionamento.

O livro do brasileiro Milton Santos é uma compilação de seus diversos trabalhos acadêmicos e jornalísticos. O autor realiza um visível esforço para articular seus argumentos sobre a globalização de forma agradável para o leitor. O resultado é um livro consistente em que Santos demonstra claramente sua argumentação e ao mesmo tempo democratiza seu pensamento.

Na visão de Santos, a globalização simboliza o auge do processo de internacionalização do mundo capitalista e pode ser explicada pelos seguintes fatores: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um "motor" único na História, representado pela mais-valia globalizada. Nesse contexto, emergem três visões da globalização: fábula, perversidade e possibilidade.

A globalização como fábula está relacionada aos mitos que a cercam, como a aldeia global, a contração do espaço e tempo, a velocidade do cotidiano e a desterritorialização. Na sua opinião, uma vez que a interação global é mediada pelas tecnologias de informação e o acesso a estas é desigual, a aldeia global é parcialmente verdadeira. Pelo mesmo motivo, dependendo dos envolvidos, a percepção do tempo e da distância varia, bem como a velocidade do cotidiano, que tende a ser maior para os que desfrutam das vantagens tecnológicas. Já a desterritorialização é falsa na medida em que o exercício da cidadania ainda está vinculado ao Estado nacional, desmitificando a idéia de "cidadão global".

A globalização como perversidade é o mundo tal como ele é. Para Santos, o caráter perverso da globalização atual baseia-se em duas violências: a tirania da informação, expressa no modo como ela é distribuída à humanidade, e a tirania do dinheiro, que representa o motor da vida econômica e social. Essas violências são os alicerces do pensamento único e fundam um novo totalitarismo, cujas bases são competitividade, consumo e confusão dos espíritos - o globaritarismo.

Na visão do autor, a competição é diferente da concorrência, pois não envolve regras de convivência e tem como objetivo a conquista da melhor posição, que estimula uma disposição beligerante e um afrouxamento dos valores morais que faz florescer individualismos e formas perversas de sociabilidade. Nesse contexto, temos um despotismo do consumo, que restringe a visão de mundo das pessoas. A competitividade associada ao consumo despótico contribui para aprofundar a confusão dos espíritos, já que cria inseguranças que sustentam o ciclo vicioso da busca do dinheiro, resultando em uma perversidade sistêmica caracterizada pelas crescentes desigualdades sociais.

Milton Santos acredita que essa evolução perversa tem limites e afirma que há possibilidade de uma outra globalização. Na sua visão, não se trata apenas de uma utopia, pois os fatos não estão sustentando o globaritarismo, e há processos paralelos que sinalizam a transição para um novo período histórico. A emergência de contraracionalidades que buscam soluções centradas no homem comprova a existência de condições objetivas e intelectuais para superar a tirania do dinheiro e da informação.

As opiniões de Santos são ponderadas, lúcidas e, dentro dos limites possíveis, otimistas. Argumentando que um projeto alternativo nacional baseado nas mesmas técnicas hoje utilizadas pelo capital viabilizariam uma globalização mais humana, o autor convida o leitor para um debate civilizatório, evidenciando que temos controle sobre o nosso mundo e que a globalização perversa não é irreversível.

A obra do inglês Anthony Giddens é constituída por manuscritos revisados das conferências Reith realizadas para a BBC em 1999. A leitura é mais inteligível para quem conhece sua trajetória intelectual, uma vez que Giddens retoma superficialmente várias idéias defendidas em outras obras suas. Além disso, o leitor que busca uma visão abrangente do sociólogo sobre a globalização pode se decepcionar, já que os capítulos não estão articulados e a elucidação dos argumentos deixa a desejar.

Para Giddens, o mundo em descontrole e a velocidade das mudanças atuais são verdades incontestáveis, de forma que a realidade está desmentindo a concepção marxista de que a ciência e a tecnologia poderiam tornar o mundo mais estável e ordenado. Essas duas constatações são suficientes para demonstrar que suas visões são opostas ao pensamento de Milton Santos, já que o geógrafo questiona o descontrole e argumenta que a democratização e a humanização das técnicas transformariam o mundo que nos cerca.

A posição de Giddens é congruente com um argumento central que orienta o seu pensamento: nunca seremos senhores de nossa própria história. Em As conseqüências da modernidade (São Paulo, Unesp, 1991), Giddens contestou a metáfora marxista da modernidade como um "projeto inacabado", um "monstro" que pode ser domado pelos seres humanos, afirmando a modernidade como um "Carro de Jagrená", uma máquina de enorme potência que podemos conduzir coletivamente até certo ponto, mas que ameaça escapar das nossas mãos, impossibilitando o controle do caminho e do ritmo da viagem.

Assim, na visão de Giddens o mundo em descontrole é um fenômeno natural e tudo que podemos fazer para amenizar a situação é aprimorar a imprecisa condução do "Carro de Jagrená". Dividindo seus opositores entre os que acreditam e duvidam da globalização, Giddens argumenta que o fenômeno é novo e revolucionário, abrangendo para além de aspectos econômicos, fatores políticos, culturais e tecnológicos.

Ao contrário de Milton Santos, Giddens não admite a hegemonia do econômico e afirma que a globalização é apenas parcialmente ocidentalizada, uma vez que estaria se tornando cada vez mais descentralizada, não estando submetida ao controle de nenhum grupo de nações ou empresas. O sociólogo reconhece que as estatísticas são desalentadoras, mas não atribui a culpa aos países ricos e alerta para a necessidade de reconhecer a "contramão" da ocidentalização, como a "colonização inversa" presente na latinização de Los Angeles.

Por outro lado, Giddens enfatiza as mudanças culturais causadas pela globalização, principalmente no que se refere à família, com destaque para as transformações no campo da sexualidade e dos relacionamentos. Também faz uma longa referência à questão da tradição, que estaria sendo vivida de uma maneira cada vez menos tradicional, ou seja, as tradições hoje tendem a prevalecer não para justificar uma crença, mas na medida em que se justificam como válidas.

Na sua concepção, o principal embate da globalização é a batalha entre o fundamentalismo, que se baseia na "tradição tradicional" e a tolerância cosmopolita, guiada por valores morais universais. A seu ver, a tolerância cosmopolita tende a vencer essa contenda, pois demanda a democracia e essa, apesar de seus limites, vem se espalhando por toda parte.

As opiniões de Giddens geram inquietações pelo eurocentrismo e pelo modo como ele escapa à discussão crítica se valendo de relativizações. Em primeiro lugar, o seu tom otimista é pouco convincente tendo em vista que suas considerações minimizam as conseqüências humanas da globalização. Além disso, o autor assume a vitória do cosmopolitismo sem avaliar conflitos, escolhas éticas e obstáculos para essa transição histórica. Giddens ainda enfatiza que as mudanças culturais são produto da globalização, quando também derivam de um processo histórico secular e de lutas sociais.

O livro não se destina ao público acadêmico, o que talvez justifique o insuficiente aprofundamento de algumas questões, mas os argumentos desenvolvidos por Giddens são coerentes com sua produção e posição intelectual. O desconcertante é que o seu pragmatismo pode parecer ao leitor mais ilusório que a utopia defendida por Milton Santos.